Arte Jornada …Canina?

Era 3 de agosto de 2017, por volta das 20h. Voltávamos do jantar. Sempre fazemos o caminho de volta do restaurante para a escola pelo lado esquerdo da estrada. Nessa noite havia muito trânsito e ainda não havíamos conseguindo atravessar, caminhávamos pelo lado direito. Estávamos conversando e rindo, sempre um lembrando ao outro: – Nós estamos na Índia! Tudo aqui é tão especial que parece um sonho, então de vez em quando nos pegamos falando sobre isso, que nossa estada aqui é real e está acontecendo. Dentro desse contexto de felicidade e risadas, a Janine escutou um barulho vindo da vegetação ao lado da estrada, estava escuro e ao ligar a lanterna, a surpresa: 6 filhotes de cachorro.

20170803_200520Seis cachorrinhos, abandonados à própria sorte.

A primeira reação foi de raiva. Como alguém abandona filhotes tão próximo a uma estrada super movimentada, com tantos riscos? Fomos até a escola, chamamos nosso amigo Satheesh e voltamos ao local onde os cachorros estavam. Pensamos um pouco e decidimos levá-los a um local um pouco mais seguro. Uma área de mata, situada entre a estrada e o trilho de trem. Compramos leite e alguns biscoitos para que eles se alimentassem.

Voltamos para a escola e conversamos com todos, na tentativa de achar uma solução para que os bichinhos pudessem viver. A conversa foi muito desanimadora. Na escola era impossível alojá-los e nos contaram que os indianos não tem a mesma relação que nós, brasileiros temos com os caninos. O animal sagrado aqui é a vaca, ela recebe todo o cuidado e a atenção do povo, raras são as casas com outros animais de estimação, então os cachorros (e os gatos) vivem nas ruas, lidando com violência de alguns filhos-da-puta e tentando sobreviver ao insano trânsito local.

No outro dia retornamos ao local e lá estavam nossos filhotes. Mais leite, comida e um pequeno exame para diagnosticar: 5 meninas e um menino.

Demos então nomes:
Ka, Tha e Li (em homenagem à arte que viemos estudar);
Chen e Da (chenda é o principal instrumento musical usado no Kathakali);
Alex Mineiro (8 gols na fase final do Brasileirão de 2001, levou o nosso Atlético Paranaese ao título nacional).

20170805_140335Janine alimentando a moçada após a chuva.

No dia seguinte, o primeiro baque. Li havia sumido. Procuramos por toda parte, mas nem sinal dela. Esperamos o retorno, mas ela nunca voltou e não sabemos o que aconteceu com ela. Fizemos uma casinha improvisada para os dias de chuva (que os danados insistiam em não usar) e começamos uma campanha nos grupos locais das redes sociais tentando achar interessados em adotar os filhotes, mas ninguém se prontificou. Tentamos também ajuda com Faculdades de Veterinária da região, mas o contato era impossível, nossos telefonemas não eram atendidos e nossos e-mails nunca tiveram resposta.

20170806_130318Os dias passaram e os filhotes foram crescendo…

Os dias foram passando até que veio nossa pior semana aqui. Eu (Mateus) me machuquei jogando futebol (2 grandes ferimentos no braço) e tive uma lesão mediana em uma costela, além disso fiquei doente, com febres terríveis e uma fraqueza constante. Inicialmente, a médica suspeitou de dengue, mas acabou não se confirmando. Nesta terrível semana, Tha e Ka sofreram gravíssimos acidentes com os trens e não sobreviveram. Estávamos desesperados. Alimentávamos os filhotes 2 vezes por dia, e cada vez que chegávamos no local onde estavam éramos tomados pela ansiedade, com a possibilidade de mais algum cachorro ter sumido ou morrido.

20170821_183722Da, Chen e Alex Mineiro: os sobreviventes.

Passado algum tempo, eu (Mateus) já estava bem melhor e num determinado dia alguns homens colocaram vacas para pastar no mesmo local onde nossos cães estavam. Ficamos assustados mas para nossa surpresa, os cachorros e a vaca viraram amigos e sempre estavam brincando juntos. Ela nos ajudava a cuidar deles, temos certeza.

Veio então, a grande notícia. A Paws Thrissur, uma ONG de proteção animal situada em uma cidade próxima respondeu nosso contato. Nos informaram que o abrigo da instituição estava lotado e não tinham condições de receber mais animais, mas nos passaram o telefone de um homem aqui da região que também realizava um trabalho de recolhimento e tratamento de animais abandonados: Umesh Radhakrishnan. Ligamos para ele e combinamos de nos encontrar. No dia seguinte ele veio até a escola e fomos juntos até o local onde estavam Chen, Da e Alex Mineiro. Levamos os cachorros para a escola e Umesh seguiu com eles e mais um outro cão para sua casa. Estávamos entristecidos pela despedida mas extremamente felizes pela vida digna que nossos filhotes teriam dali para frente.

Passado mais de um mês, e com a proximidade do nosso retorno para o Brasil, fomos visitar nossos cachorrinhos. Umesh mora com a esposa em uma casa cheia de espaço e de amor na vila de Desamangalam, distante 10km da nossa escola. Atualmente, lá estão 10 cachorros: filhotes, velhinhos, saudáveis e recém-chegados com problemas de saúde. Ele alimenta, trata e encaminha os animais para adoção.

UmeshUmesh com alguns dos cães que resgatou.

Fomos então a um cômodo da casa, Umesh abriu a porta e lá estavam nossas meninas: Chen e Da. A alegria era visível nos olhos delas e nos nossos. Que felicidade vê-las saudáveis. Elas correram desesperadas em nossa direção e aí foi só festa. Rabos balançando, lambidas e mais lambidas, abraços e brincadeiras. Umesh nos contou que elas tinham novos nomes: Chaplin e Rabbit. Adoramos os novos nomes, mas para nós serão sempre Chen e Da.

DSC_4326Da, Mateus e Chen.
DSC_4355Da, Janine e Chen.
DSC_4357Satheesh com Da e Chen. Quando viajamos ele nos ajudou a alimentar a turma, mesmo com medo de cachorros.
DSC_4389Muito obrigado amigos!

Antes de voltarmos para a escola, mais uma parada. Alex Mineiro foi adotado por um senhor que morava na mesma vila que Umesh. Chegamos e a cena se repetiu. Quanta emoção! Nosso garoto estava super gordinho, está sendo alimentado com peixe e sambar, comidas típicas da região. Já dá para perceber que será um cachorro de grande porte. Desde que encontramos os cachorrinhos ele sempre foi o maior e cuidou das irmãs. Um craque, como o jogador que homenageamos. Nos despedimos do senhor (que rebatizou nosso filhote de Rorri) e de Umesh, com a promessa de continuarmos em contato para acompanhar o crescimento dos nossos bebês.

DSC_4396Janine e Alex Mineiro, abraçados.
DSC_4390Mateus e Alex Mineiro, matando a saudade.

Na noite em que encontramos os cães, conversamos que se um deles chegasse à vida adulta já seria um milagre, três vão conseguir. Temos certeza de que nosso encontro com Ka, Tha, Li, Chen, Da e Alex Mineiro não foi por acaso. Eles precisavam de nós e nós deles. Tantos foram os momentos (felizes e tristes) que passamos juntos. Esses 6 pequenos bolinhos de fofura nos ensinaram muita coisa e jamais sairão da nossa memória. São parte da nossa vida, para sempre.

DSC_4399Alex Mineiro, o maior da ninhada. Sempre cuidou das irmãs.

A intenção deste post é valorizar a atitude e o trabalho deste grande homem: Umesh Radhakrishnan. Num local onde as pessoas não tem grande apego aos cães ele faz a diferença. Pessoas como ele nos inspiram e nos fazem acreditar que mesmo em tempos tão obscuros como os que vivemos hoje, ainda há espaço para a humanidade, o amor, o bem pelo bem.

O mundo precisa de mais Umeshs.

Obrigado amigo.

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