Rishikesh – Um mergulho sagrado na “Mãe Ganga”

Rishikesh, cidade conhecida por ser a capital mundial da Yoga. É lá que podemos encontrar todas as fontes de conhecimento das diferentes linhas da yoga e meditação. Apesar de eu (Janine) ser uma estudiosa da yoga (já pratico a mais de 4 anos), de
experimentar diferentes meditações e ler vários livros sobre espiritualidade, não foi exatamente isso que nos chamou a conhecer a cidade (mesmo porque nossa estadia foi de apenas 3 dias e para nos aprofundarmos precisaríamos de mais tempo). O que nos levou a colocar a cidade em nosso roteiro foi que ali, o Rio Ganges (fruto das montanhas geladas dos Himalaias) flui através da cidade com sua água cristalina e limpa e assim poderíamos tomar o sagrado banho na “Mother Ganga”.

Confessamos que antes de sabermos que iríamos para a Índia nosso conhecimento sobre o rio e sua importância espiritual era bastante básico. Na verdade foi através do programa “Nas Margens do Rio Ganges”, exibido pelo canal Off, que aprendemos um pouco mais sobre os rituais e a vida que existem nas margens desse rio que atravessa a Índia. Foi o Dharma, guia indiano do programa de TV, quem explicou que muitas pessoas de todo o país fazem peregrinação para tomar o banho sagrado no Ganges e em Rishikesh é onde ele se encontra um pouco mais limpo, antes de ser poluído pelas grandes cidades em suas margens. Assim, a nossa única expectativa na cidade era conhecer a “Mother Ganga”, cultuada com uma Deusa pelos hindus. Segundo a lenda, um rei tentou por muitos anos trazer a Deusa Ganga para a terra para salvar um povo da maldição de um profeta. Ganga então, através de uma trança de cabelo do Deus Shiva, desce a terra e se personifica no rio Ganges. É por isso que acredita-se que aquele que se banha em suas águas terá a remissão dos seus pecados e karmas e a liberação dos ciclos de reencarnação, vida, morte e renascimento. O povo indiano acredita que uma vida não é completa sem pelo menos um mergulho no Ganges e muitos festivais e rituais acontecem em suas margens. Portanto, nós sabíamos da sua importância e da graça e oportunidade abençoada que teríamos ao nos banharmos em suas águas.
Assim que chegamos, deixamos as malas no hotel e fomos logo perguntando como chegaríamos no rio. O caminho era certeiro: a primeira a direita e depois a primeira esquerda.  A descida era íngreme e conforme íamos nos aproximando já sentíamos o cheiro do rio e o barulho das águas correntes. Víamos ao longe a ponte Laxman Jhula. A descida parecia interminável, até que enfim nos encontramos com ela, a Deusa, linda e poderosa diante de nossos olhos. Uma paz tomou conta de nosso espírito. No local onde chegamos, haviam muitas placas informando que era proibido mergulhar ali por causa da correnteza. Saímos seguindo o leito do rio, subindo e descendo as pedras para encontrar um lugar onde fosse possível entrar na água. Mais a frente vimos dois meninos-homens pulando de uma pedra e se divertindo. Estavam vestidos com calças jeans e camisas, todos molhados. Porém, para nós, o lugar era muito difícil de descer e decidimos continuar a procurar mais para a frente… até que… TCHARAM!!! Uma mini prainha de areia saltou aos nossos olhos, como se tivesse sido feita a mão! Haviam dois outros meninos na água e vimos que era uma área rasa e sem correnteza. O Mateus se despiu e entrou de sunga mesmo, eu (Janine) estava temerária com uma questão que existe aqui na Índia: mostrar as pernas e os ombros não é muito recomendado. Além disso, não estávamos sozinhos, toda hora passavam por ali botes de rafting cheios de gente de todos os lugares do mundo, mas principalmente indianos. Com o apoio do Mateus, tirei a roupa e de maiô entrei nas águas geladas da “Mother Ganga”. Geladas mesmo, mas não o suficiente para nos impedir de aproveitá-la, senti-la e contemplá-la… Estávamos abençoados.! A sensação era de pura leveza. Ao sairmos parecia que haviam tirado toneladas de nossas costas. A paz… Sentamos nas pedras para apreciar e viver mais um pouco cada instante daquele momento. Depois desse tempo resolvemos voltar e sabíamos que tínhamos uma longa subida pela frente. Logo no começo da estrada conseguimos carona com um abençoado grupo de indianos que ali passavam. Terminamos o dia de alma limpa.

No outro dia acordamos um pouco tarde e sentamos para decidir o que faríamos. Eu queria fazer meditação, o Mateus queria ver o local de bungee jump, porém sentimos uma forte vontade de trocar todas as possibilidades por fazer um rafting pelo rio. No hotel mesmo conseguimos fechar o horário. Fomos nós dois, um indiano que mora na fronteira com o Nepal e uma família (pai, mãe, filho e filha) de Kuala Lampur, Malásia. 6 pessoas. Chegamos no local de onde saem os botes e vimos que os outros grupos tinham em média 15 pessoas. Pensamos que nossa equipe estava um pouco desfalcada. O Mateus e o filho da famíla malaia eram os mais fortes e iriam remar na frente do barco. O resto, bem, o resto ia tentar ajudar… A saída do barco já era movimentada, entrávamos direto em uma forte correnteza. De primeira já passamos por uma onda gigantesca que parecia uma montanha russa. O chefe do barco gritava : – Remem!!! Rápido!!! Rápido!!!! Eu, Janine, tive uma crise de riso e o Mateus, junto com o outro menino, fazia um enorme esforço para dar conta das remadas e nos guiar naquele furacão. Nunca vou esquecer o momento que se passou depois que ultrapassamos a correnteza. Um rio liso, correndo entre as pedras, árvores e montanhas. O Sol lançando sua luz na água, e nós ali, sozinhos, pequenos diante daquela magnitude. Uma enorme paz pairou no ar. Uma contemplação da pura natureza que nos cercava. Uma certeza de que o amor, a luz, a paz existem,  eles estavam ali, presentes naquele momento.
Mais a frente outra correnteza e : -Vamos!!! Remem!!! Rápido!!! A todo vapor!!! O espírito de aventura e adrenalina voltaram ao nosso corpo. Passada mais uma área agitada, novamente a paz. Dessa vez, pulamos na água e deixamos a correnteza nos levar. A água gelada naquele calor era o refresco que precisávamos. Deixar nosso corpo fluir e contemplar o céu azul bem em cima de nós, ouvindo os pássaros e o barulho da água, mais um momento inesquecível. “Obrigado, obrigado, obrigado Mother Ganga”, era só o que se passava em nossas mentes.

Voltamos para o barco para chegar em uma parada estratégica. A pedra na beira do rio para um salto de 5 metros. Os olhos do Mateus brilharam! Logo que nosso barco parou o Mateus e seu companheiro de remada subiram correndo as pedras para chegar ao local dos saltos. Numa piscada já vejo o Mateus pulando com um mortal de costas. O povo em volta ficou enlouquecido! Muitos estavam com medo da altura do salto. O indiano do nosso barco não teve coragem e pulou de uma pedra mais baixa. O pai e a filha bravamente pularam da mais alta. Sobramos eu (Janine) e a mãe no barco só olhando e apreciando a alegria de todos. Já estávamos há um bom tempo lá, quase prontos para irmos embora quando o Mateus me convence da oportunidade única de pular com tudo nesse rio. Se fosse outro rio talvez eu não desse muita bola, mas era Ganga, a Deusa. Não aguentei e pulei… Foi maravilhoso! No barco, só faltava a mãe. Quando estávamos quase indo embora ela saiu do barco e sozinha foi até a pedra. Olhou para baixo, exitou, desistiu por uns momentos e de repente… lá estava ela se jogando no Rio
Ganges!!! Saímos de lá com a sensação de dever cumprido. A vontade era de fazer tudo de novo, todos os dias da vida.

Obrigada Mother Ganga, obrigada por tudo. Obrigada por nos proporcionar momentos de alegria, felicidade, amor e paz.

PS: Em Rishikesh eu (Janine) fiz aulas de yoga e uma meditação guiada por um discípulo do Osho, mais alguns momentos de reflexão e conexão. Também saímos para tirar umas fotos do alto da montanha e no caminho conhecemos um senhor que nos convidou para adentrar em sua casa e ver do seu terraço a paisagem que procurávamos. Lá em cima, sua mulher sentada nos tijolos da construção não falava inglês, mas sorria para a gente. Que visão! Que brisa! Que carinho desse povo querido!
Outro momento marcante foi a visita ao Trayambakeshwar, o mais famoso templo hindu de Rishikesh. Subimos até o último andar para lá de cima contemplar a beleza da cidade. Ainda no templo, na beira do rio, participamos do ritual do fogo que acontece toda a noite. Uma poesia e beleza sem igual.

Gratidão por tudo que ouvimos e sentimos.

Namaste

DSC_0004Rio Ganges, com a cidade de Rishikesh ao fundo.
DSC_0010Nossa prainha!
DSC_0056A movimentada ponte Raxman Jhula.
DSC_0021A família que nos convidou para conhecer seu terraço, com uma linda vista.
DSC_0082Trayambakeshwar Temple.
DSC_0092Fim de tarde em Rishikesh.

 

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