Delhi – Um tapa cheio de Índia

Após 32 horas de viagem, com uma conexão pra lá de exótica em Addis Ababa (Etiópia), chegamos em Delhi, capital da Índia. Eu (Mateus) tenho uma mania bem esquisita de sempre que possível chegar até o lugar onde vou me hospedar a pé, ou usando o transporte público. E assim o fizemos. Pegamos o metrô do aeroporto até a estação New Delhi. O sistema metroviário de Delhi é bastante eficiente e os trens são novos e bem cuidados: semi-chiques, por assim dizer.

A viagem até a estação foi tranquila e prazerosa, com ar condicionado (deu até frio), vagões espaçosos e com bastante lugares para sentar. Saímos então da estação e… BUM!! O calor, os cheiros, a multidão, o trânsito caótico, o peso das mochilas, o fuso horário e as 32h de viagem nos atingiram como um tapa certeiro, daqueles em que toda a potência do movimento da mão e do braço termina em uma pancada seca e precisa na face.

A huge traffic jam at ITO during the protest Photo by-K Asif 02/02/16O trânsito de Delhi é um organismo pulsante!

Nosso corpo leu tudo isso como um alerta de sobrevivência e nossos sentidos simplesmente começaram a trabalhar dobrados. Atravessar as 4 pistas (ou seriam 17?) era uma tarefa das mais hercúleas. Os olhos tinham que enxergar em 360 graus para não sermos atropelados, não bater em alguém,  não tropeçar em algum cachorro ou para não pisar em um produto excretado pelos animais sagrados da Índia. O nariz também ajudava na missão de não ter que literalmente se aprofundar na clássica expressão do teatro: “merda merda”. O ouvido, coitado, acho que ele não sabia que poderia identificar tantos barulhos ao mesmo tempo; buzinas, pessoas gritando, tuk tuks, pássaros gritando desesperados, trens (a estação de metrô onde descemos se conecta com a estação de onde partem trens para toda a Índia), ou seja, muita coisa mesmo. O tato, coitado, sentia o calor de 40 graus que castigava o asfalto no horário do meio dia. Era o sonho se mostrando real, de todas as maneiras… Com raça (essa é a palavra), andamos os 2km e chegamos no nosso hotel para o tão esperado descanso.

Passamos 5 dias em Delhi, mas neste post vamos destacar somente as experiências mais importantes que tivemos.

Era a manhã seguinte e havíamos planejado visitar a região de Old Delhi, mas caímos em uma tentativa de golpe. Aqui em Delhi, alguns condutores de Tuk Tuk tentam ludibriar os turistas com a ideia de que eles devem visitar a região central, ir a uma agência oficial do ministério do turismo da Índia (falsa) para pegar um mapa e uma permissão de circulação. Tudo mentira e no final, o turista acaba em uma agência de viagens com preços super inflacionados (o motorista de tuk tuk ganha comissão). No caminho já havíamos visto no celular que estávamos indo na direção errada, pedimos para descer e invertemos a ordem de passeios do dia (iríamos visitar o centro na tarde do mesmo dia), o que acabou amenizando nosso prejuízo.

Ainda atordoados e irritados com a malandragem do tuktukeiro, nos dirigimos para o Gurudwara Bangla Sahib, um templo Sikh que tem suas origens e primeiras edificações no século XVII. Na chegada, fomos recebidos pelo Sarabjeet Singh, um rapaz jovem, muito sereno e simpático. Ele nos informou que a visita não tinha custo, que nos guiaria e que éramos muito bem vindos na comunidade Sikh, independente da nossa religião.

DSC_0042Mateus Ferrari e Sarabjeet Singh

A recepção e a atmosfera do Gurudwara transformou nosso humor e rapidamente esquecemos os perrengues que havíamos enfrentado. O local é simplesmente transcendental, com um grande lago externo onde as pessoas se refrescam e um templo, onde são lidas as escrituras Sikh e entoados/tocados mantras lindíssimos.

DSC_0028Um mergulho de fé!
DSC_0022Torce a roupa e põe de volta que daqui a pouco seca.

Sarabjeet nos mostrou todas as dependências do complexo e de maneira muito pacífica nos explicou a função e o funcionamento de cada uma delas. A cozinha foi a que nos chamou mais a atenção, a filosofia Sikh aborda a alimentação como uma extensão da oração/meditação e todos são convidados para comer após as celebrações.

DSC_0036Povo celebra as escrituras Sikh.
DSC_0039Refeição é preparada na grande e quente cozinha do Gurudwara.

Foi uma manhã de aprendizado profundo do Sikhismo e findada a visita, o sentimento era de um imenso e caloroso abraço, que graciosamente nos dizia: – Sejam bem vindos à Índia!

Nosso próximo destino era mais um templo, dessa vez muçulmano: Jama Masjid. É a maior mesquita da Índia e diferente do templo Sikh não haviam celebrações quando lá estivemos. Para entrar, retiramos nossos sapatos e nos adequamos ao código de vestuário. A temperatura passava dos 40º e para o povo não queimar os pés no chão quente, tapetes desenhavam caminhos por todos os lados.

DSC_0134No grande pátio de Jama Masjid.

A mesquita, inaugurada em 1656, impressiona pelo tamanho e beleza de suas salas, muros e torres. Ao que pareceu éramos dos poucos estrangeiros no local. Muitas pessoas se espalhavam pelas sombras do templo e faziam suas preces individualmente.

DSC_0111Mulheres descansam e oram em uma das muitas salas da mesquita.

Os inevitáveis olhares vinham cheios de sorrisos e boas vibrações, muito longe da imagem que alguns tem de que os muçulmanos são más pessoas, o mal e o bem habitam os homens, independente da crença. Já está na hora de nós humanos entendermos e lidarmos com isso, quando (e se) o fizermos, daremos um grande passo espiritual e certamente nos aproximaremos da paz.

DSC_0137Refresco!

Em Delhi, ainda fomos ao Red Fort, Jantar Mantar, Humayuns Tomb, Lotus Temple e ao bairro de Chandni Chowk. Todos locais belíssimos e bastante turísticos. Merecem a visita.

Delhi é um caldeirão, uma mistura que aguça os sentidos e deixa lembranças para a vida toda. Um grande retrato da Índia. Sua arte e seus humanos são únicos e nisso mora sua beleza. A cidade tem um ritmo que assusta no começo, mas aos poucos você nota seus pés batendo e marcando o tempo como se a vida nas ruas e becos da cidade fosse uma sinfonia progressiva, com ápices percussivos e momentos de calma e lentas melodias. Um lugar para se lembrar. Para sempre…

Um comentário sobre “Delhi – Um tapa cheio de Índia

  1. Olá Mateus e Janine, parabéns pelo blog! Conteúdo maravilhoso, lindas fotos, adorei o jeito agradável e respeitoso de mostrar as crenças, culturas e diferenças. Continuem viajando e compartilhando as experiências, que eu estarei sempre seguindo vocês.
    Sucesso!!! Beijos

    Curtido por 1 pessoa

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