Arte Jornada …Canina?

Era 3 de agosto de 2017, por volta das 20h. Voltávamos do jantar. Sempre fazemos o caminho de volta do restaurante para a escola pelo lado esquerdo da estrada. Nessa noite havia muito trânsito e ainda não havíamos conseguindo atravessar, caminhávamos pelo lado direito. Estávamos conversando e rindo, sempre um lembrando ao outro: – Nós estamos na Índia! Tudo aqui é tão especial que parece um sonho, então de vez em quando nos pegamos falando sobre isso, que nossa estada aqui é real e está acontecendo. Dentro desse contexto de felicidade e risadas, a Janine escutou um barulho vindo da vegetação ao lado da estrada, estava escuro e ao ligar a lanterna, a surpresa: 6 filhotes de cachorro.

20170803_200520Seis cachorrinhos, abandonados à própria sorte.

A primeira reação foi de raiva. Como alguém abandona filhotes tão próximo a uma estrada super movimentada, com tantos riscos? Fomos até a escola, chamamos nosso amigo Satheesh e voltamos ao local onde os cachorros estavam. Pensamos um pouco e decidimos levá-los a um local um pouco mais seguro. Uma área de mata, situada entre a estrada e o trilho de trem. Compramos leite e alguns biscoitos para que eles se alimentassem.

Voltamos para a escola e conversamos com todos, na tentativa de achar uma solução para que os bichinhos pudessem viver. A conversa foi muito desanimadora. Na escola era impossível alojá-los e nos contaram que os indianos não tem a mesma relação que nós, brasileiros temos com os caninos. O animal sagrado aqui é a vaca, ela recebe todo o cuidado e a atenção do povo, raras são as casas com outros animais de estimação, então os cachorros (e os gatos) vivem nas ruas, lidando com violência de alguns filhos-da-puta e tentando sobreviver ao insano trânsito local.

No outro dia retornamos ao local e lá estavam nossos filhotes. Mais leite, comida e um pequeno exame para diagnosticar: 5 meninas e um menino.

Demos então nomes:
Ka, Tha e Li (em homenagem à arte que viemos estudar);
Chen e Da (chenda é o principal instrumento musical usado no Kathakali);
Alex Mineiro (8 gols na fase final do Brasileirão de 2001, levou o nosso Atlético Paranaese ao título nacional).

20170805_140335Janine alimentando a moçada após a chuva.

No dia seguinte, o primeiro baque. Li havia sumido. Procuramos por toda parte, mas nem sinal dela. Esperamos o retorno, mas ela nunca voltou e não sabemos o que aconteceu com ela. Fizemos uma casinha improvisada para os dias de chuva (que os danados insistiam em não usar) e começamos uma campanha nos grupos locais das redes sociais tentando achar interessados em adotar os filhotes, mas ninguém se prontificou. Tentamos também ajuda com Faculdades de Veterinária da região, mas o contato era impossível, nossos telefonemas não eram atendidos e nossos e-mails nunca tiveram resposta.

20170806_130318Os dias passaram e os filhotes foram crescendo…

Os dias foram passando até que veio nossa pior semana aqui. Eu (Mateus) me machuquei jogando futebol (2 grandes ferimentos no braço) e tive uma lesão mediana em uma costela, além disso fiquei doente, com febres terríveis e uma fraqueza constante. Inicialmente, a médica suspeitou de dengue, mas acabou não se confirmando. Nesta terrível semana, Tha e Ka sofreram gravíssimos acidentes com os trens e não sobreviveram. Estávamos desesperados. Alimentávamos os filhotes 2 vezes por dia, e cada vez que chegávamos no local onde estavam éramos tomados pela ansiedade, com a possibilidade de mais algum cachorro ter sumido ou morrido.

20170821_183722Da, Chen e Alex Mineiro: os sobreviventes.

Passado algum tempo, eu (Mateus) já estava bem melhor e num determinado dia alguns homens colocaram vacas para pastar no mesmo local onde nossos cães estavam. Ficamos assustados mas para nossa surpresa, os cachorros e a vaca viraram amigos e sempre estavam brincando juntos. Ela nos ajudava a cuidar deles, temos certeza.

Veio então, a grande notícia. A Paws Thrissur, uma ONG de proteção animal situada em uma cidade próxima respondeu nosso contato. Nos informaram que o abrigo da instituição estava lotado e não tinham condições de receber mais animais, mas nos passaram o telefone de um homem aqui da região que também realizava um trabalho de recolhimento e tratamento de animais abandonados: Umesh Radhakrishnan. Ligamos para ele e combinamos de nos encontrar. No dia seguinte ele veio até a escola e fomos juntos até o local onde estavam Chen, Da e Alex Mineiro. Levamos os cachorros para a escola e Umesh seguiu com eles e mais um outro cão para sua casa. Estávamos entristecidos pela despedida mas extremamente felizes pela vida digna que nossos filhotes teriam dali para frente.

Passado mais de um mês, e com a proximidade do nosso retorno para o Brasil, fomos visitar nossos cachorrinhos. Umesh mora com a esposa em uma casa cheia de espaço e de amor na vila de Desamangalam, distante 10km da nossa escola. Atualmente, lá estão 10 cachorros: filhotes, velhinhos, saudáveis e recém-chegados com problemas de saúde. Ele alimenta, trata e encaminha os animais para adoção.

UmeshUmesh com alguns dos cães que resgatou.

Fomos então a um cômodo da casa, Umesh abriu a porta e lá estavam nossas meninas: Chen e Da. A alegria era visível nos olhos delas e nos nossos. Que felicidade vê-las saudáveis. Elas correram desesperadas em nossa direção e aí foi só festa. Rabos balançando, lambidas e mais lambidas, abraços e brincadeiras. Umesh nos contou que elas tinham novos nomes: Chaplin e Rabbit. Adoramos os novos nomes, mas para nós serão sempre Chen e Da.

DSC_4326Da, Mateus e Chen.
DSC_4355Da, Janine e Chen.
DSC_4357Satheesh com Da e Chen. Quando viajamos ele nos ajudou a alimentar a turma, mesmo com medo de cachorros.
DSC_4389Muito obrigado amigos!

Antes de voltarmos para a escola, mais uma parada. Alex Mineiro foi adotado por um senhor que morava na mesma vila que Umesh. Chegamos e a cena se repetiu. Quanta emoção! Nosso garoto estava super gordinho, está sendo alimentado com peixe e sambar, comidas típicas da região. Já dá para perceber que será um cachorro de grande porte. Desde que encontramos os cachorrinhos ele sempre foi o maior e cuidou das irmãs. Um craque, como o jogador que homenageamos. Nos despedimos do senhor (que rebatizou nosso filhote de Rorri) e de Umesh, com a promessa de continuarmos em contato para acompanhar o crescimento dos nossos bebês.

DSC_4396Janine e Alex Mineiro, abraçados.
DSC_4390Mateus e Alex Mineiro, matando a saudade.

Na noite em que encontramos os cães, conversamos que se um deles chegasse à vida adulta já seria um milagre, três vão conseguir. Temos certeza de que nosso encontro com Ka, Tha, Li, Chen, Da e Alex Mineiro não foi por acaso. Eles precisavam de nós e nós deles. Tantos foram os momentos (felizes e tristes) que passamos juntos. Esses 6 pequenos bolinhos de fofura nos ensinaram muita coisa e jamais sairão da nossa memória. São parte da nossa vida, para sempre.

DSC_4399Alex Mineiro, o maior da ninhada. Sempre cuidou das irmãs.

A intenção deste post é valorizar a atitude e o trabalho deste grande homem: Umesh Radhakrishnan. Num local onde as pessoas não tem grande apego aos cães ele faz a diferença. Pessoas como ele nos inspiram e nos fazem acreditar que mesmo em tempos tão obscuros como os que vivemos hoje, ainda há espaço para a humanidade, o amor, o bem pelo bem.

O mundo precisa de mais Umeshs.

Obrigado amigo.

Onam, a festa das famílias de Kerala

O Onam é o mais importante festival do estado de Kerala. Acontece entre os meses de agosto e setembro e dura 10 dias, sendo 2 deles feriados. De acordo com uma lenda popular o festival é celebrado para receber o Rei Mahabali, cujo espírito visita Kerala durante as festividades. O evento ainda celebra a colheita do arroz.

95e694f39e37ea690caf7683040faee80c3d6ec3_originalA figura do Rei Mahabali está por todos os lados durante o Onam, algo semelhante ao papai noel no natal.

Segundo a lenda, durante o reino de Mahabali, Kerala viveu seu apogeu. Todos eram felizes e prósperos e o rei era muito apreciado pelo povo. Porém, Mahabali tinha um grave defeito: ele era egoísta. Esta falha foi utilizada pelos deuses para trazer um fim ao seu reino, pois se sentiam desafiados pelo crescimento de sua popularidade. No entanto, por causa de todo o bem feito para as pessoas de Kerala, os deuses permitiram que ele pudesse visitar anualmente todos os súditos, aos quais ele era tão apegado. É esta visita que é celebrada como Onam a cada ano. As pessoas não poupam esforços para celebrar o festival de uma maneira grandiosa e impressionar o rei Mahabali durante sua visita.

Apesar de ser uma comemoração hindu, as outras religiões abraçam as festividades como forma de comunhão e união entre os povos de diferentes credos.

Nossa vivência do Onam começou (maravilhosamente) por acaso. Nosso mestre de Kathakali, Kalamandalam Udya Kumar, havia nos convidado para assistir sua performance em um templo na cidade de Ernakulam. Prontamente aceitamos, pois jamais perderíamos a oportunidade de assistir nosso guru atuando a arte que nos ensina. Após cerca de 5 horas de viagem chegamos ao local. Aí veio a surpresa! O Thrikkakkara Vamana Moorthy Temple é o mais importante do estado e há séculos recebe as festividades que dão início ao Onam. Sem saber, estávamos no coração da maior festa de Kerala. Entre as tradições estavam as primeiras orações, o hasteamento do estandarte do festival, elefantes enfeitados, fogos de artifício, diversas apresentações artísticas e muita, mas muita gente feliz!

DSC_2214Elefante enfeitado para o início do Onam.

A apresentação do nosso Guru foi mágica. Como é bom ver um mestre fazer no palco o que ensina durante suas aulas. Tudo estava lá: a precisão, a humildade, o rigor, a troca com os outros atores muito mais jovens que ele… Após o espetáculo ele nos confessou que ainda sente muita alegria em atuar (são mais de 2000 performances na Índia e em vários outros países), mas atualmente o que ele realmente ama é ensinar. Nos disse que a felicidade em ver um aluno atuando é o que o move. Um grande e talentoso mestre por quem seremos eternamente gratos! Na hora de voltarmos para casa, os ônibus já haviam parado de circular e voamos para a estação de trem mais próxima. Conseguimos chegar a tempo e após 3h no trem (em pé) estávamos em casa. Cansados, felizes e agradecidos.

DSC_2416Kalamandalam Udya Kumar vivendo a personagem Ranumam. Um grande mestre.

Alguns dias depois o diretor da escola nos convidou para assistir uma apresentação de Chenda (instrumento que eu, Mateus estou estudando) em Kannambra, uma vila distante cerca de 3h de Cheruthuruthy. Novamente o destino nos sorriu. Quem acompanha o blog sabe que tivemos a oportunidade de conhecer Gopi, a maior estrela e referência do Kathakali. Em Kannambra conhecemos Mattanur Sankarankutty, o maior percussionista de Kerala. Antes da apresentação nos recebeu em seu camarim e ficou muito surpreso em saber que um brasileiro estava aprendendo Chenda, desejou toda a sorte nos estudos e felicidade na carreira musical. A apresentação foi uma catarse coletiva! Dezenas de músicos tocavam os mais variados instrumentos de percussão, cada vez mais rápido, mais intenso, até alcançar o que classificamos como um estado meditativo, transcendental. Foi inspirador e inesquecível! Voltamos para Cheruthuruthy sabendo que no outro dia estaríamos de volta em Kannambra, para mais apresentações.

DSC_2509Mateus Ferrari e Mattanur Sankarankutty.

E assim aconteceu, fomos com o ônibus da escola, cheio de artistas que se apresentariam no festival. A primeira apresentação foi de artistas locais, em um número com um homem, uma mulher e um palhaço. Era uma comédia. Não entendemos as palavras e cantos, mas a performance era engraçadíssima, o povo gargalhava nas cadeiras… Aí veio uma decepção. A peça foi interrompida para que políticos fizessem seus discursos. Entendemos as diferenças entre as culturas, mas achamos o acontecido extremamente desrespeitoso com os artistas. Após os (longos) discursos políticos a performance continuou.

DSC_2548A comédia interrompida levou o povo às gargalhadas.

Na sequência, mais um momento daqueles que só quem se joga no mundo vive. Subiu ao palco uma banda com bateria, baixo, guitarra, teclado e um violinista. A curiosidade sobre o que viria era grande. Nas primeiras notas já estava claro o estilo musical: heavy metal. Sim, heavy metal! A banda tocava pesado e o violinista esbanjava talento e carisma. Teve até Mozart, em uma versão pesada e surpreendente. O show animou o povo e as famílias levantavam das cadeiras e balançavam os corpos ao som da banda. Aliás, o povo de Kerala gosta é de arte, sem preconceito contra estilos. Se um artista está no palco, o povo está lá, lotando os espaços, aplaudindo e vivendo a arte. É lindo e emociona mesmo.

DSC_2613Heavy metal! \,,/

Após a banda, alguns outros números musicais com os instrumentos tradicionais do estado. Veio então Galaxy of Musicians, um espetáculo de dança, produzido pela nossa escola, que traz à vida uma obra do pintor Raja Ravi Varma. Cada uma das mulheres retratadas na pintura apresentava uma forma de dança, enquanto o dançarino que vivia Raja pintava cada uma delas. Visualmente era um colírio, lindíssimos figurinos, coreografias e luzes, com o apogeu no final, onde as mulheres eram emolduradas, reproduzindo a pintura maravilhosamente.

Raja Ravi Varma-936699A pintura original de Raja Ravi Varma.
DSC_2734Cena final do espetáculo Galaxy of Musicians.

Vimos ainda diversas danças das alunas da nossa escola e novamente felizes e cansados, voltamos para casa.

Passados alguns dias, nosso destino era Thiruvanantaphuram, a capital de Kerala. Viajamos com Kalamandalam Gopalakrishnan, o diretor da escola, no trem da madrugada (em um vagão sleeper, com camas individuais e muito barato). Chegamos às 5h da manhã e após uma soneca no alojamento onde ficamos, saímos visitar alguns templos na cidade. Seguimos então para a casa de Rama Chanran, um amigo de Gopalakrishnan, onde experimentamos o Onasadya, refeição tradicional das festividades de Kerala, com arroz, diversos molhos e doces, servidos em uma folha de bananeira. Nos sentimos muito acolhidos, bem-vindos e agradecidos pela oportunidade.

DSC_2889Família de Rama Chanran após o Onasadya, refeição tradicional de Kerala.

Após o almoço, fomos para Kovalam, uma praia que fica cerca de 40 minutos do centro da cidade. Mais uma vez estávamos lá, frente a frente com o Mar Arábico, com o Oceano Índico. Imediatamente achamos um Beer Parlour (local onde é permitida a venda de bebidas alcoólicas) e degustamos uma cervejinha de frente para a praia. Centenas de famílias coloriam a areia e a felicidade era notável. Os indianos gostam de praia, é de encher os olhos! Ficamos por lá até o pôr-do-sol e voltamos para o alojamento.

DSC_3029Pôr-do-sol inesquecível em Kovalam Beach.

No dia seguinte, fomos cedo para o Rally for Rivers, um programa cultural em defesa da limpeza e conservação dos rios da Índia. Uma iniciativa louvável que certamente conta com o nosso apoio. Os artistas da nossa escola estavam lá, representando sua cultura e colorindo a rua com a arte de Kerala.

DSC_3150Artistas da nossa escola após o programa para o Rally for Rivers.
3Militando pelos rios e tirando muitas fotos.

Após o programa, fomos para Anchal, visitar a família do nosso guru Udayan. Seu pai estava fazendo 90 anos (segundo as contas da família, pois o senhor garantia que estava fazendo 93).

DSC_3181O aniversariante e sua linda esposa. Pais do nosso guru.

A família toda estava reunida, avós, filhos, tios, tinha até um primo que mora no Canadá e veio visitar a família durante o Onam. O dia foi delicioso, lembrando muito os almoços de Natal das nossas famílias. Todos comendo juntos, e após a refeição alguns ajudam na louça, uns vão tirar uma soneca, as crianças vão brincar. No final da tarde, um café na sacada da casa com um longo bate-papo, muitas histórias e muitas risadas. Estávamos em família, literalmente, pois ali naquele dia nós éramos parte do clã. Somos muito agradecidos pela oportunidade de viver estes momentos, estamos sempre abertos para receber os costumes e as pessoas e quando sentimos reciprocidade nisso, é difícil explicar o que acontece, talvez seja esse tipo de coisa que faz a vida verdadeiramente valer a pena: a família, os amigos, o respeito e a amizade. Estava tudo lá.

DSC_3176FAMÍLIA!

Gokul, filho do nosso Guru nos levou de carro até a rodoviária mais próxima e após algumas horas no ônibus, chegamos em Thrissur. O desafio era achar um novo ônibus para nosso trecho final até Cheruthuruthy (cerca de 30km). Eram 2h30 da madrugada quando chegamos e esperamos até as 4h30 até o ônibus finalmente aparecer. Era a vida nos dizendo: “passaram uma tarde de sonhos né, então toma um perrengue pra lembrar da realidade!”. Justo. Cansamos, mas levamos a espera na esportiva e quando o Sol quase amanhecia estávamos novamente em casa.

DSC_3361Encerramento do Onam em Thiruvanantaphuram.

Quando o Onam já parecia terminado, mais uma aventura: Nossa escola iria participar do desfile de encerramento das festividades na capital do estado. Inicialmente, não iríamos, pois estávamos muito cansados das viagens e precisávamos de um tempo para nos recompor. Mas, somos aventureiros! Nossos amigos nos convenceram e pensamos: “teremos muito tempo para o descanso ainda, vamos viver!”. Entramos no ônibus da escola e viajamos a madrugada toda para Thiruvanantaphuram. Enquanto as dançarinas se maquiavam no alojamento improvisado em um templo, achamos umas esteiras, jogamos no chão e ali mesmo dormimos, ao som das meninas conversando e dos cantos hindus que ecoavam pelo templo. Saímos para almoçar e nos dirigimos ao começo do percurso, que percorreria 6km pela ruas da capital.

DSC_3356As lindas dançarinas de Mohiniyattam da nossa escola.

O desfile é um mega evento, com milhares e milhares de pessoas na rua para assistir. Antes do começo, seguimos pelo trajeto e achamos um local para apreciar e fotografar as ruas se enchendo de cores e alegria. A apresentação conta com crianças do esporte, artistas de todos os tipos, percussionistas, carros alegóricos, lembrando um pouco nossas escolas de samba. Após todos passarem por onde estávamos, saímos em disparada pelo meio do desfile para encontrar os amigos da nossa escola e tirar mais algumas fotos. Terminado o evento fomos novamente até o templo para jantar e em seguida voltamos para Cheruthuruthy.

DSC_3550Pulikali, a dança dos tigres que sempre anima os lugares por onde passa.
DSC_3665Povo lota as ruas de Thiruvanantaphuram para ver o desfile de encerramento do Onam.

O Onam mexe com o povo de Kerala, é um período de muita festa e arte feito pelas e para as famílias. Foram dias de sonho onde conhecemos pessoas, fizemos amizades e nos sentimos acolhidos, parte do que estava acontecendo e da vida que estavam vivendo. Com o corpo cansado, a alma serena e o coração jorrando alegria agradecemos aos deuses e ao povo de Kerala pela oportunidade. É algo que vamos levar para sempre. Nós amamos este lugar e estas pessoas!

Nandi, Thanks, Namastê!

Ps.: Para mais fotos do Onam, visite nossa Galeria de fotos: https://artejornadahumana.com/galeria-de-fotos/

Curiosidades sobre a Índia: como é viver…

…sem papel higiênico

Numa breve pesquisa sobre a Índia em alguns blogs de viagem já havíamos lido que os indianos não tem o costume de usar papel higiênico. Toda a limpeza pós número 1 e 2 é feita com a mão (esquerda, porque a direita se usa para comer) e com um balde de água ou chuveirinho que sempre tem embaixo das torneiras, aliás os indianos acham super esquisito nosso hábito de limpar-nos com papel higiênico, para eles nunca se limpa 100% com o papel, sempre acabamos com a bunda meio-suja (tem bastante verdade nisso hein…). Ao chegarmos aqui constatamos que o fato é verídico, embora nos hotéis e restaurantes mais turísticos sempre há uma privada e papel higiênico à disposição. Nos locais sem preparação para o turismo há apenas um buraco no chão (acho que nossos pais e mães devem ter experimentado isso na infância). Aqui na escola em que moramos temos nosso vaso sanitário, balde e chuveirinho. No primeiro dia até tinha papel, mas depois tivemos que ir atrás e no mercado o preço é bem salgado. Devido aos gastos resolvemos racionar e começamos a aderir ao costume de usar o chuveirinho e fazer o trabalho com a mão esquerda mesmo…

DSC_2817Novo país, novos costumes…

…sem talheres

Aqui todas as refeições são feitas com a mão direita. Em todos os restaurantes há uma pia (geralmente sinalizada com WASH) e assim que entram no estabelecimento todos vão direto lavar a mão antes de se sentar. Acabando a refeição a mesma coisa acontece já que as mãos estão todas lambuzadas de molhos e condimentos. Confesso que eu, Janine, me adaptei bem e apesar de muitas vezes derrubar comida na blusa ou na calça com o tempo fui me acostumando, agora o Mateus… não teve jeito, cada vez que tinha que juntar o arroz caía tudo, o que fez com que o dono do restaurante nos servisse nossas comidas sempre com uma colher para facilitar a nossa vida. Falando em comida, a saudade da comida brasileira (e japonesa) é imensa. Os temperos usados no dia-a-dia são sempre muito apimentados, mas não reclamamos já que temos como nos alimentar, embora muitas vezes nos pegamos conversando sobre a saudade de um pão francês com manteiga e queijo, um prato de arroz e feijão, etc…

DSC_0113A apimentada e saborosa comida de Kerala.

…com segurança

Uma das melhores coisas de se viver em Kerala é poder sair na rua ou ir nos lugares sem ter a preocupação de ser assaltado ou correr algum risco. Claro que não podemos garantir que tudo é 100% seguro, mas durante a nossa jornada não vimos e não soubemos de nenhum caso de roubo ou algo do tipo. Aquela angústia que nos acompanha nas ruas do Brasil ou no cuidado com a bolsa dentro dos estabelecimentos aqui é substituída pela tranquilidade (o medo maior é de ser atropelado devido ao trânsito). Conversamos uma vez com o nosso amigo Sateesh e ele disse que aqui as pessoas não tem arma e os casos de morte são relacionados à crimes passionais ou disputas políticas. Aqui também se vive uma preocupante polarização entre esquerda (situação) e direita (oposição). Na rua andamos com celulares, câmeras a mostra e nunca corremos algum tipo de risco e nem passamos medo o que nos faz refletir o nível de insegurança que vivemos no Brasil e quanto viver assim parece absurdo. É uma das diversas coisas que vamos sentir falta daqui.

DSC_0030Assaltos e roubos não existem, mas o trânsito é maluco e temos de estar sempre atentos.

…mais barato

Apesar do caro papel higiênico (cerca de R$ 2,50 o rolo), realmente não podemos reclamar dos preços daqui, as coisas são baratas. Na conversão R$1,00 vale cerca de 20 rúpias. Alguns exemplos: Hamburguer de Frango + batata frita + Milk Shake = R$5,00, pacote de pão = R$1,15. O Mateus ficou doente há algum tempo e tivemos que usar o hospital privado aqui da cidade. A consulta custou R$5,00, o exame de sangue R$5,05, esparadrapo R$ 0,17. Esses dias atrás a cidade fez um protesto devido o aumento do valor dos impostos, só que o imposto aqui em geral não ultrapassa os 18%, e no Brasil parece que não temos a mesma consciência na luta pela diminuição das nossas absurdas taxas. Vale ressaltar que apesar de os valores serem baixos a qualidade dos produtos é boa, a maioria das vezes o problema está no cuidado do armazenamento.

DSC_0034No mercado, sempre tudo jogado.

…com um nível de higiene abaixo do que estamos acostumados

Se tem uma coisa que no começo nos incomodou foi o nível de limpeza dos lugares públicos e alguns lugares privados. Nas ruas então… nem se fala, o lixo faz parte da paisagem das cidades e os cheiros colaboram com a situação nada acolhedora. Aqui em Cheruturuthy a quantidade de lixo nas ruas é bem menor e o que predomina nas paisagens são as palmeiras e coqueiros, mas na rua não tem uma lata de lixo ou lugar específico para o depósito do lixo. Até na escola não sabemos ao certo o que fazer. O que podemos constatar é que a quantidade de lixo produzido é bem menor que no nosso país uma vez que comem mais comidas naturais, menos industrializadas, não usam papel higiênico, etc… mas a falta de cuidado realmente é preocupante. Junto com tudo isso, o clima é super úmido e as paredes ficam manchadas e mofadas, além do imenso número de teias de aranha por todos os lados. Cada noite que passa aumenta inacreditavelmente o número delas. Esse é um fato que nos difere bastante, percebermos que a limpeza não é uma grande preocupação da maioria dos indianos.

DSC_1381Aracnofóbicos com certeza terão problemas na adaptação…

…com pessoas que são curiosas por você

O melhor do Brasil são os brasileiros e o melhor da Índia são os indianos. A simplicidade e a humildade com que eles vivem são o melhor aprendizado daqui. Além disso eles são muito curiosos com tudo, perguntam coisas que para a gente são íntimas, apesar de às vezes também demostrarem um sorriso de vergonha. Para eles nós somos como famosos e as selfies nunca param. Sempre vai ter gente querendo tirar foto com você o que para a gente era muito estranho no começo mas agora já estamos acostumados. Quem acompanha nossas redes sociais soube que o Mateus saiu em um jornal local por jogar futebol com os nativos. Aliás, isso é uma coisa que escutamos aqui, que não são todos os estrangeiros que se envolvem com a comunidade (como jogar bola, ir nos casamentos) e que por isso muitas pessoas gostam da gente e a curiosidade é ainda maior já que damos mais abertura. Nossa jeitinho brasileiro contribuiu com o carisma…

IMG_20170806_002557_058Sorria!

…viver em uma vila de artistas

Somos artistas,  no Brasil a grande maioria dos nossos amigos também são. Aqui em Cheruthuruthy a cidade gira em torno da Kerala Kalamandalam (Universidade de Artes) então quase todos são artistas (músicos, atores, escultores, dançarinos, pintores, cineastas, fotógrafos, etc…). Em cada conversa nos restaurantes e bar (no singular, só tem um bar aqui) o assunto quase sempre é a arte, a universidade e a intensa programação cultural do estado. Muitas (e lindas) são as manifestações artísticas de Kerala e diferente do Brasil aqui a arte é muito valorizada. As apresentações estão sempre lotadas e o público está acostumado com performances de mais de 6 horas, ninguém arreda o pé.

DSC_2157Antes das apresentações o papo é sempre muito divertido, com causos do passado e muitas histórias.

Existem muitas outras coisas que são diferentes por aqui: andar de tuk tuk, escutar inglês com sotaque indiano, tomar banho de água gelada, andar nas ruas sem calçadas, etc… o mais legal disso tudo são as descobertas, as surpresas, é entender que o diferente é um grande aprendizado, que nossa vidinha é muito pequena e há um mundão de coisas para descobrirmos. A Índia tem nos trazido a consciência de que apesar das diferenças o que nos encontra é a essência de ser humano.