Cheruthuruthy- A vila que respira arte

Che-ru-thu-ru-thy, esse é nome do lugar onde estamos morando nesse momento. É um distrito tão pequeno que pode ser considerado um vilarejo. Uma importante estrada e uma ferrovia que ligam o norte e o sul do estado cortam a vila ao meio. O aeroporto mais próximo fica em Kochin (cerca de 110km) e também é possível chegar à cidade de automóvel ou trem, descendo na estação Vallattol Nagar ou na Shoranur Junction (na vizinha Shoranur).

DSC_0031aEstação de trem Vallattol Nagar.

Nossa nova casa está situada em Kerala, estado que possui o mais alto Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) da Índia e com propostas de governo bem avançadas se comparadas aos outros estados. Aqui há programas de “água limpa”, saneamento básico, turismo artístico, rural, radical e terapêutico, incentivo à medicina ayurvédica, além de muitas outras propostas interessantes para a população. Aqui misturam-se diversas crenças: hindus, muçulmanos e cristãos (herança dos portugueses que por aqui estiveram entre os séculos XVI e XVII). A convivência é harmônica e não há tentativas de conversão religiosa, o respeito prevalece.

DSC_0004Estrada em frente à Kathakali School Society, nossa casa aqui em Cheruthuruthy.

Alguns se referem à cidade também por Vallattol Nagar, que aqui descobrimos ser o fundador do estabelecimento mais importante e pilar central da cidade: a Kerala Kalamandalam Deemed University of Art and Culture, ou seja, a Universidade de Artes de Kerala.

DSC_0095Portão principal da Kerala Kalamandalam.

O campus tem um tamanho realmente impressionante. Boa parte da cidade gira em torno dessa universidade. Muita gente que mora aqui trabalha lá, ou tem alguém da família que estuda lá, ou já estudou. O restaurante onde comemos todos os dias fica na frente do campus e lá podemos conviver com todos os mestres e estudantes da universidade. Nós, estrangeiros, temos que pagar ingresso para entrar no Kalamandalam (estudantes da universidade, mesmo de outros países não pagam), portanto eu e o Mateus não frequentamos diariamente o campus, mas sabemos de todas as atividades com os amigos que fizemos no restaurante que frequentamos.

Kerala Kalamandalam é sinônimo da tradição da arte e cultura de Kerala. Kala significa artes e Mandalam tem vários significados: círculo grande, espelho, o horizonte e assembléia. Foi criado com a intenção de “resgatar” as artes clássicas de Kerala, principalmente o Kathakali. Para entrar lá há uma rígida seleção e os alunos devem estudar durante 8 anos. 8 anos de estudo diário e árduo. Além da Universidade de Artes, a cidade abriga a Universidade de Ayurveda e de Engenharia o que cada vez mais coloca Cheruthuruthy como uma vila universitária.

Há também uma grande escola de primeiro e segundo graus. Nela há uma quadra de esporte. É ali que acontecem os jogos de futebol da galera todos os dias e nos turnos da manhã e tarde é também uma escola de futebol. Grama? Não tem. Linha lateral? Menos ainda, mas a paixão pelo esporte tem em todos os jogos. Eu (Janine) e muitos meninos somos os torcedores-observadores, que vibram por cada gol e admiram a paisagem do pessoal jogando, com o sol se pondo e o céu se apagando com o anoitecer. O Mateus joga com os adultos, e as crianças que assistem o chamam de “brazilian”, aqui todos são fãs do futebol e dos jogadores tupiniquins.

DSC_0034O maior super-mercado da cidade, tudo empilhado e bagunçado.

Próximo ao rio está o centro de Cheruthuruthy. É aqui que tem todas as lojas (de roupas, coisas para a casa, mercados, etc.), bancas de frutas e peixes, restaurantes (indiano, arábico, ocidental), farmácias e todo tipo de comércio. Todos os fins de semana, o casal aqui, na vontade de sair da rotina alimentícia de sempre, vai até o centro para comer um “chicken burguer”, ou uma batata-frita com milk-shake. É nosso refúgio quando bate uma saudade da comida ocidental (mesmo que seja junkie). Por falar em milk-shake, esse que tomamos foi escolhido o melhor de nossas vidas!

DSC_0030O movimentado centro de Cheruthuruthy.

A cidade termina às margens do Rio Nila. O rio é a divisão com a próxima cidade, Shoranur. A paisagem é impressionante. Na época de monções (junho a setembro), o rio aumenta e suas águas alcançam as margens, na época de seca a vazão diminui consideravelmente e pequenas ilhas se formam. Nesse rio as pessoas se banham, brincam, pescam e a vida se refresca. Uma das únicas filmagens que vimos em nossa pesquisa sobre Cheruthuruthy antes de chegarmos aqui era sobre a antiga ponte, construída em 1948 e que desmoronou em 2011.

DSC_0032Jovens e as pontes rodoviárias, a nova e a desmoronada.

Atravessando a nova ponte, já em Shoranur, fica o Nila Beer & Wine Parlour, o único bar da região. Para a venda de bebidas alcoólicas é necessário um alvará especial, por isso são raros os bares aqui em Kerala. É lá que vamos quando bate uma vontade de tomar uma cervejinha. O lugar não é dos mais aconchegantes, lembrando os bordéis brasileiros: luzes baixas e pontos coloridos, dificultando o reconhecimento de quem está lá dentro. A primeira vez que fomos foi um pouco assustador, nenhuma mulher. Agora já acostumamos e não vemos nenhum problema.

DSC_0024Ponte ferroviária sobre o Rio Nila.

A estrada principal que percorre a vila, é cortada por pequenas ruas que nos levam para dentro da montanha e da floresta. Casas gigantescas, consideradas mansões fazem parte da paisagem verde, com muitas árvores. Coqueiros, muitos coqueiros. A noite, um céu que se transforma em um tapete de estrelas. A região onde está Cheruthuruthy está encravada na floresta do sul da Índia, então há abundância de verde e um clima típico de floresta tropical com muitos pássaros, insetos, rios e paisagens.

DSC_0019Os principais meios de transporte na cidade são as motos e os auto-rigshaws (tuk-tuks).

A cidade é pequena e tem sua beleza natural, porém o que mais nos encanta aqui é o povo que distribui sorrisos por onde passamos, mas sobre eles falaremos melhor em um outro post. Fechamos aqui com o pôr-do-sol que nos presenteia todos os dias com sua beleza e plenitude.

IMG-20170723-WA0009Pôr-do-sol em frente à nossa casa/escola.

നന്ദി (obrigado)

Ps.: Na página galeria de fotos tem fotos inéditas e as que ilustram este post.

 

Afinal, o que viemos estudar na Índia?

Como já havíamos comentado em nosso primeiro post estamos na Índia porque fomos aprovados em um edital de residência artística da Funarte, Ministério da Cultura, Governo Federal, e recebemos uma bolsa para estudar durante 3 meses em algum lugar do país ou exterior. Na hora de escrever o projeto pensamos em duas possibilidades: estudar Máscaras Balinesas em Bali ou Kathakali na Índia. Como tínhamos que ter uma carta de uma instituição dizendo que nos aceitavam, escrevemos para vários lugares e o que nos respondeu a tempo da inscrição no edital foi a Kathakali School Society, em Cheruthuruthy, Kerala, Índia. Claro que ao inscrevermos o projeto sabíamos que haveria grande concorrência e seria difícil sermos aprovados mas… cá estamos nós!

Alguns de nossos amigos artistas sabem o que é o Kathakali, porém, os amigos que não trabalham com arte e nossos familiares não tinham ideia do que iríamos estudar e por isso escreveremos um pouco aqui nesse post.

Quem conhece o método de trabalho da Ave Lola (companhia teatral em que trabalhamos) e quem viu o último espetáculo “Nuon” tem uma ideia porque escolhemos a Índia como fonte de inspiração. Eu (Janine) acredito que as artes asiáticas, assim como o teatro em sua origem, servem de inspiração e base de trabalho e conhecer seus ritos nos fazem realinhar com o verdadeiro sentido do teatro.

Em poucas palavras, o Kathakali é uma performance de teatro, dança, música e mímica originária na antiga região do Malabar (atual estado de Kerala), no sudoeste da Índia e que traz personagens mitológicos do universo religioso hindu. Faz parte da vasta arte folclórica de Kerala junto com as danças e outras manifestações.

A história é longa e complexa e por isso estamos juntando material para criar uma página exclusiva sobre o Kathakali aqui no site, falando sobre as informações técnicas, história e curiosidades dessa arte. Em linhas gerais, o que nos fez chegar até aqui é que o Kathakali, sua estética, linguagem cênica e secular tradição atoral, seu treinamento e práxis, ainda hoje inspiram reflexões importantes sobre a arte teatral.

Dentro do curso que estamos fazendo sabíamos que teríamos a chance de assistir algum espetáculo nesses três meses. Já na primeira semana tivemos essa oportunidade única e inesquecível. Vale ressaltar que a performance que vimos não foi uma representação completa do Kathakali (pois uma apresentação dura de 6 a 8 horas, com muitos atores), o que assistimos foi apenas o personagem Krishna no Purappadu, dança da invocação divina que abre alguns espetáculos de Kathakali. Com certeza conseguimos ter um real panorama do que essa arte representa e da riqueza dos detalhes envolvidos e que tanto nos impressionaram.

Na sexta-feira da primeira semana de estadia fomos avisados que a escola iria participar de um festival artístico em Thrissur, cidade bem próxima de Cheruthuruthy, onde moramos hoje. Pegamos o ônibus perto do horário do almoço junto com as 30 crianças e jovens que fazem aula de dança na escola nos finais de semana, artistas das diversas artes de Kerala, nossos professores, a equipe de produção e o diretor da escola.

Na ida, já foi uma festa! O ônibus tinha muitos (e potentes) equipamentos de som e assim que a música começou as crianças se levantaram, cantando e dançando no corredor do ônibus, no meio da estrada, se equilibrando a cada curva. Uma animação só! Chegamos em Thrissur debaixo de uma forte chuva (é verão aqui, época das monções). Almoçamos em um centro de medicina Ayurvédica (comida vegetariana) e fomos para o local da apresentação! Um teatro, como os nossos, um pouco mal cuidado, porém digno! Atrás do palco, de um lado o camarim das crianças e do outro o dos atores mais velhos.

Ficamos um tempo no camarim das crianças observando a alegria de todos, até que fomos convidados a ir para o camarim dos atores. Lá, um deles já estava no chão, enquanto o maquiador fazia delicadamente o seu chutti (nome dado à maquiagem do Kathakali). Quando eu (Janine) vi a cena, confesso que meu coração disparou. Já havia visto esse ritual em fotografias e vídeos, mas nunca imaginei que veria ali, ao vivo e à cores  na minha frente. O sentimento era parecido com a infância, quando ganhávamos o presente que sempre sonhamos! Um sorriso se abriu e com o maior cuidado sentei bem ao lado e comecei a observar tudo. A sensação era de sonho se tornando realidade. Kunhaqra Shnan, professor de maquiagem da escola foi nos ensinando passo a passo da maquiagem, da vestimenta, de tudo. Os outros atores foram chegando, começando a se arrumar, e a gente ali. Eles brincavam com a gente, cantavam, passavam os movimentos, tiravam uma onda com a nossa cara como se fossemos uma grande família! Uma verdadeira trupe, um ajudando o outro!

Na apresentação, já no começo da noite, uma excitação toma conta de nossos corpos. Conforme a trupe ia se apresentando, um depois do outro, os olhos iam brilhando e os queixos caindo. Sabíamos que o Kalamandalam Aravind, ator de Kathakali seria o terceiro a se apresentar. Quando começou parecia inacreditável. Ali na nossa frente. Vivemos cada segundo daquele momento. Mesmo sabendo que aquilo ali seria uma pequena amostra do Kathakali a experiência já foi surreal e arrepiante. Dentro da performance da escola também conhecemos outras danças e manifestações. Teve luta, fogo, rituais e beleza!!! Uma riqueza artística!

Abaixo segue um vídeo com a preparação e trechos da apresentação de Kathakali e fotos das outras performances. No próximo mês iremos assistir uma performance completa, mas a primeira apresentação já nos marcou profundamente e jamais será esquecida.

Nandi (obrigado em Malaialam, idioma de Kerala)!

DSC_0029Mohiniattam, dança feminina clássica de Kerala. Performance por Kalamandalam Aswathi.
DSC_0050Kalari Payettu, arte marcial de Kerala, com escudo e espada.
DSC_0085Thiri Ritual, o artista Mana usa fogo para invocar as divindades.
DSC_0115Theyyam, dança ritualística hindu. Sivadas Paneqqer interpreta Pothi.
DSC_0133Thira e Poothan, dança ritualística de Kerala.
DSC_0141Patayani, dança ritualística folclórica. Performance por Narayanan.
DSC_0148Estudantes da Kathakali School Society em um número que mistura diversas danças de Kerala.
DSC_0077Kathakali, nosso objeto de estudo. Kalamandalam Aravind interpretando Krishna. 

 

 

Kathmandu (Nepal) – O teto do mundo

Após quase duas semanas no norte da Índia, nosso próximo destino era Kathmandu, a capital do Nepal. Escolhemos passar por aqui por uma série de razões:

• O Nepal é o país mais alto da Terra, onde fica o Everest, o teto do mundo.

• A bandeira do Nepal é única, rompendo o padrão retangular e tendo uma forma de triângulos sobrepostos, numa clara referência ao horizonte dos himalaias. Viva a transgressão e a originalidade!

• Na minha opinião (Mateus) o nome Kathmandu tem a fonética mais linda entre todas as cidades do mundo.

• Em janeiro deste ano (2017) estivemos no Chile, e não poderíamos deixar passar a oportunidade de visitar as 2 mais importantes cadeias de montanhas do mundo (Andes e Himalaias) no mesmo ano.

• Somos budistas e Buda (Siddhartha Gautama) nasceu no Nepal.

nepal-flag-922x691A bandeira do Nepal, original e conectada com a geografia do país.

Fomos de avião e a chegada foi surreal. Haviam muitas aeronaves se aproximando do aeroporto e nosso piloto ficou sobrevoando a região da capital por aproximadamente 10 minutos. Uma oportunidade abençoada de admirar a cordilheira do Himalaia do alto. Após o congestionamento aéreo prosseguimos para o pouso, por entre as montanhas, até a pista no vale de Kathmandu. A tarefa certamente exige habilidade e experiência dos pilotos.

DSC_0139Kathmandu fica em um vale, cercada por montanhas.

Kathmandu tem uma característica muito especial. A cidade pode ser dividida em duas: a cidade do chão, das ruas e a cidade do céu, dos terraços. Como o vale onde a capital nepalesa se formou ficou pequeno para tanta gente, o crescimento tornou-se vertical, com grande parte das edificações nos terrenos tendo andares (dificilmente mais do que 7). Na Kathmandu do chão, o caos. As ruas raramente são asfaltadas e o trânsito é enlouquecedor. Guardas de trânsito fazem a função dos semáforos nas ruas maiores, já nas menores, é cada um por si. Na Kathmandu do céu, a paz.  Como os prédios são baixos, sempre avista-se as montanhas, uma leve brisa sopra constantemente e as diversas espécies de pássaros fazem a trilha sonora.

DSC_0048Hora do rush.
DSC_0061Os prédios em Kathmandu são coloridos e cheios de vida.
DSC_0101Bandeiras com orações e o vale de Kathmandu, vistos do alto do tempo Swayambhunath.

Por toda parte, encontram-se monumentos hindus (religião da maioria dos nepaleses) e budistas. A fé, assim como na Índia é parte da rotina diária do povo, com pausas regulares para orações. Na cidade, visitamos o Swayambhunath, templo budista localizado no alto de um morro. O local também é conhecido como templo dos macacos, pois nossos amigos primatas estão presentes em todos os lugares do complexo. A subida é longa e difícil mas a vista do vale, a atmosfera do templo e a energia que se sente lá em cima recompensam todo o esforço.

DSC_0115No alto de Swayambhunath, os olhos de Buda observam Kathmandu e abençoam o povo do Nepal.

Interessados também pela fé Hindu, visitamos o Templo de Pashupatinath, localizado às margens do Rio Bagmati (que centenas de kilômetros depois deságua no Ganges). Infelizmente, na área central do complexo só podem entrar os praticantes do hinduísmo. Durante nossa visita, circulamos nas margens do rio e vimos algumas cerimônias de cremação, feitas em locais próximos à água, onde os restos mortais são despejados após as homenagens. As cenas que vimos foram fortes e a maneira hindu de lidar com a morte é bem diferente da nossa. Para eles é uma honra ter seu funeral realizado em Pashupatinath, pois a Mother Ganga os conduzirá após sua passagem. Nossos sentimentos e respeito aos que ali foram cremados durante nossa passagem.

DSC_0035Complexo hindu de Pashupatinath.

Em 2015, um terremoto fortíssimo devastou a cidade, causando a morte de milhares de pessoas e a destruição de muitos edifícios históricos e templos milenares. O impacto ainda pode ser visto nas ruas de Kathmandu, com obras de restauração e reconstrução por todo lado, sendo difícil ver uma área onde não hajam prédios escorados, entulhos e gente trabalhando em construções. A praça Durbar, talvez o principal ponto turístico da cidade, foi intensamente atingida, suas torres e templos forma destruídos ou muito danificados. Só ali, quase 200 pessoas morreram no dia do terremoto.

DSC_0082Praça Durbar e a mensagem de que juntos reconstruirão o que foi destruído, ficamos na torcida!

A região de Thamel é onde ficam a maioria dos hotéis e restaurantes da cidade, e é visivelmente preparada para os turistas. Ruas asfaltadas, centenas de lojas de souvenir e artesanato e preços bem salgados. Aliás, o ponto negativo da cidade são seus preços altíssimos e a cobrança de ingressos para tudo, templos, parques e inclusive praças públicas. O jeito foi encarar como uma contribuição para a reconstrução da cidade. Buscando escapar dos preços altos e do agito incessante de Thamel, nos hospedamos no bairro de Dhalko, um pouco mais afastado e muito mais silencioso e tranquilo.

DSC_0161O agitado bairro de Thamel.

O povo do Nepal é espirituoso, sorridente e receptivo, e apesar da pobreza e das dificuldades climáticas e sísmicas, parecem muito felizes. Em nossa passagem pelo Nepal foram centenas de cenas de gente vivendo, trabalhando e passeando alegremente. As ruas de Kathmandu abrigam vida por todos os lados e temos certeza que um dia voltaremos (para uma escalada nos himalaias, quem sabe?).

DSC_0154Fomos abençoados pela mãe natureza com um inesquecível pôr-do-sol atrás dos himalaias.
DSC_0006Senhor Hindu e os macacos, na entrada do Templo de Pashupatinath.
DSC_0023Garden of Dreams, um belo parque em Kathmandu.
DSC_0079Os bichos estão por todas as partes.
DSC_0063Alimentar as vacas das ruas traz boas energias para os hindus.
DSC_0074Pausa no trabalho para ver o movimento na rua.
DSC_0047Felicidade na lojinha de rua da mamãe!
DSC_0078Hora da soneca.

Rishikesh – Um mergulho sagrado na “Mãe Ganga”

Rishikesh, cidade conhecida por ser a capital mundial da Yoga. É lá que podemos encontrar todas as fontes de conhecimento das diferentes linhas da yoga e meditação. Apesar de eu (Janine) ser uma estudiosa da yoga (já pratico a mais de 4 anos), de
experimentar diferentes meditações e ler vários livros sobre espiritualidade, não foi exatamente isso que nos chamou a conhecer a cidade (mesmo porque nossa estadia foi de apenas 3 dias e para nos aprofundarmos precisaríamos de mais tempo). O que nos levou a colocar a cidade em nosso roteiro foi que ali, o Rio Ganges (fruto das montanhas geladas dos Himalaias) flui através da cidade com sua água cristalina e limpa e assim poderíamos tomar o sagrado banho na “Mother Ganga”.

Confessamos que antes de sabermos que iríamos para a Índia nosso conhecimento sobre o rio e sua importância espiritual era bastante básico. Na verdade foi através do programa “Nas Margens do Rio Ganges”, exibido pelo canal Off, que aprendemos um pouco mais sobre os rituais e a vida que existem nas margens desse rio que atravessa a Índia. Foi o Dharma, guia indiano do programa de TV, quem explicou que muitas pessoas de todo o país fazem peregrinação para tomar o banho sagrado no Ganges e em Rishikesh é onde ele se encontra um pouco mais limpo, antes de ser poluído pelas grandes cidades em suas margens. Assim, a nossa única expectativa na cidade era conhecer a “Mother Ganga”, cultuada com uma Deusa pelos hindus. Segundo a lenda, um rei tentou por muitos anos trazer a Deusa Ganga para a terra para salvar um povo da maldição de um profeta. Ganga então, através de uma trança de cabelo do Deus Shiva, desce a terra e se personifica no rio Ganges. É por isso que acredita-se que aquele que se banha em suas águas terá a remissão dos seus pecados e karmas e a liberação dos ciclos de reencarnação, vida, morte e renascimento. O povo indiano acredita que uma vida não é completa sem pelo menos um mergulho no Ganges e muitos festivais e rituais acontecem em suas margens. Portanto, nós sabíamos da sua importância e da graça e oportunidade abençoada que teríamos ao nos banharmos em suas águas.
Assim que chegamos, deixamos as malas no hotel e fomos logo perguntando como chegaríamos no rio. O caminho era certeiro: a primeira a direita e depois a primeira esquerda.  A descida era íngreme e conforme íamos nos aproximando já sentíamos o cheiro do rio e o barulho das águas correntes. Víamos ao longe a ponte Laxman Jhula. A descida parecia interminável, até que enfim nos encontramos com ela, a Deusa, linda e poderosa diante de nossos olhos. Uma paz tomou conta de nosso espírito. No local onde chegamos, haviam muitas placas informando que era proibido mergulhar ali por causa da correnteza. Saímos seguindo o leito do rio, subindo e descendo as pedras para encontrar um lugar onde fosse possível entrar na água. Mais a frente vimos dois meninos-homens pulando de uma pedra e se divertindo. Estavam vestidos com calças jeans e camisas, todos molhados. Porém, para nós, o lugar era muito difícil de descer e decidimos continuar a procurar mais para a frente… até que… TCHARAM!!! Uma mini prainha de areia saltou aos nossos olhos, como se tivesse sido feita a mão! Haviam dois outros meninos na água e vimos que era uma área rasa e sem correnteza. O Mateus se despiu e entrou de sunga mesmo, eu (Janine) estava temerária com uma questão que existe aqui na Índia: mostrar as pernas e os ombros não é muito recomendado. Além disso, não estávamos sozinhos, toda hora passavam por ali botes de rafting cheios de gente de todos os lugares do mundo, mas principalmente indianos. Com o apoio do Mateus, tirei a roupa e de maiô entrei nas águas geladas da “Mother Ganga”. Geladas mesmo, mas não o suficiente para nos impedir de aproveitá-la, senti-la e contemplá-la… Estávamos abençoados.! A sensação era de pura leveza. Ao sairmos parecia que haviam tirado toneladas de nossas costas. A paz… Sentamos nas pedras para apreciar e viver mais um pouco cada instante daquele momento. Depois desse tempo resolvemos voltar e sabíamos que tínhamos uma longa subida pela frente. Logo no começo da estrada conseguimos carona com um abençoado grupo de indianos que ali passavam. Terminamos o dia de alma limpa.

No outro dia acordamos um pouco tarde e sentamos para decidir o que faríamos. Eu queria fazer meditação, o Mateus queria ver o local de bungee jump, porém sentimos uma forte vontade de trocar todas as possibilidades por fazer um rafting pelo rio. No hotel mesmo conseguimos fechar o horário. Fomos nós dois, um indiano que mora na fronteira com o Nepal e uma família (pai, mãe, filho e filha) de Kuala Lampur, Malásia. 6 pessoas. Chegamos no local de onde saem os botes e vimos que os outros grupos tinham em média 15 pessoas. Pensamos que nossa equipe estava um pouco desfalcada. O Mateus e o filho da famíla malaia eram os mais fortes e iriam remar na frente do barco. O resto, bem, o resto ia tentar ajudar… A saída do barco já era movimentada, entrávamos direto em uma forte correnteza. De primeira já passamos por uma onda gigantesca que parecia uma montanha russa. O chefe do barco gritava : – Remem!!! Rápido!!! Rápido!!!! Eu, Janine, tive uma crise de riso e o Mateus, junto com o outro menino, fazia um enorme esforço para dar conta das remadas e nos guiar naquele furacão. Nunca vou esquecer o momento que se passou depois que ultrapassamos a correnteza. Um rio liso, correndo entre as pedras, árvores e montanhas. O Sol lançando sua luz na água, e nós ali, sozinhos, pequenos diante daquela magnitude. Uma enorme paz pairou no ar. Uma contemplação da pura natureza que nos cercava. Uma certeza de que o amor, a luz, a paz existem,  eles estavam ali, presentes naquele momento.
Mais a frente outra correnteza e : -Vamos!!! Remem!!! Rápido!!! A todo vapor!!! O espírito de aventura e adrenalina voltaram ao nosso corpo. Passada mais uma área agitada, novamente a paz. Dessa vez, pulamos na água e deixamos a correnteza nos levar. A água gelada naquele calor era o refresco que precisávamos. Deixar nosso corpo fluir e contemplar o céu azul bem em cima de nós, ouvindo os pássaros e o barulho da água, mais um momento inesquecível. “Obrigado, obrigado, obrigado Mother Ganga”, era só o que se passava em nossas mentes.

Voltamos para o barco para chegar em uma parada estratégica. A pedra na beira do rio para um salto de 5 metros. Os olhos do Mateus brilharam! Logo que nosso barco parou o Mateus e seu companheiro de remada subiram correndo as pedras para chegar ao local dos saltos. Numa piscada já vejo o Mateus pulando com um mortal de costas. O povo em volta ficou enlouquecido! Muitos estavam com medo da altura do salto. O indiano do nosso barco não teve coragem e pulou de uma pedra mais baixa. O pai e a filha bravamente pularam da mais alta. Sobramos eu (Janine) e a mãe no barco só olhando e apreciando a alegria de todos. Já estávamos há um bom tempo lá, quase prontos para irmos embora quando o Mateus me convence da oportunidade única de pular com tudo nesse rio. Se fosse outro rio talvez eu não desse muita bola, mas era Ganga, a Deusa. Não aguentei e pulei… Foi maravilhoso! No barco, só faltava a mãe. Quando estávamos quase indo embora ela saiu do barco e sozinha foi até a pedra. Olhou para baixo, exitou, desistiu por uns momentos e de repente… lá estava ela se jogando no Rio
Ganges!!! Saímos de lá com a sensação de dever cumprido. A vontade era de fazer tudo de novo, todos os dias da vida.

Obrigada Mother Ganga, obrigada por tudo. Obrigada por nos proporcionar momentos de alegria, felicidade, amor e paz.

PS: Em Rishikesh eu (Janine) fiz aulas de yoga e uma meditação guiada por um discípulo do Osho, mais alguns momentos de reflexão e conexão. Também saímos para tirar umas fotos do alto da montanha e no caminho conhecemos um senhor que nos convidou para adentrar em sua casa e ver do seu terraço a paisagem que procurávamos. Lá em cima, sua mulher sentada nos tijolos da construção não falava inglês, mas sorria para a gente. Que visão! Que brisa! Que carinho desse povo querido!
Outro momento marcante foi a visita ao Trayambakeshwar, o mais famoso templo hindu de Rishikesh. Subimos até o último andar para lá de cima contemplar a beleza da cidade. Ainda no templo, na beira do rio, participamos do ritual do fogo que acontece toda a noite. Uma poesia e beleza sem igual.

Gratidão por tudo que ouvimos e sentimos.

Namaste

DSC_0004Rio Ganges, com a cidade de Rishikesh ao fundo.
DSC_0010Nossa prainha!
DSC_0056A movimentada ponte Raxman Jhula.
DSC_0021A família que nos convidou para conhecer seu terraço, com uma linda vista.
DSC_0082Trayambakeshwar Temple.
DSC_0092Fim de tarde em Rishikesh.

 

Delhi – Apenas mais um dia em Paharganj

Quando reservamos nosso hotel em Delhi, no bairro de Paharganj o fizemos pela localização (próximo ao metrô e alguns lugares que visitaríamos) e também pelo preço dos hotéis (ótimo custo-benefício para mochileiros low cost como nós). O que não havíamos imaginado é encontrar um bairro onde a vida acontece de maneira tão intensa em cada centímetro de suas ruas e vielas, em cada janela, cada terraço e em cada ser que ali vive ou por ali transita. O hotel ficava em uma rua onde basicamente só há hotéis e restaurantes. Rua esta cortada por dezenas de vielas.

Nossa aventura pelo bairro começou no dia de nossa chegada em Delhi. Escolhemos no Google Maps uma pizzaria para o nosso jantar e saímos, seguindo as direções do mapa. No caminho, muita sujeira e um ambiente quase claustrofóbico, com vielas e becos escuros e muita, muita gente. Conforme avançávamos, as paredes das casa e comércios nos apertavam cada vez mais e vendo que a tal pizzaria provavelmente não existia, desistimos. Na volta, as centenas de olhares eram inevitáveis e sentíamos que nossa presença era exótica, éramos algo diferente para os olhos daquele povo. Jantamos no hotel e conversamos sobre o que vimos, ouvimos e sentimos. Havia algo ali, sem dúvida.

No dia seguinte, após voltarmos dos passeios, jantamos e após algumas cervejas, eu (Mateus) tomei coragem e decidi explorar o bairro para fotografar. A sensação inicial era de apreensão, pela câmera que tanto nos custou e pelos olhares desconfiados que recebi. Aos poucos, o medo foi dando lugar a uma sensação de estar sendo entendido e acolhido. Além da música, o sorriso também é uma linguagem universal e uma excelente maneira de comunicar-se. Dando e recebendo sorrisos, fui fotografando e após cada clique, mostrava a imagem para quem estivesse ao redor, mais sorrisos vinham e os poucos que falavam inglês comentavam: – Nice photo! Take one of my brother! Take one of me! Look at the cow! Pronto, naquele momento eu fazia parte daquele local e daquele povo. Voltei para o hotel e senti uma emoção muito forte, sendo difícil segurar as lágrimas. A Janine me perguntava o que havia acontecido e eu não conseguia explicar, então juntos voltamos para mais uma rodada de fotos pelo bairro. Mais olhares, mais sorrisos, mais humanos, mais emoções, mais Paharganj.

Já de volta no hotel, decidimos cancelar tudo que havíamos planejado para o último dia em Delhi e dedicar esse tempo para documentar em vídeo a rotina do bairro. E assim nasceu o primeiro filme do nosso projeto: Apenas mais um dia em Paharganj. 

Dica: Configure o vídeo para HD e use fones de ouvido!

Aqui também vão algumas fotos dos humanos do bairro:

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