Jeritan Ibu Pertiwi – Parte 3

Mais e mais artistas

por Mateus Ferrari
(English version below)

Passado o choque cultural e artístico do início do nosso processo colaborativo, estávamos com o espetáculo caminhando para um resultado interessante, que representava bem a mistura de culturas, técnicas e artistas envolvidos no processo. Conforme relatado no post anterior, havíamos aceitado a ideia de construir a peça para um palco grande. Surgiu daí a necessidade de pensar em uma forma de preencher este palco e “vesti-lo” com as características visuais da cultura Minangkabau. A intenção era ser o mais minimalista possível, pois tínhamos a possibilidade de viajar para algumas cidades da Indonésia (o que acabou não acontecendo por motivos políticos e burocráticos) e queríamos economizar o máximo no tamanho do cenário e adereços para viabilizar esta possível turnê.

Ativo 1-100Conceito para o cenário do espetáculo…

Em uma das cenas a personagem luta contra uma sombra criada através de uma projeção mapeada, ou seja, teríamos um projetor no espetáculo. A partir disso, decidimos utilizar algumas ilustrações como fundo nas cenas. A decisão na escolha do artista visual foi fácil: nossa amiga e grande artista russa Polina Buchenkova. Polina é nossa colega de bolsa aqui em Padangpanjang, ela escolheu estudar as artes visuais enquanto nós optamos pelas artes performáticas. Como somos do “bonde da cervejinha” entre os alunos, a conversa foi fácil e direta: – Precisamos de uns desenhos para o cenário do espetáculo, não temos dinheiro, estamos fazendo esta produção na raça e somos fãs da sua arte, topa participar? Com seu senso de humor único e o característico sotaque russo ela respondeu: “Yes, I don´t have nothing better to do, you know…”.

DSC_7306… cena do espetáculo, com cenário e projeção.

Era mais uma grande artista embarcando no nosso processo. Eu fico pensando o que a gente tem que faz as pessoas acreditarem nas nossa ideias malucas, deve ser o jeito expansivo e zoeiro do brasileiro, só pode. Procurei passar as direções e conceitos das ilustrações para a Polina e deixá-la com a maior liberdade possível para que a criatividade e talento dela florescessem. Além das ilustrações, Polina também seria a responsável pela operação das projeções nas apresentações em conjunto com outro grande amigo: o indonésio Willy Andika, que por ser um grande músico iria auxiliá-la nas deixas de troca de projeções que eram precisas com a música. Cabe aqui também agradecer ao Willy por me emprestar o teclado Midi que usei na gravação das músicas do espetáculo. Salvou minha vida!

4 - WaveDesenho de Polina Buchenkova para o espetáculo.

Conforme citado anteriormente, precisávamos também de um artista para a cena de luta. Outra escolha simples: nosso amigo James Tiana, de Madagascar – África. Nas aulas de Silat ele sempre foi, de longe, o melhor entre nós, com uma facilidade incrível em memorizar e reproduzir com precisão as inúmeras sequências de ataques, defesas e transições características desta complexa arte marcial. Agendamos então uma tarde no teatro para gravar a cena. O plano inicial era utilizar um pano branco com uma luz no fundo para gravar a sombra do lutador. Mas aqui tudo é difícil e não havia nem pano nem refletores disponíveis, teríamos que escrever uma carta para o reitor e esperar e blá-blá-blá. Partimos então para o plano B, conseguimos um projetor emprestado e decidimos gravar de frente, projetando uma luz branca no ciclorama do teatro. Isso dificultou muito a minha edição do material, mas foi possível chegar a um bom resultado. No dia da gravação, nosso tempo no teatro foi reduzido de 4 horas para 1 hora, pois haveria outra gravação (agendada mesmo sabendo-se que gravaríamos durante a tarde toda) e a preferência é sempre dos alunos locais. Precisávamos do palco totalmente escuro e pasmem, para desligar a luz demorou meia-hora até encontrarem o técnico que sabia onde apagar as luzes. Quando finalmente estávamos prontos para gravar, tínhamos 30 minutos.

DSC_2005James Tiana gravando cenas de luta para o espetáculo.

A gravação foi apressada e intensa, o que fez nosso amigo James passar mal devido ao calor e a falta de descanso entre os takes. Mas o espírito de luta dos africanos o fez ir adiante e conseguimos o take perfeito. James, poucos tem a sua energia e companheirismo. Dedicar-se com tudo a um projeto que não é seu não é para todo mundo. Obrigado Amigo.

IMG_20190526_205606_212James, Janine, Mateus, Polina e Willy curtindo o descanso após as apresentações.

Para fechar a apresentação da equipe, temos os alunos do curso de teatro. Todos muito jovens (entre 18 e 21 anos) cheios de energia e prontidão para nos ajudar. Durante o processo nos ajudavam com a montagem do palco para os ensaios e também com adereços e figurinos. Eles trabalham muito duro, porém é nítido que o curso de teatro não oferece um conteúdo aprofundado relacionado à produção, até pela maneira como as apresentações artísticas são realizadas na Indonésia. Aqui não se gasta tempo planejando, decide-se e faz-se tudo na hora, o que obviamente traz uma série de problemas, que não incomodam o povo local, mas que para nós interferem na qualidade da produção e consequentemente da apresentação. Pouco a pouco conseguimos estabelecer alguns parâmetros para a organização do trabalho e passamos para eles nossa experiência no planejamento e execução de produções teatrais. Foi nítida a evolução do trabalho deles e esperamos que os conhecimentos que compartilhamos possam auxiliá-los em seus próximos projetos.

Nosso muito obrigado para Yeni Wahyuni (direção de palco), Junari Adi Saputra (cenotécnico), Muhammad Haikal (adereços), Rahmi Lestari (adereços), Risky Fahclevi (iluminação), Rahma Dona (maquiagem e figurinos), Aulia Firm Gusra (som), Tiara Larassati (equipamentos) e aos outros alunos que colaboraram conosco durante o processo.

DSC_1891Equipe no palco após apresentação em Padang.

Para finalizar, ainda falando sobre os alunos de teatro, me orgulhou muito ver a forma como eles organizaram e lideraram os protestos contra o reitor da universidade, buscando na garganta soluções para os diversos problemas da instituição. Pelo contrato da bolsa de estudos, nós não podemos participar de manifestações e atividades políticas, mas disfarçadamente consegui demonstrar meu apoio à causa e aos alunos nos dias de manifestações. Espero realmente que as coisas melhorem e que os alunos tenham melhores condições de estudo aqui no ISI Padangpanjang.

No próximo e último capítulo desta série, vamos falar sobre as apresentações do espetáculo no Festival de Teatro de Padang e no campus do Institut Seni Indonesia Padangpanjang.

(Continua no próximo post).

Jeritan Ibu Pertiwi – Part 3

More and more artists

by Mateus Ferrari

After the cultural and artistic shock of the beginning of our collaborative process, the theater play was moving towards an interesting result, which represented well the mixture of cultures, techniques and artists involved in the process. As reported in the previous post, we had accepted the idea of building the play for a big stage. There arose the need to think of a way to fill this stage and “dress it” with the visual characteristics of the Minangkabau culture. The intention was to be as minimal as possible because we had the possibility to travel to some cities of Indonesia (which did not happen because of political and bureaucratic reasons) and we wanted to save the maximum on the size of the scenery and props to make this possible tour possible.

In one of the scenes the character fights against a shadow created through a mapped projection, that is, we would have a projector in the play. From that, we decided to use some illustrations as background in the scenes. The decision in choosing the visual artist was easy: our friend and great Russian artist Polina Buchenkova. Polina is our colleague here in Padangpanjang, she chose to study the visual arts while we opted for the performing arts. As we are in the “beer crew” among the students, the conversation was easy and straightforward: – We need some drawings for the scenery of the play, we do not have money, we are doing this production all by ourselves and we are fans of your art, do you want to join us? With her unique sense of humor and the characteristic Russian accent she replied, “Yes, I do not have anything better to do, you know …”.

She was another great artist embarking on our process. I keep thinking what we have that makes people believe in our crazy ideas, it must be the Brazilian’s expansive and funny way, I guess. I tried to brief the directions and concepts of the illustrations to Polina and leave her with as much freedom as possible for her creativity and talent to flourish. In addition to the illustrations, Polina would also be responsible for the operation of the projections in the performance along with another beloved friend: Willy Andika, who as a great musician would assist her in the changes of projections that were accurate with the music. It is also my pleasure to thank Willy for lending me the Midi keyboard I used to record the songs of the play. He saved my life!

As mentioned earlier, we also needed an artist for the fight scene. Another simple choice: our friend James Tiana from Madagascar. In Silat classes he has always been by far the best among us, with an incredible facility in memorizing and accurately reproducing the innumerable sequences of attacks, defenses and transitions characteristic of this complex martial art. We then scheduled an afternoon at the theater to record the scene. The initial plan was to use a white fabric with a light in the background to record the shadow of the fighter. But here everything is difficult and there was neither fabric nor reflectors available, we would have to write a letter to the dean and wait and blah blah blah. We then set out for Plan B, got a borrowed projector, and decided to record from the front, projecting a white light into the theater’s cyclorama. This made it very difficult for me to edit the material, but it was possible to achieve a good result. On the day of recording, our time in the theater was reduced from 4 hours to 1 hour, because there would be another recording (scheduled even though everybody knew that we would record all afternoon) and the preference is always of the local students. We needed the stage totally dark and it can seem a lie, but to turn off the light it took half an hour until they found the technician who knew where to turn off the lights. When we were finally ready to record, we had 30 minutes.

The recording was rushed and intense, which made our friend James go bad due to the heat and the lack of rest between takes. But the fighting spirit of the Africans made him go ahead and we got the perfect take. James, few people have your energy and companionship. Dedicating yourself to a project that is not yours is not for everyone. Thank you friend.

To close the presentation of the team, we have the students of the theater course. All very young (between 18 and 21 years old) full of energy and readiness to help us. During the process they helped us with the assembly of the stage for the rehearsals and also with props and costumes. They work very hard, but it is clear that the theater course does not offer in-depth content related to production, probably by the way the artistic presentations are held in Indonesia. Here time is not spent planning, everything is decided on time, obviously bringing a series of problems, which do not bother the local people, but for us interfere in the quality of the production and consequently the performance. Step by step we were able to establish some parameters for the organization of the work and we passed on to them our experience in the planning and execution of theatrical productions. The evolution of their work was clear and we hope that the knowledge we share can help them in their next projects.

Our thanks to Yeni Wahyuni (stage direction), Junari Adi Saputra (cenotechnician), Muhammad Haikal (props), Rahmi Lestari (props), Risky Fahclevi (lighting), Rahma Dona (makeup and costumes), Aulia Firm Gusra (sound), Tiara Larassati (equipment) and all the other students who collaborated with us during the process.

Finally, still talking about the students of theater, I was very proud to see how they organized and led the protests against the university rector, seeking with their voices solutions to the various problems of the institution. By the scholarship contract, we can not participate in demonstrations and political activities, but I covertly demonstrated my support for the cause and the students in the days of demonstrations. I really hope things get better and that students have better conditions of study here at ISI Padangpanjang.

In the next and last chapter of this series, we will talk about the performances of the play at the Padang Theater Festival and at the campus of the Institut Seni Indonesia Padangpanjang.

(To be continued)

Jeritan Ibu Pertiwi – Parte 2

Corrida de obstáculos

por Janine de Campos
(English version below)

Cada vez mais descobrimos que a vida é feita de escolhas. Parece uma frase de caminhão, mas a realidade é essa mesma. E quando você faz uma escolha quer dizer que você tem que abdicar de algo para obter outro algo. Nessa nossa escolha de embarcar num processo de criação teatral nós tivemos que deixar de viajar nas férias, de beber nossa cerveja no fim de semana, de comer as coisas mais caras (porque sabíamos que tínhamos que guardar o máximo de dinheiro para o que a obra pedisse), de dormir até tarde e de ter uma vida confortável. Sabíamos que a outra escolha era “mais prazerosa”, mas nós, artistas que somos, tínhamos sede de criar.

PP05-1Em um dos raros momentos em que tivemos uma sala para ensaiar, no começo do processo.

Além de não fazer parte do time dos “que tinham prazeres”, logo no começo já entendemos que teríamos  muitos obstáculos para enfrentar. Já ouvi muitas reclamações sobre o Brasil ser um país burocrático, onde tudo demora e temos que ter paciência. Vocês não tem ideia do que é a Indonésia. Enquanto na Índia um dos meus maiores aprendizados foi em relação ao tempo, aqui na Indonésia o meu maior aprendizado é sobre: PACIÊNCIA e como consequência, RESILIÊNCIA.

Nosso primeiro obstáculo foi encontrar um local para começar os ensaios. Nossa coordenadora nos informou que teríamos que fazer uma carta com o pedido de sala endereçada ao reitor da Universidade, que deveria assinar e então passar para o departamento de teatro, para então chegar a liberação no departamento internacional (que trata dos assuntos dos estrangeiros). Fizemos a carta em novembro, para conseguir uma sala que pudéssemos usar em dezembro e janeiro, durante as nossas férias. Enquanto não tínhamos resposta, resolvi tentar a sorte em alguns horários alternativos. Acordava cedo e assim que via uma sala de dança livre já tomava meu lugar, mas logo já chegava alguém informando que em 10 minutos iria começar a aula ou os alunos locais iriam utilizar para ensaio. Os horários das aulas eram confusos e não havia uma rotina lógica. Tive experiências com alunas de dança mais velhas que foram super arrogantes (o que comprova que esse tipo de pessoa, que trabalha com o ego inflado existe em todos os cantos do mundo, mesmo na Ásia).

PP05-2Janine ensaiando e no fundo a “gata porteira” assegurando-se que ninguém entrasse na nossa sala.

Foi assim, durante as férias inteiras. Pulando de sala em sala. Mas logo no começo as Deusas do teatro já começaram a “dar as caras”. No primeiro dia de ensaio estava sozinha na sala, com a porta aberta e uma gata entrou e ficou me observando. Quando terminei, sentei e ela se aproximou de mim, subiu no meu colo e ali ficou. Eu me emocionei pois no espetáculo a personagem conta seus problemas para uma gata que ela encontrou em seu caminho durante uma tempestade. Coincidentemente, ou como eu acredito, “destinamente”, eu e o Mateus salvamos 4 filhotes de gatos que estavam morrendo após uma forte tempestade no último dia de 2018. Passamos a virada do ano sozinhos na varanda da minha casa, eu, o Mateus e 4 filhotes de gatos que transformaram nosso ano novo com apenas 1 fogo de artifício numa diversão pura! Acredito realmente que as Deusas estavam do nosso lado.

Sabíamos que tínhamos a benção das Deusas, mas a burocracia não estava facilitando nossa vida, era clara a necessidade de aprender um pouco mais sobre paciência. Nossa coordenadora foi fazer um curso fora da cidade e ficou 2 meses sem aparecer, o que atrasou, e muito, nossa saga da sala. Só após a chegada dela, na metade de janeiro que a liberação foi autorizada e como ela sabia de nossos anseios e talvez até como um pedido de desculpas pela demora, o que ela nos deu de presente para o ensaio foi: o teatro. Lembro que ficamos muito felizes de ter um espaço em que poderíamos guardar as coisas e ainda poder ter a energia de um teatro para trabalhar. O teatro era grande e como queríamos fazer uma coisa mais intimista, não fomos direto para o palco, pois para nós, o palco é sagrado e só iríamos para lá quando tivéssemos o direito de pisar nele. Começamos a ensaiar num corredor com espelhos atrás do palco, o que facilitava a minha direção coreográfica. O melhor horário era bem cedo, pois nos dias de evento os estudantes poderiam chegar e atrapalhar o andamento.

PP05-4Testando adereços e figurinos Minagkabau.

Assim, todos os dias ao amanhecer estávamos lá, eu e o Mateus, inventando, criando, recriando, tentando entender como seria esse novo processo para a gente. Comecei criando uma base coreográfica de desenho de corpo (vindo dos ensinamentos do Eugenio Barba que tenho experienciado nos últimos anos) estimulado pelas visões e estados que a dramaturgia trazia (método do Théâtre du Soleil). O Mateus aos poucos, a cada dia, ia trazendo a música e a musicalidade da cena para a composição. Tínhamos um rascunho de 3 cenas quando nossa coordenadora chegou para assistir um ensaio e entender o que esses “bulês” obcecados estavam inventando. Ela assistiu só o final da terceira cena e resolver fazer uma ligação, dizendo para que esperássemos antes de mostrar o processo do começo. Nessa ligação ela convidou o diretor teatral Yusril Katil para assistir o trabalho pois achou que poderia interessá-lo.

PP05-6Ensaio com protótipos de bonecos javaneses, wayang.

Katil é um diretor que trabalha principalmente com teatro físico e desde o começo dos estudos por aqui já me falaram que deveríamos conhecê-lo pois nossos estilos de  trabalho se aproximavam. Certa vez a coordenadora me chamou para assistir um ensaio de um espetáculo que ele estava fazendo até para saber se eu não queria participar (ele gosta muito de trabalhar o interculturalismo). Eu fui assistir e cheguei a conclusão que os atores deles eram tão bons fisicamente, que tinham um corpo tão preparado e tão Minangkabau, que ia demorar um bom tempo para que eu me igualasse à eles (ou seja, pensei que não era boa o suficiente para o que ele precisava). Me arrependi depois, em ter dito não, talvez por medo, talvez eu devesse arriscar já que é para isso que eu estava aqui, mas eu sabia que a data para a apresentação era próxima, então teria que parar tudo que estava fazendo só para me dedicar a isso (o que atrapalharia meus estudos). Me lembro que pensei que gostaria muito de trabalhar com ele. E como as Deusas tem uma audição apurada: lá estava ele naquele dia, assistindo o que eu e o Mateus havíamos criado até o momento.

PP05-8Mateus ensaiando, tocando os gongos de Sumatra, os talempongs.

Logo que acabou o ensaio, sentamos para conversar, ele não fala inglês, e ainda não sabíamos muito de indonésio. Tintun, a coordenadora, fez a tradução/mediação. Ele fez observações sobre o que viu, disse que para ele era bem contemporâneo, que tinha a essência do tradicional com um novo olhar e que gostaria de fazer parte do processo. Começou, naquele momento, uma nova etapa da nossa criação: a colaboração entre artistas de diferentes países, que não falam a mesma língua, trabalhando juntos para a construção de uma obra de arte.

No outro dia Tintun convidou um outro amigo dela, um professor e bailarino, cujo trabalho conhecemos quando assistimos sua performance de dança na primeira semana, (segundo o Mateus, uma das melhores danças que ele assistiu na vida dele), e realmente ele era fantástico, lembro de pensar pensar: “nossa! Que corpo! queria poder saber dançar como ele”!. E eis que as Deusas nos escutaram de novo e, Ali Sucri, que também não falava nenhum pouco de inglês, seria mais um colaborador da obra para trabalhar as coreografias e as técnicas corporais tradicionais.

PP05-5Janine trabalhando na construção de desenhos corporais Minagkabau.

“Que responsabilidade”, eu pensava e “que honra, que benção das Deusas, que oportunidade”!. Sim, foi uma oportunidade única na vida! Dessas que trazem muitos aprendizados e muita história para contar. Não pensem que tudo foi um “mar de rosas”, não foi mesmo! O primeiro problema que tivemos foi agenda, os 3 envolvidos eram professores e grandes artistas, logo estavam sempre cheios de compromissos. A gente tinha nossas aulas e o teatro tinha limite de horários (em algumas oportunidades o teatro era fechado para o responsável ir rezar na mesquita). Era sempre uma incógnita, não sabíamos se criávamos sozinhos com a possibilidade deles chegarem e mudarem tudo ou se esperávamos eles aparecerem. A coisa só ficou mais constante quando Katil foi convidado para apresentar um espetáculo dele em um Festival de Teatro numa Universidade em Padang (capital da província) e escolheu a gente para apresentar. Junto com isso, Tintun fez com que os alunos do curso de teatro acompanhassem o processo e ajudassem nas necessidades técnicas como parte das aulas no semestre. Como a apresentação estava super próxima (tínhamos cerca de 2 semanas) decidimos em conjunto apresentar só uma parte da dramaturgia, como um work-in-progress, assim poderíamos dedicar este tempo para detalhar o que havíamos criado e deixar o mais redondo possível.

Tivemos vários debates e diferenças, principalmente por 2 motivos: o primeiro relacionado à dificuldade de comunicação. Não era sempre que tínhamos alguém para traduzir o que era dito, então muito do diálogo que deve ser feito em qualquer processo de criação se perdeu nessa confusão. Por ser um teatro baseado no físico, nos entendíamos através de apontamentos feitos na prática, no próprio corpo, já que Katil cuidava da direção e Sucri das coreografias. O segundo ponto de discordância era diretamente relacionado à linguagem teatral. Viemos de um teatro em que a musicalidade da cena e principalmente a “urgência” são as bases de trabalho. Para nós, o espetáculo é uma grande orquestra ritmada e quando há lentidão nas cenas, esta precisa ser bem justificada e com o estado dilatado. Eles adoram uma lentidão! Assistimos muitos espetáculos aqui em que a dançarina atravessava o palco (que é bem grande) num ritmo absurdamente lento, e víamos a maioria da plateia aproveitar a oportunidade para checar os celulares e pensar nos problemas da vida. Esse era nosso maior medo. No começo deixamos fluir para ver aonde iriam chegar e o que podíamos aprender com essa dificuldade, mas chegou o momento que tivemos que falar sobre essa diferença e, apesar de saber que eles não estavam 100% satisfeitos, chegamos ao meio termo, ou ao que almejamos em todos os aspectos da vida, ao equilíbrio.

PP05-9A equipe do espetáculo Jeritan Ibu Pertiwi debatendo após o ensaio.

Acho que foi um pouco sofrido para os dois lados. Nós queríamos algo intimista, pequeno, em que a plateia pudesse olhar nos olhos da personagem, afinal, seria apenas uma atriz e um músico em cena. Eles, como já vimos em suas apresentações anteriores, gostavam da ideia de ser algo grande (por ser bem físico), largo. Após bastante sofrimento e relutância, chegou um ponto em que eu e o Mateus nos deixamos levar pela experiência. Deixamos de lado a ideia que imaginávamos para mergulhar na colaboração, para trocar, para aprender. Deixamos de lado o que era o nosso jeito “certo” de trabalhar para ir de encontro com o que é “certo” para eles. Quem disse que o nosso jeito é o “certo”? Quem disse que o deles é o “certo”? Esse é o grande aprendizado dessa jornada: desapegar de nossas crenças de certo e errado e deixar-nos guiar pela experiência única que estávamos tendo a oportunidade de ter, ou seja, viver o processo.

Tenho muito orgulho dessa experiência e muito carinho e gratidão por todos aqueles que fizeram parte dela, que acreditaram no trabalho de dois “bules kacau” (gringos loucos), que dedicaram seu tempo e seu trabalho à criação de uma obra de arte, que deram a “cara para bater”, pois o espetáculo é uma crítica a alguns costumes da sociedade em que eles vivem, que colocaram sua alma nesse projeto e que entenderam junto com a gente que a linguagem da arte é universal e é uma poderosa ferramenta de aprendizado e transformação humana.

(Continua no próximo post)

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Jeritan Ibu Pertiwi – Parte 2

Obstacle race

by Janine de Campos

More and more we discover that life is made of choices. It may sound a little cheeky, but the reality is that. And when you make a choice it means you have to give up something to get something else. In our choice of embarking on a process of theatrical creation we had to give up on vacationing, drinking our beer over the weekend, eating the more expensive food (because we knew we had to save as much money as the play asked for), sleeping late and having a comfortable life. We knew that the other choice was “more enjoyable,” but we, as the artists we are, were thirsting to create.

Besides not being part of the team that had “pleasures”, at the beginning we already understood that we would have many obstacles to face. I’ve heard many complaints about Brazil being a bureaucratic country, where everything takes time and we have to be patient. You have no idea what Indonesia is. While in India one of my greatest learnings was about time, here in Indonesia my greatest learning is about: PATIENCE and as a consequence, RESILIENCE.

Our first obstacle was finding a place to start the rehearsals. Our coordinator informed us that we would have to make a letter with the room request addressed to the university’s rector, who should sign and then send to the theater department, who would send the authorization to the international office (which deals with foreign affairs). We did the letter in November to get a room we could use in December and January during our vacation. While we did not have the answer, I decided to try our luck at some alternative times. I used to wake up early and as soon as I saw a dance room free, I would take my place, but soon someone would arrive saying that in 10 minutes the class would start or the local students would use it for rehearsal. Class times were always confusing and there was no logical schedule. I had experiences with older dance students who were super arrogant (which proves that this type of person, who works with the inflated ego exists in every corner of the world, even in Asia).

It was like this, during the whole vacation. Leaping from room to room. But right at the beginning, the Goddesses of the theater have begun to “move their fingers”. On the first day of rehearsal, when I was in the room with the door open, a cat came in and watched me. When I finished, I sat down and it approached me, climbed on my lap and lay there. I was very emotional because in the theater play, the character tells her problems to a cat she encountered on her way during a storm. Coincidentally, or as I believe, “by fate”, Mateus and I saved 4 kittens that were dying after a heavy storm on the last day of 2018. We spent the new years eve on the porch of my house, me, Mateus and the 4 kittens that have transformed our New Year with only 1 firework into pure fun! I really believe that the Goddesses were on our side.

We knew we had the blessing of the Goddesses, but the bureaucracy was not making our lives easier, we knew we had to learn a little more about patience. Our coordinator went to take a course outside of the city and was 2 months without appearing, which delayed, and much, our saga of the room. Only after her arrival in the middle of January that the letter about the room was authorized and how she knew of our yearnings and perhaps even as an apology for the delay, she gave us as a gift for the rehearsal: the theater. I remember that we were very happy to have a space in which we could save our things and still be able to have the energy of a theater to work. At first we knew the theater was great, and as we wanted to do something more intimate, we did not go straight to the stage, because for us, the stage is sacred and we would only go there when we had the right to step on it. We started rehearsing in a hallway with mirrors behind the stage, which made my choreographic direction easier. The best time was very early, because on the days with events scheduled the students could arrive and disrupt the progress.

So every day at dawn, we were there, me and Mateus, inventing, creating, recreating, trying to understand what this new process would be like for us. I started by creating a choreographic body drawing base (coming from the teachings of Eugenio Barba which I had experienced in recent years) stimulated by the visions and character states that the dramaturgy brought (Théâtre du Soleil method). Mateus gradually, each day, brought the music and musicality of the scene to the composition. We had a sketch of 3 scenes when our coordinator arrived to watch a rehearsal and understand what these obsessed “bules” were making up. She watched only the end of the third scene and decided to make a phone call telling us to wait before showing the process from the beginning. In this call she invited the theater director Yusril Katil to attend the rehearsal because she thought it might interest him.

Katil is a director who works primarily with physical theater and from the beginning I’ve been told that I should meet him because it suited our type of work. The coordinator called me to attend a rehearsal on a play he was doing to know if maybe I could participate (he likes to work on interculturalism). I went to watch and I came to the conclusion that the actors were so good physically, with bodies so prepared and so Minangkabau that it would take a long time for me to match them (in other words I thought I was not good enough for what he needed). I regretted it later, saying no, maybe out of fear, maybe I should take a chance because that’s what I was here for, but I knew the date for the presentation was next, so I would have to stop everything and concentrate 100% on this (which would disrupt my studies). I remember thinking I’d really like to work with him. And as the Goddesses have a clear hearing: there he was that day, watching what Mateus and I had created so far.

As soon as we finished the rehearsal, we sat down to talk, he don´t  speaks English, and we still did not know much about Indonesian. Tintun, the coordinator, did the translation/mediation. He made remarks about what he saw, said that for him it was quite contemporary, that he saw the essence of traditional with a new look and that he would like to be part of the process. At that moment a new stage of our creation began: collaboration between artists from different countries, who do not speak the same language, working together to build an artistic piece.

The next day Tintun invited another friend of hers, a teacher and dancer, who we watched dancing on our first week in Padangpanjang (according to Mateus, one of the best dances he saw in his life), and indeed he was fantastic, I even thought: “Wow! What a body! I wish I could know how to dance like him”! And, behold, the Goddesses listened again, and Ali Sucri, who also don´t speak English, would be one more collaborator in the process to work on traditional choreography and body techniques.

“What a responsibility,” I thought and “what an honor, what a blessing from the Goddesses, what an opportunity”! Yes, it was a once in a lifetime opportunity. One of those that bring lots of learning and lots of story to tell. Do not think that everything was like a fairytale, it was not! The first problem we had were the schedules, the 3 involved were teachers and great artists so they were always with the busy schedule. We had our classes and the theater had a limit of hours (in some cases the theater was closed so the person in charge could go to pray in the mosque). It was always a mystery, we did not know if we should advance alone with the possibility of them coming and changing everything or if we should wait them to appear. The process only became more solid when Katil was invited to present one of his performances at a Theater Festival of a University in Padang (capital of the province) and he choose us to perform. Along with this, Tintun made the students of the theater course follow the process and help in the technical needs as part of the classes in the semester. As the date of the performance was close we decided together to present only part of the dramaturgy as a work-in-progress, so we could take time to detail what we had created and leave it as round as possible.

We had several debates and differences, mainly for two reasons: the first related to the difficulty of communication. It was not every time we had someone to translate what was said, so much of the dialogue that must be done in any creation process was lost in this mess. What really saved was that, because it was a theater based on the physical, the notes were made in the practice, in the own body, since Yusril took care of the direction and Sucre of the choreographies. The second point of disagreement was directly related to the theatrical language. We came from a theater in which the musicality of the scene and especially the “urgency” in the theater are the basis. For us, a theater play is a great rhythmic orchestra and when the scene demands slowness it needs to be well justified and dilated. They love slowness! We watched a lot of performances here where the dancer walked across the stage (which is quite large) at an absurdly slow pace, and we saw most of the audience seizing the opportunity to check their cell phones and think about the problems of life. That was our greatest fear. At first we let ourselves flow to see where they would arrive and what we could learn from this difficulty, but the time came when we had to talk about that difference and, although we knew they were not 100% satisfied, we came to the middle ground, or to what we strive in every aspect of life: balance.

I think it was a little painful for both sides. We wanted something intimate and small, where the audience could look into the character’s eyes, after all, it would just be an actress and a musician on the stage. They, as we have seen in their previous presentations, liked the idea of something big (for being very physical), wide. After some suffering it cames to a point where Mateus and I let ourselves be carried away by experience. We set aside the idea we imagined to plunge into collaboration, to exchange, to learn. We set aside what was our “right” way of working to meet what was “right” for them. Who says our way is the right one? Who said it was theirs? This is the great learning of this journey: letting go of our beliefs of right and wrong and letting ourselves be guided by the unique experience we were having, living the process.

I am very proud of this experience and very caring and grateful for all those who were part of it, who believed in the work of two “bule kacau” (crazy foreigners), who dedicated their time and their work to the creation of a work of art, which expose themselves, since the play has criticism of some customs of the society in which they live, who put their soul in this project and who understood together with us that the language of art is universal and is a powerful tool of learning and human transformation.

(To be continued)

Jeritan Ibu Pertiwi – Parte 1

Quais são os planos?

por Janine de Campos
(English version below)

Quando fomos aprovados para a bolsa de estudos na Indonésia, inicialmente pensei que deveríamos chegar, viver, experimentar e nos deixar guiar pelos acontecimentos para então sabermos qual seria o resultado de todos os aprendizados. Vim pensando que iríamos aprender as novas artes como se degusta um bom livro: vamos ler e no final entenderemos como ele nos toca e quais serão as consequências. Porém, somos artistas agitados e sensíveis ao entorno, então os estímulos de uma vida em uma sociedade tão complexa e distante da nossa realidade e o tempo livre entre os estudos, nos trouxe o anseio imediato de criar algo concreto e inspirado na nossa experiência em Sumatra: um espetáculo teatral sobre a mulher na cultura Minangkabau.

DSC_1722A menina…

Me lembro que ainda no Brasil, já conversávamos sobre assuntos que gostaríamos de abordar em um futuro espetáculo, mas o papo sempre era de realizar o processo de criação no retorno ao nosso país. Antes mesmo de chegar em Padangpanjang sabíamos que iríamos morar no meio de 2 grandes vulcões (1 ainda em atividade) e que essa situação, de viver em um local com a possibilidade de uma erupção vulcânica, nos mostrava que a vida poderia acabar em um segundo, e sem culpados da tragédia. Era um risco que estávamos dispostos a correr, e que o povo daqui corre todos os dias. Então, já tínhamos a ideia de uma história sobre uma menina que morava no meio de 2 vulcões e… bom, só isso já seria um bom começo para a criação.

Jpeg… e os vulcões (Singgalang e Marapi).

Chegamos aqui. Conhecemos de longe os 2 vulcões (em suas raras aparições por entre as nuvens da chuvosa Padangpanjang) e aos poucos fomos conhecendo o povo que mora no meio deles. Tivemos contato com as artes que iríamos aprender, assistimos algumas apresentações, visitamos um vilarejo que preserva as raízes da cultura Minangkabau, mas tudo ainda parecia de certa maneira superficial, não porque não estávamos indo fundo o bastante, mas principalmente devido ao problema de comunicação, afinal, a maioria não fala inglês e nosso minang (dialeto local) e indonésio (idioma nacional) estavam no básico do básico. Essa é um dos primeiras dificuldades de trabalhar com interculturalismo: a comunicação. Foi um dos nossos maiores problemas, sem dúvida, e nos levou para bem longe da nossa zona de conforto como humanos e como artistas.

DSC_9197Tocando com o povo da vila tradicional de Jawi-Jawi.

Com a dificuldade de entender na prática a cultura e a história local, decidi procurar nos livros a teoria do que estávamos experienciando. Fui na biblioteca da Universidade e achei um dos únicos livros em inglês que conta a história do povo Minangkabau (Journey to the Land of the Earth Goddess – Katherine Stenger Frey). Esse era um daqueles livros que não podem ser levados para a casa, só consulta local, então fiquei 3 meses indo quase todos os dias até a biblioteca para esse “encontro”. Como o inglês não é minha língua nativa, no começo demorava horas para compreender uma página, mas com o tempo, meu cérebro começou a trabalhar no modo trilíngue e a prática diária deixou mais rápida a compreensão.

Falando em prática, gostaria de fazer um parênteses para escrever sobre um grande aprendizado que já vinha tendo antes de vir para cá, mas acho que aqui ficou mais evidente: você consegue fazer muita coisa que você nem imaginaria se você dedicar tempo e trabalho diário. Digo isso porque aqui aprendi a tocar 2 instrumentos que, à primeira vista, pareciam impossíveis, mas que com treino diário, me fez me tornar a nova percussionista do ArteJornadaHumana (para alegria e orgulho do Mateus). O próprio Mateus, que se considerava apenas músico, aprendeu e evoluiu muito na aula de Silat (ou Silek, arte marcial Minangkabau). O trabalho de artista foi completo uma vez que eu tive que trabalhar o meu desconforto nos instrumentos musicais e o Mateus teve que trabalhar o desconforto dele no trabalho corporal. Cada vez mais tenho a certeza de que um artista pode e deve ser envolto em todas as artes possíveis e que dissociá-las é sempre uma perda.

JpegBiblioteca do Institut Seni Indonesia Padangpanjang.

Bom, terminei o livro da biblioteca e pela internet comprei mais 2 que poderiam colaborar com a nossa pesquisa: um sobre o povo Minangkabau, mais especificamente sobre o sistema social matriarcal que me interessava muito (Unexpected Matriarchs Book 2 – Simon Bird & Katerina Karaskova) e outro que trazia na teoria as artes cênicas que estávamos estudando mais a fundo (Theater & Martial Arts in West Sumatra – Randai & Silek of the Minangkabau – Kirstin Pauka), esse, como veio do Amazon chegou bem depois que havíamos iniciado o processo de criação, e pasmem, muito do que estávamos trabalhando estava diretamente relacionado ao que o livro trazia de informação (essa é a magia do teatro, que sempre nos surpreende). Assim como no Kathakali, os gurus não trazem muito da teoria, tudo que aprendemos é na prática. Tenho certeza que isso é proposital para o melhor aprendizado, mas como nosso tempo com os mestres era pouco para conhecer as grandiosidades das artes, os livros ajudaram a abrir os caminhos para um aprendizado mais aprofundado.

Não lembro exatamente, mas acho que estava na metade do livro sobre o matriarcado quando, num sábado a tarde, sem nenhuma tarefa específica para fazer, me deu a vontade de escrever uma base para a dramaturgia. Sentei na minha cama, peguei meu caderno e comecei a escrever… foi uma coisa muito louca (de novo a magia do teatro aparecendo), fui escrevendo cena por cena sem pensar, sem racionalizar, quase sem respirar. As imagens estavam bem claras na minha mente e simplesmente vieram quase como uma psicografia, muito provavelmente porque aquilo já estava fervendo dentro de mim conforme ia adentrando mais profundamente essas novas terras, essa nova sociedade e cada vez mais senti a necessidade de criar um espetáculo aqui, nesse lugar, e apresentá-lo para eles, os donos da terra, o povo Minangkabau. Um dia depois, fui com o Mateus comprar o almoço que ele mais gosta (frango frito), pegamos uma chuva e comemos embaixo da marquise da casa dele (meninas não podem entrar na casa dos meninos e vice-versa). Entre um pedaço e outro, gritando para vencer o barulho da chuva e com as mãos cheias de gordura fui contando para o Mateus o aqui havia escrito no dia anterior. Falei: “- é só um começo… uma base para a gente começar…” e a resposta dele foi: “- é isso”.

Screenshot_20190519-193444_GalleryCanovaccio do espetáculo Jeritan Ibu Pertiwi.

Ok, então era isso. Iríamos começar a nossa jornada de criar um espetáculo teatral no outro lado do mundo. Se em Curitiba, com nosso antigo grupo que tinha uma casa, uma diretora, um cenógrafo, um iluminador, patrocinadores, ou seja, estrutura, já é muito difícil criar um espetáculo teatral imagine na nossa nova situação, totalmente fora da nossa zona de conforto, sozinhos, só eu e o Mateus, uma atriz e um músico, sem estrutura nenhuma, sem dinheiro para investir e com enormes dificuldades na comunicação para tentar pedir qualquer tipo de ajuda. O que tínhamos era a vontade de fazer e o amor pela arte que nunca nos faz desistir.

Um dos grandes aprendizados de nossas viagens é não criar expectativas, e aqui, como ninguém conhecia nossos trabalhos anteriores, nem nossas personalidades, pudemos abandonar algumas crenças vindas do passado e nos sentir realmente livres e abertos para receber a obra do jeito que ela viria, sem pensar muito no resultado final, mas aproveitando a vivência do processo. Assim, começamos a nossa jornada prática da criação, com uma história no papel, um monte de visões na mente, com tempo para dedicar, muita vontade de criar, amor para doar à essa criação e principalmente: sem grandes expectativas para o resultado.
(Continua no próximo post)

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Jeritan Ibu Pertiwi – Part 1

What are the plans?

by Janine de Campos

When we were approved for the scholarship in Indonesia, I initially thought we should come, live, experience and let ourselves be guided by what happens so we know what the outcome of all learning will be. I came thinking that we would learn the new arts as if tasting a good book: let’s read and in the end we will understand how it touches us and what the consequences will be. However, we are agitated and sensitive artists to the surroundings, so the stimuli of a life in a society so complex and distant from our reality and free time between studies, brought us the immediate desire to create something concrete and inspired by our experience in Sumatra : a theater play about women in the Minangkabau culture.

I remember that even in Brazil, we talked about issues that we would like to address in a future theater play, but the talk was always to carry out the creation process when we return to our country. Before we even arrived in Padangpanjang we knew that we would live between 2 big volcanoes (1 still active) and that this situation, of living in a place with the possibility of a volcanic eruption, showed us that life could end in a second, without one to guilt for the tragedy. It was a risk we were willing to take, and the people here take it every day. So we already had the idea of ??a story about a girl who lived in the middle of 2 volcanoes and … well, that alone would be a good start for creation.

We got here. We meet from a distance the 2 volcanoes (in their rare appearances through the clouds of the rainy Padangpanjang) and gradually we got to know the people who live between them. We had contact with the arts that we were going to learn, we watched some presentations, we visited a village that preserves the roots of the Minangkabau culture, but everything still seemed somewhat superficial, not because we were not going deep enough but mainly because of the communication problem, after all, most do not speak English and our minang (local dialect) and Indonesian (national language) were in the most basic level. This is one of the first difficulties of working with interculturalism: communication. It was one of our biggest problems, no doubt, and it took us quite far from our comfort zone as humans and as artists.

With the difficulty of understanding the local culture and history in practice, I decided to search the books for the theory of what we were experiencing. I went to the University Library and found one of the only books in English that tells the story of the Minangkabau people (Journey to the Land of the Earth Goddess – Katherine Stenger Frey). This was one of those books that can not be taken home, just for local researchn, so I spent 3 months going almost every day to the library for that “meeting”. Because English is not my native language, it took hours to understand a page in the beginning, but over time my brain started working in trilingual mode, and daily practice made comprehension quicker.

Speaking of practice, I would like to make a parenthesis to write about a great learning that I already had before coming here, but I think it became more evident here: you can do a lot that you would not even know if you dedicate time and daily work. I say this because I learned to play 2 instruments that, at first glance, seemed impossible, but with daily training, made me become the new percussionist of ArteJornadaHumana (for Mateus’s joy and pride). Mateus himself, who considered himself only a musician, learned and evolved greatly in the class of Silat (or Silek, Minangkabau´s martial art). The artist’s work was complete since I had to work out my discomfort on musical instruments and Mateus had to work out his discomfort in body work. I am sure that an artist can and should be involved in all possible arts and that dissociating them is always a loss.

Well, I finished the book from the library and bought 2 more that could contribute to our research: one about the Minangkabau people, more specifically about the matriarchal social system that interested me a lot (Unexpected Matriarchs Book 2 – Simon Bird & Katerina Karaskova) and another that brought in the theory of the performing arts that we were studying more deeply (Theater & Martial Arts in West Sumatra – Randai & Silek of the Minangkabau – Kirstin Pauka), that came from the Amazon Online Store, so it arrived well after we had begun the process of creation, and wonder, much of what we were working was directly related to what the book brought with it (this is the theater magic, which always surprises us). Just as in Kathakali, gurus do not bring much of theory, all we learn is in practice. I am sure that this is purposeful for the best learning, but as our time with the masters was little to know the full greatness of the arts, the books helped to open the way for a deeper learning.

I do not remember exactly, but I think I was in the middle of the book about matriarchy when, on a Saturday afternoon, with no specific task to do, it gave me the will to write a basis for dramaturgy. I sat on my bed, picked up my notebook and began to write … it was a very crazy thing (again the magic of the theater appearing), I wrote scene by scene without thinking, without rationalizing, almost without breathing. The images were very clear in my mind and they simply came almost like a psychograph, most probably because it was already boiling inside me as I went deeper into these new lands, this new society and I felt more and more the need to create a theater play in here, in this place, and present it to them, the owners of the land, the people Minangkabau. A day later, I went with Mateus to buy the lunch he likes (fried chicken), we caught a rain and ate under the porch of his house (girls can not enter the boys house and vice versa). Between one piece and another, shouting to beat the noise of the rain and with the hands full of fat I was telling Mateus the lines I had written the day before. I said, “It’s just a start … a basis for us to start …” and his response was, “That’s it.”

Okay, so that was it. We would begin our journey of creating a theater play on the other side of the world. If in Curitiba, with our old group that had a house, a director, a scenario designer, a light designer, sponsors, well… structure, it is already very difficult to create theater, imagine our new situation, totally outside of our comfort zone, alone, me and Mateus, an actress and a musician, with no structure whatsoever, no money to invest and enormous communication difficulties to try to ask for any help. What we had was the will to do and the love for art that makes us never give up.

One of the great lessons of our travels is not to create expectations, and here, as no one knew about our previous works or our personalities, we were able to abandon some beliefs from the past and feel really free and open to receive the play the way it would come, without thinking much about the final result, but taking advantage of the experience of the process. Thus, we begin our practical journey of creation, with a story on paper, a lot of visions in the mind, with time to dedicate, a lot of desire to create, love to give to this creation and especially: without high expectations for the result.

(To be continued)

A Cultura Minangkabau

(English version below)

Você sabia que a Indonésia é formada por mais de 17.508 ilhas? Na cerimônia de abertura do programa Darmasiwa escutamos essa informação algumas vezes e ainda assim era difícil ter a real noção da complexidade e grandeza desse país. Através dessas milhares de ilhas, o povo é distribuído em distintos grupos étnicos, linguísticos, religiosos e consequentemente culturais. Ou seja, a cultura da Indonésia é muito rica e cada região possui sua culinária, dialetos e artes tradicionais, bem como seus costumes e tradições.

Nosso encontro na Indonésia é com o Minangkabau, a cultura do povo de Sumatra Ocidental. Aqui estamos estudando suas músicas e danças tradicionais, além da arte marcial (Silat ou Silek) e o teatro (Randai). Mas antes de falar especificamente da cultura gostaríamos de fazer um parênteses para falar um pouco da história e costumes desse povo tão peculiar.

DSC_0531A encantadora Rumah Gadang em Padang Panjang.

O povo Minangkabau é uma sociedade tradicionalmente matriarcal e muçulmana. Foi por volta do século XVI que o Islã começou a ser adotado, trazido pelos comerciantes do Oriente Médio. Dentro de toda a Indonésia, o povo Minangkabau já foi considerado os mais intelectuais e produtores das melhores literaturas. O centro da sua filosofia é baseado em viver em harmonia com a natureza. Muitos de seus símbolos místicos vêem da força da natureza e principalmente de seus ancestrais. Eles acreditam que a alma de seus ancestrais está sempre renascendo e se conectando e que os espíritos podem habitar plantas, seres humanos, terras, metais e pedras.

Grande parte das manifestações artísticas Minangkabau representam a natureza. Nas artes plásticas e na estamparia, os desenhos de broto de bambu, samambaia e folhas de sirih estão sempre presentes e possuem significados filosóficos que passam de geração em geração.

IMG_20181014_075010_506O Búfalo é o animal-símbolo deste povo e ainda é muito utilizado nas plantações.

Além da relação com a natureza, a maior relação prática desse povo é com a figura da mãe. A grande lenda é sobre a Bundo Kanduang, uma Rainha que detinha o poder do reino Minangkabau há milhares de anos atrás. “Bundo” significa “Mãe”. Ela foi a encarnação de uma Deusa e tinha a tarefa de educar o povo nas leis do ADAT, o sistema matriarcal na qual a propriedade e a descendência é traçada pelas mães. Toda a sociedade girava em torno desse ADAT, as leis e/ou costumes, que contém toda a filosofia do povo Minangkabau, bem como seus deveres aos seus ancestrais, a eles mesmos, ao meio ambiente e aos seus descendentes.

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Bundo Kanduang.

Minangkabau significa “búfalo vitorioso”. Diz a lenda que certa vez houve uma disputa territorial pelas terras do oeste de Sumatra entre o povo local e um reino de Java. Para evitar batalhas e sangue derramado o povo Minang sugeriu que a questão fosse resolvida através de uma luta entra 2 búfalos. Os inimigos aceitaram e começaram a
procurar pelo maior e mais agressivo búfalo que pudessem encontrar. Já o povo  Minangkabau, escolheu o menor e mais inocente búfalo. No dia da batalha, eles amarraram uma lança no nariz do pequeno búfalo. Como haviam imaginado, o grande búfalo javanês não teve medo do pequeno e começou a procurar por algum animal de seu tamanho. O “baby búfalo”, que estava morrendo de fome, foi direto na direção do grande búfalo, na tentativa de encontrar leite e isso permitiu que seu nariz (com a lança) ferisse mortalmente a barriga do grande búfalo, dando ao povo Minangkabau a vitória no conflito e o direito de continuar em suas terras. Essa história ainda pode ser vista como um exemplo da superioridade da inteligência matriarcal Minangkabau, triunfando ante a brutalidade patriarcal dos javaneses.

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A inteligência vence a força bruta.

Os chifres do búfalo serviram de inspiração para as curvas dos telhados das casas tradicionais (Rumah Gadang), e também a forma curvada dos adornos que as mulheres usam na cabeça tanto quando estão trabalhando como em alguns trajes das danças tradicionais.

Apesar de estarmos estudando em sala de aula a língua nacional da Indonésia (Bahasa Indonesia), no dia-a-dia, nas ruas, aprendemos o dialeto do povo Minang. E quando eles escutam “bulês” (gringos) falando a língua local, sempre recebemos sorrisos carregados de surpresa e às vezes até conseguimos descontos por isso.

Quanto à culinária desse povo, a pimenta toma conta do prato (bem mais que na Índia), mas em 4 meses o paladar acaba se acostumando. O arroz está presente em todas as refeições. Peixe, frango, tofu e tempeh (derivado da Indonésia) fazem a vez das proteínas e muitas folhas verdes e vegetais complementam o cardápio. O prato típico da região é o Rendang, feito especialmente com carne bovina ou jaca cozidos por horas no leite de cocô. Tivemos a oportunidade ver como era feito (e ajudar na cozinha) quando visitamos a vila de Jawi-Jawi, que mantém muito do estilo de vida tradicional do povo Minangkabau. O prato é uma delícia!!

DSC_8956Saboreando as delícias da cozinha Minangkabau com os amigos da Darmasiswa.

Nessa vila, tivemos a oportunidade de dormir dentro de uma Rumah Gadang (a casa típica Minang que é uma verdadeira obra de arte) e vivenciamos alguns costumes deles, como banho a céu aberto, plantar arroz e observar o búfalo em seu trabalho diário. Assistimos também algumas performances de música e dança tradicionais e vestimos suas roupas.

LRM_EXPORT_4965610879217_20181007_230516387Janine com roupas tradicionais, dentro de uma Rumah Gadang.

A cultura Minangkabau com sua simbologia, o contato com a natureza, a relação com os espíritos e seus ancestrais além da Deusa Mãe, nos fazem refletir a sociedade brasileira, e como estamos tão longe disso… como a magia é para poucos e como o ser humano perdeu suas conexões interiores. Todos estes fatores estão nos provocando e inspirando em um novo processo de pesquisa para o primeiro espetáculo do ArteJornadaHumana, mas isso é assunto para um novo post…

DSC_0112-01Ensaiando, dançando, atuando, trabalhando sob os olhos de Bundo Kanduang.

Tarimo Kasih!

The Minangkabau Culture

Did you know that Indonesia is formed by 17,508 islands? At the opening ceremony of the Darmasiwa program we listened this information a few times and yet it was difficult to have the real perception of the complexity and greatness of this country. Through these thousands of islands, the people are distributed in different ethnic, linguistic, religious and cultural groups. That is, the culture of the Indonesia is very rich and each region has its cuisine, dialects and traditional arts, as well as its costumes and traditions.

Our journey in Indonesia is with the Minangkabau, the culture of the people of West Sumatra. Here we are studying its traditional songs and dances, besides the martial art (Silat or Silek) and the theater (Randai). But before speaking specifically of the culture I would like to make a parentheses to talk a little about the history and customs of this peculiar people.

Minangkabau is a traditionally matriarchal and Muslim society. It was around of the sixteenth century that Islam began to be adopted, brought by the traders of the Middle East. Throughout Indonesia, the Minangkabau people were once considered the most intellectual and with the best literatures. The center of Minangkbau philosophy is based on living in harmony with nature. Many of their mystical symbols come from the force of nature and especially from their ancestors. They believe that the soul of the ancestors is always reborning and connecting and that spirits can dwell plants, humans, earths, metals and stones.

Much of the Minangkabau artsrepresent nature. In the plastic arts and stamping, bamboo shoots, ferns and crab leaves are always present and have philosophical meanings that pass from generation to generation.

Besides the relationship with nature, the greatest practical relation of this people is with the figure of the mother. The big legend is about the Bundo Kanduang , a Queen who held the power of the Minangkabau kingdom thousands of years ago. “Bundo” means “Mother”. She was the incarnation of a Goddess and had the task of educating the people in the laws of ADAT, the matriarchal system in which property and descent is drawn by the mothers. The whole society revolved around this ADAT, the laws and / or customs, which contains the whole philosophy of the Minangkabau people, as well as their duties to their ancestors, themselves, the environment and the their descendants.

Minangkabau means “victorious buffalo”. The legend says that there was once a territorial dispute over the lands of the West Sumatra between the local people and a kingdom of Java. To avoid battles and blood shed the Minang people suggested that the issue could be resolved through a fight between 2 buffaloes. The enemies accepted and began to look for the biggest and most aggressive buffalo they could find. On the other hand the Minangkabau people choosed the smaller and more innocent buffalo. On the day of the battle, they tied a spear to the little buffalo’s nose. As they had imagined, the great javanese buffalo was not afraid of the little one and began to search for some animal of its size. The “baby buffalo”, which was starving, headed straight for the great buffalo, in the attempt to find milk and this allowed his nose (with the spear) to mortally wound the belly of the great buffalo, giving the people of Minangkabau victory in the conflict and the right to continue on their lands.

This story can still be seen as an example of the superiority of the matriarchal intelligence of Minangkabau, triumphing over the patriarchal brutality of the Javanese.

The horns of the buffalo served as inspiration for the curves of the roofs of traditional houses (rumah gadang), and also the curved shape of the adornments that women wear on their heads both when they are working and in some traditional dance costumes.

Although we are studying in the classroom the national language of Indonesia (Bahasa Indonesia), on the streets, we learn the dialect of the Minang people. And when they hear “bules” (foreigners) speaking the local language, we always get smiles loaded with surprise and sometimes we even get discounts for it.

As for the cuisine of this people, the pepper takes care of the dish (well more than in India), but in 4 months the palate becomes used to the spiceness. Rice is present at all meals. Fish, chicken, tofu and tempeh make the turn of proteins and many green leaves and vegetables complement the dish. The typical dish of the region is Rendang, made especially with beef or jackfruit cooked for hours in coconut milk. We had the opportunity to see how it is done (and help in the kitchen) when we visited the village of Jawi-Jawi, which retains much of the traditional lifestyle of the Minangkabau people. The dish is delicious!!

In this village, we had the opportunity to sleep inside a Rumah Gadang (the typical minang house that is a real masterpiece) and we experienced some of their customs, such as open air bathing, planting rice and watch the famous “water buffalo” in its daily work. We also watched some music and dance and dress their clothes.

The Minangkabau culture with its symbology, the contact with nature, the relationship with the spirits and their ancestors besides the Mother Goddess, make us reflect the Brazilian society, and how far we are from this … how magic is for
few and how human beings lost their inner connections. All these factors are provoking and inspiring us in a new research process for the first spectacle of ArteJornadaHumana, but this is subject for a new post …

Padang Panjang – Morando nas nuvens

(English version below)

Padang Panjang (campo longo) é uma pequena cidade nas montanhas da província de Sumatra Ocidental, na Ilha de Sumatra. Possui cerca de 50.000 habitantes e está situada a 850m do nível do mar. O clima é bastante frio, se comparado às outras cidades da Indonésia, com mínimas de até 10ºC. Por ser localizada em uma área montanhosa, a chuva é diária e rende a Padang Panjang o apelido de cidade da chuva. A cidade é circundada por 3 vulcões: Marapi, Tandikek e Singgalang, sendo os dois primeiros ainda ativos.

DSC_8838Padang Panjang.

A economia da cidade gira em torno do comércio e dos serviços, além da presença de milhares de pequenas áreas de plantação (especialmente arroz) e alguns criadouros de animais. Pela posição estratégica, bem ao centro da província, Padang Panjang ocupa um importante papel na economia de Sumatra Ocidental.

DSC_8432Muitas pequenas plantações.

O povo de Padang Panjang é majoritariamente muçulmano e pertencente a etnia Minangkabau, aqui fica o Centro de Documentação e Informação Cultural Minangkabau, importante na manutenção e preservação da cultura desta etnia. Falaremos mais a fundo sobre este assunto em um futuro post.

DSC_8308Os telhados em forma de chifre são tradicionais na arquitetura Minangkabau.

Embora existam festivais e manifestações culturais em vários vilarejos em torno da cidade, a arte da cidade se concentra no Institut Seni Indonesia, anteriormente chamado de Academia Indonésia de Artes Karawitan, o conservatório/universidade é o centro artístico de Padang Panjang. Além dos cursos de arte, semanalmente ocorrem diversas apresentações artísticas no campus, performances tradicionais Minagkabau, contemporâneas e também seminários e workshops artísticos de outras partes da Indonésia e da Ásia.

DSC_8566Linda performance de piano no auditório do ISI Padang Panjang.

A cidade possui um pasar (mercado tradicional) onde pode-se comprar frutas, verduras, carne, cafés e chás. À noite funciona o pasar kuliner, uma rua toda iluminada lotada de carrinhos e barraquinhas de comida, onde pode-se experimentar as delícias (super apimentas) da culinária minangkabau, por um preço bastante acessível. Para aqueles que gostam de uma cervejinha como nós, a cidade é bem complicada, não existem bares e há apenas um local onde é possível comprar bebidas alcoólicas com o preço bem alto (uma garrafa de cerveja de 600ml custa Rp 35.000 e um almoço bem farto, com chá incluso custa Rp 25.000).

DSC_8463O movimentado mercado culinário noturno.

A vida aqui é pacata e aprazível e a comunidade nos recebeu muito bem, sempre nos perguntam se já almoçamos ou jantamos, para onde estamos indo, etc. São muito carinhosos e curiosos sobre nosso país. Incontáveis são os pedidos para tirar fotos conosco, Martius e Jeni (nosso novos nomes aqui).

DSC_8859Jeni e a criançada. Eles adoram fotos com os bules (estrangeiros).

Estamos bem, felizes e estudando muito as artes deste povo, belas e profundas, tradicionais e ousadas, tecnicamente super difíceis e recheadas de emoção. A Ásia definitivamente é o nosso lugar na terra.

DSC_9543Martius e os colegas do grupo Minangapentagong no camarim após o concerto.

Ps. Para acompanhar diariamente nossa jornada nos siga no Instagram @mateusoferrari e @janinedecampos.

Padang Panjang – Living in the clouds

Padang Panjang (Long Camp) is a small mountain town in the province of West Sumatra, on Sumatra Island. It has about 50,000 inhabitants and is situated at 850m of sea level. The climate is quite cold compared to other cities in Indonesia, with minimum temperatures that can reach 10ºC. Because it is located in a mountainous area, the rain is daily and yields to Padang Panjang the rain city nickname. The city is surrounded by 3 volcanoes: Marapi, Tandikek and Singgalang, with the first two being still active.

The city’s economy revolves around trade and services, as well as the presence of thousands of small planting areas (especially rice) and some animal breeding sites. Due to the strategic location, right in the center of the province, Padang Panjang plays an important role in the economy of West Sumatra.

The people of Padang Panjang are mostly Muslim and belong to the Minangkabau ethnic group, here is the Minangkabau Documentation and Cultural Information Center, an important place in the maintenance and preservation of the culture of this ethnic group. We will talk more about this in a future post.

Although there are festivals and cultural events in many villages around the city, the art of the city focuses on the Institut Seni Indonesia, formerly called the Indonesian Academy of Arts Karawitan, the conservatory / university is the artistic center of Padang Panjang. In addition to the art courses, there are weekly artistic performances on campus, traditional Minagkabau, contemporary, art workshops and seminars from other parts of Indonesia and Asia.

The city has a pasar (traditional market) where you can buy fruits, vegetables, meat, coffees and teas. In the evening, the Pasar Kuliner is an illuminated street full of food stands and stalls, where you can try the delicacies of the minangkabau cuisine (super spicy) at a very affordable price. For those who like a beer like us, the city is very complicated, there are no bars and there is only one place where you can buy alcoholic beverages at a very high price (a beer bottle with 600ml costs Rp 35,000 and a well-stocked lunch with tea even costs Rp 25,000).

Life here is quiet and pleasant and the community received us very well, always asking us if we have lunch or dinner, where we are going, etc. They are very affectionate and curious about our country. Countless are the requests to take pictures with us, Martius and Jeni (our new names here).

We are well, happy and studying very much these people´s arts , beautiful and deep, traditional and daring, technically super difficult and filled with emotion. Asia is definitely our place on earth.

Ps. To accompany more of our journey follow us on the Instagram @mateusoferrari and @janinedecampos.

Indonésia – A nova jornada

(English version below)

Passado um ano de nossa vivência na Índia, estamos novamente na Ásia, desta vez na Indonésia. Quem acompanha nossa história sabe da paixão que temos por este continente e seu povo. Em 2016, estivemos em Bali e experimentamos por um dia estudar com I Made Djimat, mestre do topeng e das máscaras balinesas. Na oportunidade saímos da aula com a sensação de que aquela experiência era o começo de algo, de uma relação artística que merecia ser aprofundada, era tudo muito mágico, a música, os movimentos, as paisagens.

Bali djimatEm Bali, no espaço cultural do I Made Djimat.

Eis que, sedentos por mais uma experiência na Ásia após voltarmos da Índia, começamos a pesquisar por bolsas de estudos e encontramos a Darmasiswa. O programa é uma iniciativa do Ministério da Cultura da Indonésia que seleciona jovens do mundo todo para estudar a língua e a cultura do país. Entre os 690 selecionados, de 90 países, lá estávamos nós, no limite da idade para participar da bolsa (o máximo é 35 anos).

aprovadosAprovados!

Chegamos em Jacarta para a conferência de orientação sobre o programa. No auditório de um grande hotel da cidade, estavam reunidos os participantes da Darmasiswa 2018/2019, gente do mundo todo, com o mesmo objetivo: mergulhar na cultura da Indonésia. No encontro foram passadas as informações básicas sobre a cultura do país, o funcionamento da bolsa e também muitas apresentações artísticas. Era muito louco estar numa roda de conversa com gente da Espanha, EUA, Paquistão, Quênia, Japão, etc. No dia seguinte, cada um seguiu para sua cidade, sua universidade. Nosso grupo tem 13 estudantes dos seguintes países: Brasil (nós 2), Eslováquia (2), Hungria (2), Vietnã (2), República Tcheca, Rússia, Eslovênia, Madagascar e Estados Unidos.

DSC_8321Nós, os estrangeiros. Os novos habitantes de Padang Panjang

Nosso novo destino, nossa nova casa chama-se Padang Panjang. É uma pequena cidade (cerca de 50.000 habitantes) nas montanhas vulcânicas do oeste da ilha de Sumatra. Aqui fica o Institut Seni Indonesia Padang Panjang. Antigamente era um conservatório, hoje transformado em Universidade de Artes. Existem cursos de música tradicional indonésia (karawitan), música orquestral, dança tradicional indonésia (tari), teatro, antropologia, dança contemporânea, belas artes, cinema e tv, fotografia e design gráfico.

isiISI Padang Panjang, nossa nova universidade.

Já estamos há quase um mês por aqui, encantados e ocupados com as aulas de arte, de bahasa indonesia (idioma local) e com as inúmeras performances artísticas que acontecem quase que diariamente. Já temos muitas histórias e vamos detalhá-las nos próximos posts.

Terima Kasih!

Indonesia – The new journey

After a year of our experience in India, we are in Asia again, this time in Indonesia. People who accompanies our history knows about the passion that we have for this continent and its people. In 2016, we were in Bali and for one day we studied with I Made Djimat, master of topeng and Balinese masks. In that opportunity we left the class with the sensation that the day we experienced was the beginning of something, of an artistic relation that deserved to be deepened, everything was so magical, the music, the movements, the landscapes.

Thirsting for yet another experience in Asia after returning from India, we began researching for scholarships and found Darmasiswa. The program is an initiative of the Indonesian Ministry of Culture that selects young people from around the world to study the language and culture of the country. Among the 690 selected from 90 countries, we were there, at the age limit to participate in the scholarship (the maximum is 35 years old).

We arrived in Jakarta for the orientation program. In the auditorium of a large hotel in the city the participants of the Darmasiswa 2018/2019, people from all over the world, were gathered with the same objective: to immerse themselves in the culture of Indonesia. At the meeting were given the basic information on the country’s culture, the operation of the scholarship and also many artistic presentations. It was crazy to be in a conversation with people from Spain, USA, Pakistan, Kenya, Japan, etc. The next day each one went to their city, their university. Our group has 13 students from the following countries: Brazil (we), Slovakia (2), Hungary (2), Vietnam (2), Czech Republic, Russia, Slovenia, Madagascar and United States.

Our new destination, our new home is called Padang Panjang. It is a small town (about 50,000 people) in the volcanic mountains on the west of the island of Sumatra. Here is the Institut Seni Indonesia Padang Panjang. Formerly it was an art conservatory, today transformed into University of Arts. There are courses of traditional Indonesian music (karawitan), orchestral music, traditional indian dance (tari), theater, anthropology, contemporary dance, fine arts, film and tv, photography and graphic design.

We have been here for almost a month now, delighted and occupied with art classes, Bahasa Indonesia (local language) and the numerous artistic performances that take place almost daily. We already have many stories and we will detail them in the next posts.

Terima Kasih!

“Viva como se fosse morrer amanhã, aprenda como se fosse viver para sempre” Gandhi.

Você alguma vez já sentiu a sensação de sonho realizado e o sentimento de gratidão explodiu em seu coração? É assim que podemos resumir nossos sentimentos em relação à essa viagem para a Índia. Chegamos lá de coração aberto, pé no chão, humildade e prontos para aprender tudo que poderíamos. Concordamos os dois que diríamos SIM para todas as oportunidades e assim o foi… Fizemos tudo o que poderíamos fazer, vivemos cada segundo e nos doamos para essa jornada. Confessamos que o Universo foi muito generoso com a gente o que nos dá a certeza de que a felicidade pode ser alcançada, só basta você descobri-la em seu interior. Nessa busca peloo autoconhecimento podemos concluir que deixando de lado seu ego, seus julgamentos (e seus pré-julgamentos), sua preguiça, seu controle, ou seja, o seu… seu… seu… a vida pode te aprontar muitas surpresas! Cada dia uma nova descoberta, um novo momento, um novo sentimento, uma nova sensação! Não sabíamos do amanhã, só tínhamos o presente, pois nosso passado também não importava ali. O tempo se tornou um grande mestre da vida.

DSC_0219aA Índia é muito, muito, muito mais do que o deslumbrante Taj Mahal.

E por falar em tempo, 3 meses para uns pode ser rápido, para outros devagar, para nós, foram 3 meses muito bem vividos que nos deixaram com gostinho de quero mais! Muito mais!!!! O tempo de lá é um tempo bem diferente do de cá! Lá tudo tem seu tempo! Ninguém precisa correr contra ou a favor dele! Cada coisa é vivida da forma que deve ser vivida! Se olharmos o tempo pela visão da “previsão do tempo”, alguns diriam que não fomos afortunados, pois realmente estávamos na época das monções, mas em compensação essas monções nos presenteavam com pores do sol maravilhosos que jamais iremos esquecer! Se o tempo do relógio já não era o principal o que ficava era o tempo natural das coisas: o horário de comer é o horário da fome, o de dormir, o do sono e assim caminha a humanidade… Humanos, somos humanos, não máquinas que são comandadas por outras máquinas.

DSC_0278aAs chuvas das monções lavam a terra e a alma.

Falando em humanos, façamos aqui um link com o seu melhor complemento: a Natureza. Descobrimos lá como é bom viver cercado por natureza, mesmo que de vez em quando ela nos surpreenda com uma aranha gigante que pula ou com bichos cabeludos que podem se defender soltando seu veneno. Pode soar meio hippie, mas descobrimos que viver com o pé no chão é uma das melhores coisa do mundo! A beleza das palmeiras, do céu estrelado de noite (que em Curitiba, devido as luzes da cidade, quase não vemos), os pássaros que não param de cantar, as borboletas que trazem a mensagem de que a mudança nos faz melhores, a chuva que por vezes lava literalmente a alma, o rio que corre levando junto todas as energias negativas, e tantos outros fenômenos que só a natureza pode nos proporcionar fizeram parte das descobertas dessa jornada. É lógico que não precisamos ir tão longe para realizar esse encontro, mas às vezes não estamos conscientes dessas contemplações e o quanto essa relação pode mudar o seu dia para muito melhor.

DSC_2802aLá se vai o sol na Índia.

E continuando no quesito consciência, não podemos esquecer da espiritualidade que esse povo emana. Viver no país que nasceu a yoga, viver diariamente com gurus, não há como voltar de lá sem um degrauzinho a mais em nossa elevação. Visitamos templos sikh, mesquitas mulçumanas, templos hindus, o Templo de Lótus que engloba todas as religiões e saímos de lá com a conclusão de que tem algo em comum a todas elas: o amor. Na parede do bar que frequentávamos havia um quadro onde Jesus e Krishna flutuavam de mãos dadas na frente de uma mesquita. Essa imagem diz muito e hoje já virou parte de nossa crença (acrescentamos em nossa imaginação uma fogueira xamânica, os batuques do candomblé e um buda olhando tudo com um sorriso maravilhoso). Brincadeiras à parte, fica aqui uma grande reflexão: será que a união realmente não pode fazer a força? Se o amor fosse nosso guia maior não seria mais fácil? Continuamos com nossas crenças pessoais, respeitamos todas as outras. Se te faz bem, então é o que realmente importa! Tivemos a oportunidade de presenciar muitas datas comemorativas (aniversário de Khrishna, Onam, Ganesha, Durga, etc). Presenciamos como o povo se conecta com seus Deuses e como eles são felizes nessa devoção. Mais um grande aprendizado!

20170827_180859A fé deve nos unir no amor pelo ser humano, jamais nos separar.

Por falar em pessoas felizes, devo confessar que nunca recebemos tantos sorrisos em nossas vidas! Não sei se é porque éramos estrangeiros, se é porque olhávamos nos olhos de quem passa, ou se é porque somos simpáticos mesmo, mas sempre que saíamos de casa, andando na rua, recebíamos no mínimo uns 5 sorrisos por dia! E se 1 sorriso já pode fazer diferença no dia, imagina 5!! Isso quando os sorrisos não vinham com uma conversa, um convite para um chá, perguntas (qual é seu nome, o nome da sua mãe, do seu pai, Brasil? Neymar! Ou o famoso caso da torcida “Mathius, Mathius”). Como não amar viver assim? Rodeado de amor e atenção ao próximo. Uma das questões que mais tem nos incomodado no Brasil é que hoje em dia as pessoas não gostam mais de escutar, só querem falar, contar suas histórias, seus problemas, seus… seus… seus… desejar o melhor para o próximo? Tá longe! Os amigos e amigas que fizemos na Índia nos chamam de irmão e irmã. Podemos confessar que foi um pouco estranho ouvir “I love you” do nosso melhor amigo, mas é isso mesmo, eles se entregam sem joguinhos, sem mimimi… é sim amor!!!

DSC_4133aA Índia é feita de sorrisos!

Muitos devem estar se questionando: “Nossa!!! Mas não teve nada de errado nessa viagem?” Teve, teve sim… teve diarreia, princípio de dengue, cachorros abandonados, pessoas abandonadas… Vimos muita sujeira, muita pobreza, lugares até desumanos… Tudo nos fez refletir, questionar, e consequentemente aprender, então, se olharmos por outro ponto de vista, só tivemos ganhos: ganhos artísticos, ganhos profissionais, ganhos pessoais, ganhos espirituais, ganhos mentais, ganhos de relacionamento…

DSC_0086aSuperar as adversidades com fé, alegria e gratidão pela vida.

Esta etapa da nossa jornada chegou ao fim, mas nossos aprendizados não… eles continuam reverberando em nossos corações!!! Nossas próximas viagens não serão mais as mesmas, nossas vidas já não são mais as mesmas, nossos corações então!!!!!

DSC_4675aAté breve Índia! Logo estaremos de volta!

Fechamos esse ciclo e já estamos pensando no próximo, mas não pensem que acabou! Ainda teremos mais posts sobre como nos conectamos à arte indiana e ainda pretendemos lançar um mini documentário!!! Aguardem!!!

Enquanto não chega o próximo, ficamos por aqui com a palavra que mais se repete em nossas mentes e em nossos corações:

Nandi,
Thanks,
Obrigado!

Mumbai, muita Índia por m²

Passados 3 meses no paradisíaco estado de Kerala, rumamos para o nosso último destino na Índia: Mumbai. Quando compramos as passagens para a nossa jornada, tivemos a oportunidade de chegar por uma cidade (Delhi) e sair por outra (Mumbai), o que nos proporcionou conhecer mais um pedacinho da Índia.

DSC_6118Muito trânsito!

Mumbai é a metrópole mais populosa da Índia, com 12 milhões de habitantes se espremendo nas ilhas que formam a cidade. É aqui onde ficam os estúdios de Bollywood, a principal indústria cinematográfica do país. A cidade nos lembrou muito o Rio de Janeiro, com muitos bairros pobres (favelas), áreas belíssimas junto ao mar e grandes centros de produção televisiva e cinematográfica. Os grandes artistas do país moram e trabalham em Mumbai, o que talvez influencie na pegada mais descolada da cidade. Aqui o inglês é mais falado, a licença para venda de bebidas alcoólicas é mais fácil e a moda se aproxima mais do ocidente.

DSC_6050Comércio, comércio, comércio.

Como estávamos no final da nossa jornada, o dinheiro já era contado rúpia por rúpia. Escolhemos então um hotel de baixo custo para nossa hospedagem. Ficamos em Pydhonie, um bairro muçulmano onde o comércio de rua acontece 24 horas e cada espacinho dos prédios é ocupado por pequenas empresas de confecção. Nosso hotel ficava no 4º e 5º andares de um prédio tomado por estas confecções. Embora nosso quarto fosse razoável (justo pelo preço cobrado) o prédio e o entorno eram bem intimidadores. Milhares e milhares de pessoas circulando pelos corredores apertados e um movimento intenso de entrada de tecidos e saída de roupas, pashminas e outros produtos têxteis da Índia. A faxina passava longe e o ambiente era bastante escuro e sujo. Os restos de tecido conviviam com os costureiros e seus cigarros, o que dava um medo imenso de acordar com o prédio pegando fogo (o que ainda bem, não aconteceu). O primeiro dia de hospedagem foi sofrido, depois acostumamos.

ÀDSC_5903Rua de Pydhonie.  À noite o movimento diminui…
DSC_5930Em cada sala, muitos indianos trabalham na costura.

Nosso primeiro destino na cidade foi a Chowpatty Beach, uma praia localizada na Marine Drive, avenida beira-mar super visitada em Mumbai. A praia era bastante suja, mas muitos indianos se arriscavam nas águas. Sentamos na areia e observamos o Sol se pondo, agradecidos mais uma vez pela oportunidade de estar observando o Oceano Índico. Fomos então à um café na beira-mar para tomar um cervejinha. Ficamos felizes pois o local estava repleto de mulheres se divertindo com as amigas e amigos, muitos casais, todos curtindo e cantando com o altíssimo som que vinha da jukebox.

DSC_5762A poluída Chowpatty Beach.
DSC_5772Mais uma vez o Sol se pondo e o Oceano Índico.

No dia seguinte, fomos para a região de Colaba, na busca por lembrancinhas para os amigos que nos apoiaram na jornada e de artesanatos e bugigangas para a nossa casa. A experiência é muito intensa. Como o bairro é turístico os preços são todos salgados, pois para alguns visitantes (principalmente europeus) mesmo inflacionados os itens ainda são baratos. Nós já estávamos vacinados e a pechincha foi nosso método. Em 90% das vezes, conseguíamos pagar metade do preço inicial dizendo que éramos brasileiros (Neymar! Pelé! Ronaldo! Sorriso!). Em uma das compras o preço inicial de um item era de 1500 rúpias, acabamos levando três unidades por 1000, uma loucura! Ainda na região visitamos o India Gate, um dos principais pontos turísticos da cidade, que surpreendentemente não cobrava ingresso.

DSC_6043Produtos e mais produtos.
DSC_5817India Gate, pronto para receber as comemorações do aniversário de Gandhi.

Outro local que visitamos em Mumbai é o CST – Chhatrapati Shivaji Terminus, o principal terminal ferroviário da cidade. Dali chegam e partem trens para toda a Índia, o que proporciona cenas inesquecíveis pela quantidade de humanos que ali circulam. Dedicamos algumas horas na visita e tiramos muitas fotos. O entorno da estação é lindíssimo, com diversos prédios antigos, nos lembrando muito o centro de Santiago, no Chile.

DSC_6084A luz se esgueira para dentro do Chhatrapati Shivaji Terminus.

Mumbai é uma metrópole insana, como muitas outras no mundo. Como é um dos principais pontos de entrada e saída do país, tem um potencial enorme de desenvolvimento do turismo, embora ainda haja muitas dificuldades na locomoção pela cidade (a maioria dos táxis simplesmente não aceita corridas com estrangeiros). Já estávamos em clima de despedida e preocupados com o retorno, então a experiência em Mumbai pode não ter sido tão profunda como as anteriores, mas certamente nos marcou e jamais será esquecida.

DSC_5995Janine no entorno do Chhatrapati Shivaji Terminus.

Ps.: Embora Mumbai tenha sido nosso último destino na Índia, ainda teremos posts sobre as experiências que vivemos nessa jornada. Fiquem ligados!

Ps2.: Para mais fotos de Mumbai acesse nossa Galeria de Fotos!

Arte Jornada …Canina?

Era 3 de agosto de 2017, por volta das 20h. Voltávamos do jantar. Sempre fazemos o caminho de volta do restaurante para a escola pelo lado esquerdo da estrada. Nessa noite havia muito trânsito e ainda não havíamos conseguindo atravessar, caminhávamos pelo lado direito. Estávamos conversando e rindo, sempre um lembrando ao outro: – Nós estamos na Índia! Tudo aqui é tão especial que parece um sonho, então de vez em quando nos pegamos falando sobre isso, que nossa estada aqui é real e está acontecendo. Dentro desse contexto de felicidade e risadas, a Janine escutou um barulho vindo da vegetação ao lado da estrada, estava escuro e ao ligar a lanterna, a surpresa: 6 filhotes de cachorro.

20170803_200520Seis cachorrinhos, abandonados à própria sorte.

A primeira reação foi de raiva. Como alguém abandona filhotes tão próximo a uma estrada super movimentada, com tantos riscos? Fomos até a escola, chamamos nosso amigo Satheesh e voltamos ao local onde os cachorros estavam. Pensamos um pouco e decidimos levá-los a um local um pouco mais seguro. Uma área de mata, situada entre a estrada e o trilho de trem. Compramos leite e alguns biscoitos para que eles se alimentassem.

Voltamos para a escola e conversamos com todos, na tentativa de achar uma solução para que os bichinhos pudessem viver. A conversa foi muito desanimadora. Na escola era impossível alojá-los e nos contaram que os indianos não tem a mesma relação que nós, brasileiros temos com os caninos. O animal sagrado aqui é a vaca, ela recebe todo o cuidado e a atenção do povo, raras são as casas com outros animais de estimação, então os cachorros (e os gatos) vivem nas ruas, lidando com violência de alguns filhos-da-puta e tentando sobreviver ao insano trânsito local.

No outro dia retornamos ao local e lá estavam nossos filhotes. Mais leite, comida e um pequeno exame para diagnosticar: 5 meninas e um menino.

Demos então nomes:
Ka, Tha e Li (em homenagem à arte que viemos estudar);
Chen e Da (chenda é o principal instrumento musical usado no Kathakali);
Alex Mineiro (8 gols na fase final do Brasileirão de 2001, levou o nosso Atlético Paranaese ao título nacional).

20170805_140335Janine alimentando a moçada após a chuva.

No dia seguinte, o primeiro baque. Li havia sumido. Procuramos por toda parte, mas nem sinal dela. Esperamos o retorno, mas ela nunca voltou e não sabemos o que aconteceu com ela. Fizemos uma casinha improvisada para os dias de chuva (que os danados insistiam em não usar) e começamos uma campanha nos grupos locais das redes sociais tentando achar interessados em adotar os filhotes, mas ninguém se prontificou. Tentamos também ajuda com Faculdades de Veterinária da região, mas o contato era impossível, nossos telefonemas não eram atendidos e nossos e-mails nunca tiveram resposta.

20170806_130318Os dias passaram e os filhotes foram crescendo…

Os dias foram passando até que veio nossa pior semana aqui. Eu (Mateus) me machuquei jogando futebol (2 grandes ferimentos no braço) e tive uma lesão mediana em uma costela, além disso fiquei doente, com febres terríveis e uma fraqueza constante. Inicialmente, a médica suspeitou de dengue, mas acabou não se confirmando. Nesta terrível semana, Tha e Ka sofreram gravíssimos acidentes com os trens e não sobreviveram. Estávamos desesperados. Alimentávamos os filhotes 2 vezes por dia, e cada vez que chegávamos no local onde estavam éramos tomados pela ansiedade, com a possibilidade de mais algum cachorro ter sumido ou morrido.

20170821_183722Da, Chen e Alex Mineiro: os sobreviventes.

Passado algum tempo, eu (Mateus) já estava bem melhor e num determinado dia alguns homens colocaram vacas para pastar no mesmo local onde nossos cães estavam. Ficamos assustados mas para nossa surpresa, os cachorros e a vaca viraram amigos e sempre estavam brincando juntos. Ela nos ajudava a cuidar deles, temos certeza.

Veio então, a grande notícia. A Paws Thrissur, uma ONG de proteção animal situada em uma cidade próxima respondeu nosso contato. Nos informaram que o abrigo da instituição estava lotado e não tinham condições de receber mais animais, mas nos passaram o telefone de um homem aqui da região que também realizava um trabalho de recolhimento e tratamento de animais abandonados: Umesh Radhakrishnan. Ligamos para ele e combinamos de nos encontrar. No dia seguinte ele veio até a escola e fomos juntos até o local onde estavam Chen, Da e Alex Mineiro. Levamos os cachorros para a escola e Umesh seguiu com eles e mais um outro cão para sua casa. Estávamos entristecidos pela despedida mas extremamente felizes pela vida digna que nossos filhotes teriam dali para frente.

Passado mais de um mês, e com a proximidade do nosso retorno para o Brasil, fomos visitar nossos cachorrinhos. Umesh mora com a esposa em uma casa cheia de espaço e de amor na vila de Desamangalam, distante 10km da nossa escola. Atualmente, lá estão 10 cachorros: filhotes, velhinhos, saudáveis e recém-chegados com problemas de saúde. Ele alimenta, trata e encaminha os animais para adoção.

UmeshUmesh com alguns dos cães que resgatou.

Fomos então a um cômodo da casa, Umesh abriu a porta e lá estavam nossas meninas: Chen e Da. A alegria era visível nos olhos delas e nos nossos. Que felicidade vê-las saudáveis. Elas correram desesperadas em nossa direção e aí foi só festa. Rabos balançando, lambidas e mais lambidas, abraços e brincadeiras. Umesh nos contou que elas tinham novos nomes: Chaplin e Rabbit. Adoramos os novos nomes, mas para nós serão sempre Chen e Da.

DSC_4326Da, Mateus e Chen.
DSC_4355Da, Janine e Chen.
DSC_4357Satheesh com Da e Chen. Quando viajamos ele nos ajudou a alimentar a turma, mesmo com medo de cachorros.
DSC_4389Muito obrigado amigos!

Antes de voltarmos para a escola, mais uma parada. Alex Mineiro foi adotado por um senhor que morava na mesma vila que Umesh. Chegamos e a cena se repetiu. Quanta emoção! Nosso garoto estava super gordinho, está sendo alimentado com peixe e sambar, comidas típicas da região. Já dá para perceber que será um cachorro de grande porte. Desde que encontramos os cachorrinhos ele sempre foi o maior e cuidou das irmãs. Um craque, como o jogador que homenageamos. Nos despedimos do senhor (que rebatizou nosso filhote de Rorri) e de Umesh, com a promessa de continuarmos em contato para acompanhar o crescimento dos nossos bebês.

DSC_4396Janine e Alex Mineiro, abraçados.
DSC_4390Mateus e Alex Mineiro, matando a saudade.

Na noite em que encontramos os cães, conversamos que se um deles chegasse à vida adulta já seria um milagre, três vão conseguir. Temos certeza de que nosso encontro com Ka, Tha, Li, Chen, Da e Alex Mineiro não foi por acaso. Eles precisavam de nós e nós deles. Tantos foram os momentos (felizes e tristes) que passamos juntos. Esses 6 pequenos bolinhos de fofura nos ensinaram muita coisa e jamais sairão da nossa memória. São parte da nossa vida, para sempre.

DSC_4399Alex Mineiro, o maior da ninhada. Sempre cuidou das irmãs.

A intenção deste post é valorizar a atitude e o trabalho deste grande homem: Umesh Radhakrishnan. Num local onde as pessoas não tem grande apego aos cães ele faz a diferença. Pessoas como ele nos inspiram e nos fazem acreditar que mesmo em tempos tão obscuros como os que vivemos hoje, ainda há espaço para a humanidade, o amor, o bem pelo bem.

O mundo precisa de mais Umeshs.

Obrigado amigo.

Onam, a festa das famílias de Kerala

O Onam é o mais importante festival do estado de Kerala. Acontece entre os meses de agosto e setembro e dura 10 dias, sendo 2 deles feriados. De acordo com uma lenda popular o festival é celebrado para receber o Rei Mahabali, cujo espírito visita Kerala durante as festividades. O evento ainda celebra a colheita do arroz.

95e694f39e37ea690caf7683040faee80c3d6ec3_originalA figura do Rei Mahabali está por todos os lados durante o Onam, algo semelhante ao papai noel no natal.

Segundo a lenda, durante o reino de Mahabali, Kerala viveu seu apogeu. Todos eram felizes e prósperos e o rei era muito apreciado pelo povo. Porém, Mahabali tinha um grave defeito: ele era egoísta. Esta falha foi utilizada pelos deuses para trazer um fim ao seu reino, pois se sentiam desafiados pelo crescimento de sua popularidade. No entanto, por causa de todo o bem feito para as pessoas de Kerala, os deuses permitiram que ele pudesse visitar anualmente todos os súditos, aos quais ele era tão apegado. É esta visita que é celebrada como Onam a cada ano. As pessoas não poupam esforços para celebrar o festival de uma maneira grandiosa e impressionar o rei Mahabali durante sua visita.

Apesar de ser uma comemoração hindu, as outras religiões abraçam as festividades como forma de comunhão e união entre os povos de diferentes credos.

Nossa vivência do Onam começou (maravilhosamente) por acaso. Nosso mestre de Kathakali, Kalamandalam Udya Kumar, havia nos convidado para assistir sua performance em um templo na cidade de Ernakulam. Prontamente aceitamos, pois jamais perderíamos a oportunidade de assistir nosso guru atuando a arte que nos ensina. Após cerca de 5 horas de viagem chegamos ao local. Aí veio a surpresa! O Thrikkakkara Vamana Moorthy Temple é o mais importante do estado e há séculos recebe as festividades que dão início ao Onam. Sem saber, estávamos no coração da maior festa de Kerala. Entre as tradições estavam as primeiras orações, o hasteamento do estandarte do festival, elefantes enfeitados, fogos de artifício, diversas apresentações artísticas e muita, mas muita gente feliz!

DSC_2214Elefante enfeitado para o início do Onam.

A apresentação do nosso Guru foi mágica. Como é bom ver um mestre fazer no palco o que ensina durante suas aulas. Tudo estava lá: a precisão, a humildade, o rigor, a troca com os outros atores muito mais jovens que ele… Após o espetáculo ele nos confessou que ainda sente muita alegria em atuar (são mais de 2000 performances na Índia e em vários outros países), mas atualmente o que ele realmente ama é ensinar. Nos disse que a felicidade em ver um aluno atuando é o que o move. Um grande e talentoso mestre por quem seremos eternamente gratos! Na hora de voltarmos para casa, os ônibus já haviam parado de circular e voamos para a estação de trem mais próxima. Conseguimos chegar a tempo e após 3h no trem (em pé) estávamos em casa. Cansados, felizes e agradecidos.

DSC_2416Kalamandalam Udya Kumar vivendo a personagem Ranumam. Um grande mestre.

Alguns dias depois o diretor da escola nos convidou para assistir uma apresentação de Chenda (instrumento que eu, Mateus estou estudando) em Kannambra, uma vila distante cerca de 3h de Cheruthuruthy. Novamente o destino nos sorriu. Quem acompanha o blog sabe que tivemos a oportunidade de conhecer Gopi, a maior estrela e referência do Kathakali. Em Kannambra conhecemos Mattanur Sankarankutty, o maior percussionista de Kerala. Antes da apresentação nos recebeu em seu camarim e ficou muito surpreso em saber que um brasileiro estava aprendendo Chenda, desejou toda a sorte nos estudos e felicidade na carreira musical. A apresentação foi uma catarse coletiva! Dezenas de músicos tocavam os mais variados instrumentos de percussão, cada vez mais rápido, mais intenso, até alcançar o que classificamos como um estado meditativo, transcendental. Foi inspirador e inesquecível! Voltamos para Cheruthuruthy sabendo que no outro dia estaríamos de volta em Kannambra, para mais apresentações.

DSC_2509Mateus Ferrari e Mattanur Sankarankutty.

E assim aconteceu, fomos com o ônibus da escola, cheio de artistas que se apresentariam no festival. A primeira apresentação foi de artistas locais, em um número com um homem, uma mulher e um palhaço. Era uma comédia. Não entendemos as palavras e cantos, mas a performance era engraçadíssima, o povo gargalhava nas cadeiras… Aí veio uma decepção. A peça foi interrompida para que políticos fizessem seus discursos. Entendemos as diferenças entre as culturas, mas achamos o acontecido extremamente desrespeitoso com os artistas. Após os (longos) discursos políticos a performance continuou.

DSC_2548A comédia interrompida levou o povo às gargalhadas.

Na sequência, mais um momento daqueles que só quem se joga no mundo vive. Subiu ao palco uma banda com bateria, baixo, guitarra, teclado e um violinista. A curiosidade sobre o que viria era grande. Nas primeiras notas já estava claro o estilo musical: heavy metal. Sim, heavy metal! A banda tocava pesado e o violinista esbanjava talento e carisma. Teve até Mozart, em uma versão pesada e surpreendente. O show animou o povo e as famílias levantavam das cadeiras e balançavam os corpos ao som da banda. Aliás, o povo de Kerala gosta é de arte, sem preconceito contra estilos. Se um artista está no palco, o povo está lá, lotando os espaços, aplaudindo e vivendo a arte. É lindo e emociona mesmo.

DSC_2613Heavy metal! \,,/

Após a banda, alguns outros números musicais com os instrumentos tradicionais do estado. Veio então Galaxy of Musicians, um espetáculo de dança, produzido pela nossa escola, que traz à vida uma obra do pintor Raja Ravi Varma. Cada uma das mulheres retratadas na pintura apresentava uma forma de dança, enquanto o dançarino que vivia Raja pintava cada uma delas. Visualmente era um colírio, lindíssimos figurinos, coreografias e luzes, com o apogeu no final, onde as mulheres eram emolduradas, reproduzindo a pintura maravilhosamente.

Raja Ravi Varma-936699A pintura original de Raja Ravi Varma.
DSC_2734Cena final do espetáculo Galaxy of Musicians.

Vimos ainda diversas danças das alunas da nossa escola e novamente felizes e cansados, voltamos para casa.

Passados alguns dias, nosso destino era Thiruvanantaphuram, a capital de Kerala. Viajamos com Kalamandalam Gopalakrishnan, o diretor da escola, no trem da madrugada (em um vagão sleeper, com camas individuais e muito barato). Chegamos às 5h da manhã e após uma soneca no alojamento onde ficamos, saímos visitar alguns templos na cidade. Seguimos então para a casa de Rama Chanran, um amigo de Gopalakrishnan, onde experimentamos o Onasadya, refeição tradicional das festividades de Kerala, com arroz, diversos molhos e doces, servidos em uma folha de bananeira. Nos sentimos muito acolhidos, bem-vindos e agradecidos pela oportunidade.

DSC_2889Família de Rama Chanran após o Onasadya, refeição tradicional de Kerala.

Após o almoço, fomos para Kovalam, uma praia que fica cerca de 40 minutos do centro da cidade. Mais uma vez estávamos lá, frente a frente com o Mar Arábico, com o Oceano Índico. Imediatamente achamos um Beer Parlour (local onde é permitida a venda de bebidas alcoólicas) e degustamos uma cervejinha de frente para a praia. Centenas de famílias coloriam a areia e a felicidade era notável. Os indianos gostam de praia, é de encher os olhos! Ficamos por lá até o pôr-do-sol e voltamos para o alojamento.

DSC_3029Pôr-do-sol inesquecível em Kovalam Beach.

No dia seguinte, fomos cedo para o Rally for Rivers, um programa cultural em defesa da limpeza e conservação dos rios da Índia. Uma iniciativa louvável que certamente conta com o nosso apoio. Os artistas da nossa escola estavam lá, representando sua cultura e colorindo a rua com a arte de Kerala.

DSC_3150Artistas da nossa escola após o programa para o Rally for Rivers.
3Militando pelos rios e tirando muitas fotos.

Após o programa, fomos para Anchal, visitar a família do nosso guru Udayan. Seu pai estava fazendo 90 anos (segundo as contas da família, pois o senhor garantia que estava fazendo 93).

DSC_3181O aniversariante e sua linda esposa. Pais do nosso guru.

A família toda estava reunida, avós, filhos, tios, tinha até um primo que mora no Canadá e veio visitar a família durante o Onam. O dia foi delicioso, lembrando muito os almoços de Natal das nossas famílias. Todos comendo juntos, e após a refeição alguns ajudam na louça, uns vão tirar uma soneca, as crianças vão brincar. No final da tarde, um café na sacada da casa com um longo bate-papo, muitas histórias e muitas risadas. Estávamos em família, literalmente, pois ali naquele dia nós éramos parte do clã. Somos muito agradecidos pela oportunidade de viver estes momentos, estamos sempre abertos para receber os costumes e as pessoas e quando sentimos reciprocidade nisso, é difícil explicar o que acontece, talvez seja esse tipo de coisa que faz a vida verdadeiramente valer a pena: a família, os amigos, o respeito e a amizade. Estava tudo lá.

DSC_3176FAMÍLIA!

Gokul, filho do nosso Guru nos levou de carro até a rodoviária mais próxima e após algumas horas no ônibus, chegamos em Thrissur. O desafio era achar um novo ônibus para nosso trecho final até Cheruthuruthy (cerca de 30km). Eram 2h30 da madrugada quando chegamos e esperamos até as 4h30 até o ônibus finalmente aparecer. Era a vida nos dizendo: “passaram uma tarde de sonhos né, então toma um perrengue pra lembrar da realidade!”. Justo. Cansamos, mas levamos a espera na esportiva e quando o Sol quase amanhecia estávamos novamente em casa.

DSC_3361Encerramento do Onam em Thiruvanantaphuram.

Quando o Onam já parecia terminado, mais uma aventura: Nossa escola iria participar do desfile de encerramento das festividades na capital do estado. Inicialmente, não iríamos, pois estávamos muito cansados das viagens e precisávamos de um tempo para nos recompor. Mas, somos aventureiros! Nossos amigos nos convenceram e pensamos: “teremos muito tempo para o descanso ainda, vamos viver!”. Entramos no ônibus da escola e viajamos a madrugada toda para Thiruvanantaphuram. Enquanto as dançarinas se maquiavam no alojamento improvisado em um templo, achamos umas esteiras, jogamos no chão e ali mesmo dormimos, ao som das meninas conversando e dos cantos hindus que ecoavam pelo templo. Saímos para almoçar e nos dirigimos ao começo do percurso, que percorreria 6km pela ruas da capital.

DSC_3356As lindas dançarinas de Mohiniyattam da nossa escola.

O desfile é um mega evento, com milhares e milhares de pessoas na rua para assistir. Antes do começo, seguimos pelo trajeto e achamos um local para apreciar e fotografar as ruas se enchendo de cores e alegria. A apresentação conta com crianças do esporte, artistas de todos os tipos, percussionistas, carros alegóricos, lembrando um pouco nossas escolas de samba. Após todos passarem por onde estávamos, saímos em disparada pelo meio do desfile para encontrar os amigos da nossa escola e tirar mais algumas fotos. Terminado o evento fomos novamente até o templo para jantar e em seguida voltamos para Cheruthuruthy.

DSC_3550Pulikali, a dança dos tigres que sempre anima os lugares por onde passa.
DSC_3665Povo lota as ruas de Thiruvanantaphuram para ver o desfile de encerramento do Onam.

O Onam mexe com o povo de Kerala, é um período de muita festa e arte feito pelas e para as famílias. Foram dias de sonho onde conhecemos pessoas, fizemos amizades e nos sentimos acolhidos, parte do que estava acontecendo e da vida que estavam vivendo. Com o corpo cansado, a alma serena e o coração jorrando alegria agradecemos aos deuses e ao povo de Kerala pela oportunidade. É algo que vamos levar para sempre. Nós amamos este lugar e estas pessoas!

Nandi, Thanks, Namastê!

Ps.: Para mais fotos do Onam, visite nossa Galeria de fotos: https://artejornadahumana.com/galeria-de-fotos/