Kathakali School Society – Nossa escola, casa e família na Índia

Como já havíamos escrito em posts anteriores, a Kathakali School Society foi a primeira instituição a responder nosso e-mail com a carta-convite quando inscrevemos nosso projeto na Funarte. Antes de virmos, pesquisamos muito no website da escola (www.kathakalischool.com). Porém, na verdade, não tínhamos muita noção de como seria nossa rotina, os cursos, professores, acomodações, etc. Viemos no escuro esperando que a surpresa fosse boa, e….. FOI!!!

A única foto da sede da escola que havia no Google Maps (nosso melhor amigo nos planejamentos das viagens) era a placa da entrada e na nossa chegada, ao vermos a tal placa igualzinha a da foto, sentimos um alívio pelo fato da escola realmente existir e não termos nos metido em uma roubada. A emoção era de estar vendo na vida real algo que estava em nossos pensamentos nos últimos meses, que tomou conta de nossas vidas e que ali, vendo aquela placa, se tornava realidade.

DSC_0094A placa da entrada da Kathakali School Society.

A ESCOLA

Sábados e domingos a escola funciona com aulas gratuitas para crianças, ensinando as diversas linguagens das artes clássicas de Kerala. Tem aula de dança (Mohiniyattam e Bharathanatyam), percussão (chenda) e canto (música carnática). A idade das crianças vai de 5 a 17 anos, todas devidamente uniformizadas e que chegam animadíssimas para as aulas. A janela do nosso quarto dá para o pátio aonde as aulas acontecem, ou seja, sábado e domingo de manhã já acordamos com os barulhos das baquetas batendo na madeira compondo o ritmo das danças.

Durante a semana são ministradas as aulas de Kathakali em horários diversos conforme a grade de cada aluno. Tem ainda as aulas de Kalaripayattu, considerada uma arte marcial mas que também é apresentado como performances nos “programas” (palavras que eles usam para denominar uma sequência de apresentações artísticas). Essa aula é muito pesada fisicamente, portanto não conseguimos acompanhar o ritmo (já que o Kathakali já consome toda a nossa energia) mas confessamos que se tivéssemos “pique” faríamos também.

De manhã bem cedinho, às 6h20, eu (Janine) faço aula de yoga com um guru muito especial, que não fala muito inglês, mas no final nos entendemos através de palavras estratégicas e das demonstrações de cada exercício. A prática é diária e trabalha ainda mais a espiritualidade tão intensificada aqui na Índia, levando à descoberta de novos caminhos de consciência e iluminação (mas falaremos sobre isso mais para frente).

Além de escola, a Kathakali School é uma grande trupe artística e promove apresentações e performances em diversos locais da Índia e do mundo. Antes das turnês o espaço é utilizado para ensaios, gravações, etc… então, estamos sempre em contato e trocando sobre a cultura e arte de nossos países. É muito emocionante a a curiosidade e interesse genuíno que eles tem pela nossa cultura, e o assunto rende longas conversas. Diversos são os momentos onde nós e eles estamos mostrando fotos e vídeos sobre nossas artes ou demonstrando algum ritmo musical, técnica teatral ou movimento de dança característico dos nossos países.  A instituição também promove alguns espetáculos misturando as diversas manifestações artística do estado de Kerala.

A CASA

Confessamos que a primeira impressão não foi das melhores. Nosso quarto é pequeno, com um banheiro também pequeno e uma janela para o pátio coberto onde acontecem as aulas. Não bate sol, tem um pequeno ventilador de teto e devido ao desuso estava coberto de teias de aranha, mas nada que uma boa faxina não resolvesse. Hoje já nos sentimos muito à vontade, como se fosse nossa própria casa e aprendemos que o melhor é apreciar sem expectativas!

DSC_0509Nosso amado (e bagunçado!) quartinho.

Logo na entrada da residência há uma pequena sala com sofá e uma parede de fotos, troféus e cartazes do Kathakali e do diretor da escola. Ele também mora na escola e seu quarto fica bem em frente ao nosso. Na outra sala, uma cama de solteiro serve de guarda-roupa do diretor com os dhotis (tecidos que os homens usam enrolados na cintura, como uma saia) sempre bem passados e dobrados. Na frente dessa cama um outro quarto para hóspedes. À direita uma cozinha, que está numa situação de limpeza não muito legal (os indianos tem outra relação com a limpeza, bem menos exigente que a nossa) e poucas vezes é usada, já que todos fazemos nossas refeições no restaurante à 400 metros daqui. No fundo, um corredor com 2 banheiros.

DSC_0508Um pequeno banheiro (gentilmente nos deram a única suíte da casa).

Lá fora, um espaço com toldo com varal por todos os lados (tem que ter muito varal porque sempre estão lavando os figurinos das apresentações) e na parte de cima mais um espaço coberto para armazenamento dos adereços e figurinos que possui varal e que às vezes serve de local para as aulas e/ou quarto de mais um morador que dorme por aqui.

DSC_0522No segundo andar da casa, muitos varais e cases com figurinos.

É muito curioso que, tirando as professoras de dança que aparecem nos finais de semana, só trabalham homens nessa escola. Quem cuida das roupas, lava, passa, varre o chão, são todos os homens (alguns de mais idade).

Nossa casa é bem humilde e após 1 mês morando nela já nos sentimos muito à vontade e confessamos que até estranhamos a facilidade que tivemos com a adaptação. Percebemos na verdade que não precisamos de muito para viver, apesar de vez em quando sentir falta do nosso colchão ou do nosso travesseiro, mas nada que não passe rápido. Ah, claro! Não temos água quente! Tudo bem que o calor aqui é absurdo, mas de vez em quando, principalmente a noite, falta-nos uma água quentinha para relaxar os músculos tão doloridos devidos as aulas práticas, mas é mais uma vontade que passa rápido e nos permite continuar aproveitando da melhor maneira possível essa nossa nova maneira de viver e essa nossa nova casa, que tem nos proporcionado tantas boas experiências por aqui.

DSC_0515À esquerda, nossa casa. No fundo, Janine treinando Kathakali.

A FAMÍLIA

Com uma convivência diária e intensa, os moradores da escola já podem ser considerados como nossa família provisória (a família aí do Brasil não precisa ficar com ciúmes, tá?).

Kalamandalan Gopalakrishnan é o diretor da instituição, o dono da casa, o chefe, o que manda. É ele quem toma todas as decisões sobre tudo por aqui e sempre é requisitado por todos. Apesar de ter uma responsabilidade enorme de organizar tudo, sua personalidade é extremamente doce e carismática. Mesmo cheio de coisas para resolver sempre está com um sorriso no rosto, às vezes nos parece ser uma criança com brilhos nos olhos e inocência no coração. Ele não fala muito inglês portanto nossa comunicação nunca foi intensa, mas está sempre disposto a nos escutar, nos ajudar e nos cuidar. Uma figura bem paterna.

DSC_0318Da esq. para dir. Janine, Kalamandalam Udya Kumar e Kalamandalan Gopalakrishnan.

Kunhikrishnan é professor de Chutti (maquiagem para Kathakali). Foi apelidado carinhosamente pelo nosso guru de “little bottle” ou em bom português “garrafinha”, porque seu tamanho é inexplicavelmente pequeno (menor que eu, Janine). Ele é o que melhor fala inglês aqui e que nos dá todas as informações necessárias sobre a escola, sobre a cidade, sobre o Kathakali, sobre a política. Ele é o conselheiro e braço direito do diretor, sua mulher e filho moram em outra cidade e por isso ele dorme aqui também. Ele está sempre está preocupado com a nossa comida. Se os lugares estão fechados (há muitas greves gerais por aqui) ele nos avisa e busca comida em algum outro lugar, se a gente não acorda para tomar o café ele traz e bate na nossa porta para avisar. Sempre pergunta o que comemos, onde vamos, que horas voltamos. Um ser humano muito querido que convive com a gente diariamente e que nunca vimos de mau-humor ou estressado, um grande exemplo. Suas atitudes e conselhos nos lembram muito do cuidado que temos das nossa mães.

Janine e KunhaqraO amável Kunhikrishnan e Janine.

Satheesh Tisty, é o faz-tudo da escola, office boy, produtor, motorista, etc. Apesar de ter a mesma idade que nós, parece um adolescente louco para “viver a vida adoidado”. Aqui os casamentos ainda são arranjados, mas ele já avisou a família que só casa depois de conhecer a mulher da vida dele, até lá, leva a vida do típico mulherengo festeiro. É nosso companheiro de aventuras e de bar. Está sempre querendo aprender coisas sobre o Brasil e nos ensinando sobre a vida na Índia. Acredita muito nos deuses hindus e crê que será um corvo na próxima vida o que fará ele viver muito mais livre e intensamente que nessa. Seu quarto é uma cama sempre bagunçada na parte de cima da escola. Também está sempre sorrindo e se expressando com mil caras e bocas. É nosso irmão mais novo.

DSC_0302Satheesh e sua inseparável companheira/motocicleta.

Kalamandalam Udya Kumar é o nosso guru e também foi o guru do diretor da escola. Ele possui uma enorme experiência como ator e já viajou para diversos países, para ensinar ou apresentar sua arte. Ele é muito, mais muito sabido de Kathakali. Sua mulher é uma grande artista dançarina e também é professora no Kalamandalam (universidade de artes). O casal é muito respeitado pelos artistas daqui e apesar de passarem por perrengues (justamente pela profissão escolhida) tem uma paixão pela arte que está expressa no olhar e na alegria em ensinar.

DSC_0511Kalamandalam Udya Kumar, durante a aula. Uma grande referência no Kathakali.

Todos eles já fazem parte da história de nossas vidas e são exemplos de pessoas que vivem suas vidas com sorriso no rosto e amor ao próximo no coração.

Segue aqui um vídeo com alguns trechos das aulas e ensaios que acontecem aqui na escola.

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