Kalamandalam Gopi, a encarnação da arte de Kerala

Vadakke Manalath Govindan Nair, ou Kalamandalam Gopi é a história do Kathakali em forma humana. Nascido em 1937 ainda está ativo e atuando pelos palcos da Índia e do mundo. É difícil explicar o peso da sua história e a relação que os artistas e admiradores da tradicional arte de Kerala tem com este senhor. Seria, guardadas as diferenças culturais, algo como a Fernanda Montenegro do teatro indiano. Por onde passa é reverenciado e sua trajetória é tida como exemplo de talento, dedicação e amor à arte. Além do Kathakali, também atuou em diversos filmes Malaialas (idioma do estado de Kerala), demonstrando versatilidade ao executar o ofício do ator em outra plataforma. Em resumo, uma lenda viva.

gopispeechKalamandalam Gopi discursando. Por muitos anos foi reitor da Kerala Kalamandalam (Universidade de Artes de Kerala).

Era sábado e na nossa programação iríamos ao litoral, para um fim de semana de descanso, mas uma forte chuva (certamente enviada pelos deuses do Kathakali) mudou nossos planos. Kunhikrishnan, nosso amigo, assim que soube que tínhamos cancelado nossa ida à praia abriu um largo sorriso e nos disse: – Hoje vocês vão ver a maior estrela do Kathakali. O brilho em seus olhos logo denunciou que o dia era de presenciar a história sendo feita. Ao final da tarde, ainda debaixo de muita água, partimos para a vila de Wadakkanchery, distante 10km da escola onde estamos morando.

DSC_0995Chutti, maquiagem do Kathakali.

A apresentação seria em um auditório de uma escola local. Na chegada, os tradicionais olhares “vocês tem cara de gringos” nos atingiam, sempre acompanhados de sorrisos e as inimitáveis balançadinhas-de-cabeça-com-sobrancelhas-levantadas, o jeito indiano de sinalizar alegria e boas vindas. Desta vez, porém, os cumprimentos vieram acompanhados com a afirmação: “Você é o brasileiro do futebol que saiu no jornal”! Eu (Mateus) havia sido entrevistado no dia anterior pois estou jogando futebol diariamente na escola local e a matéria impressa no Manorama (jornal local) estava na boca do povo. Depois de algumas selfies e bate-papos com o povo que ali estava, seguimos (convidados por Kunhikrishnan) ao camarim para acompanhar o Chutti (maquiagem do Kathakali).

DSC_1039Kunhikrishnan e Kalamandalam Gopi.

É sempre interessante ver a preparação dos atores do Kathakali; a delicadeza e precisão dos artistas de Chutti em seu ofício é uma experiência muito rica. O processo é longo e acompanhado de boas conversas e muitas risadas. No local onde estávamos se preparavam 4 atores. Ficamos por cerca de uma hora ali até sermos convidados a visitar o camarim de Gopi, uma oportunidade rara, visto que o mestre tem suas restrições e gosta de privacidade durante sua preparação antes do início dos espetáculos.
Ao entrarmos, a energia era quase religiosa. O artista de Chutti o ajudava, em silêncio, a se preparar para a apresentação. Kunhikrishnan nos apresentou a ele e ao saber que éramos brasileiros e estudantes do Kathakali, abriu um largo sorriso e nos cumprimentou. Eu (Mateus) perguntei se podia fotografar sua preparação e ele consentiu. Ficamos alguns poucos minutos ali e, não querendo atrapalhar, nos dirigimos para a porta para deixá-lo à vontade pois também somos artistas e temos nossos rituais. Veio então o momento inesquecível, Gopi me chama (Mateus) e me diz: – “Take one more photo”! Desajeitado, preparo a câmera e aponto para ele. Gopi olha fixamente para a lente, como quem diz “aproveita jovem estudante, aproveita”. Eu cliquei. Uma vez só. Era o bastante.

DSC_1042Kalamandalam Gopi, mestre maior do Kathakali.

Após os momentos vividos ali com o mestre, saímos para fazer um lanche e comprar algumas coisas no mercado. Na volta, muitas pessoas já estavam no auditório esperando o início da apresentação. Os artistas terminavam de vestir seus figurinos e faziam os retoques finais em suas maquiagens. A história a ser encenada era Karnasaphatham, uma narrativa épica sobre Karna (personagem de Gopi).

DSC_1247Kalamandalam Gopi como Karna.

A performance foi maravilhosa, com 4 horas de duração. Gopi esteve em cena durante quase todo o espetáculo. A idade pesa visivelmente em algumas cenas mais físicas (completamente compreensível, são 80 anos de idade), mas seu carisma, presença de cena e a densidade com que atua compensam qualquer limitação corporal. Durante o espetáculo, comentamos entre nós o quão sortudos éramos por estarmos ali, sentados no chão, na primeira fila, observando uma lenda performando sua arte.

DSC_1146Cena do Karnasaphatham.

Após o fim do espetáculo, jantamos no auditório mesmo e voltamos para casa satisfeitos, felizes e com a certeza de que o abraço amoroso que demos na Índia está sendo devolvido dia após dia em dobro.

DSC_1255Cena do Karnasaphatham.

É mais um post que não temos como terminar senão com um MUITO OBRIGADO! NANDI!

Ps.: Na galeria de fotos estão essas e outras fotos da nossa jornada.

https://artejornadahumana.com/galeria-de-fotos/

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