A Cultura Minangkabau

(English version below)

Você sabia que a Indonésia é formada por mais de 17.508 ilhas? Na cerimônia de abertura do programa Darmasiwa escutamos essa informação algumas vezes e ainda assim era difícil ter a real noção da complexidade e grandeza desse país. Através dessas milhares de ilhas, o povo é distribuído em distintos grupos étnicos, linguísticos, religiosos e consequentemente culturais. Ou seja, a cultura da Indonésia é muito rica e cada região possui sua culinária, dialetos e artes tradicionais, bem como seus costumes e tradições.

Nosso encontro na Indonésia é com o Minangkabau, a cultura do povo de Sumatra Ocidental. Aqui estamos estudando suas músicas e danças tradicionais, além da arte marcial (Silat ou Silek) e o teatro (Randai). Mas antes de falar especificamente da cultura gostaríamos de fazer um parênteses para falar um pouco da história e costumes desse povo tão peculiar.

DSC_0531A encantadora Rumah Gadang em Padang Panjang.

O povo Minangkabau é uma sociedade tradicionalmente matriarcal e muçulmana. Foi por volta do século XVI que o Islã começou a ser adotado, trazido pelos comerciantes do Oriente Médio. Dentro de toda a Indonésia, o povo Minangkabau já foi considerado os mais intelectuais e produtores das melhores literaturas. O centro da sua filosofia é baseado em viver em harmonia com a natureza. Muitos de seus símbolos místicos vêem da força da natureza e principalmente de seus ancestrais. Eles acreditam que a alma de seus ancestrais está sempre renascendo e se conectando e que os espíritos podem habitar plantas, seres humanos, terras, metais e pedras.

Grande parte das manifestações artísticas Minangkabau representam a natureza. Nas artes plásticas e na estamparia, os desenhos de broto de bambu, samambaia e folhas de sirih estão sempre presentes e possuem significados filosóficos que passam de geração em geração.

IMG_20181014_075010_506O Búfalo é o animal-símbolo deste povo e ainda é muito utilizado nas plantações.

Além da relação com a natureza, a maior relação prática desse povo é com a figura da mãe. A grande lenda é sobre a Bundo Kanduang, uma Rainha que detinha o poder do reino Minangkabau há milhares de anos atrás. “Bundo” significa “Mãe”. Ela foi a encarnação de uma Deusa e tinha a tarefa de educar o povo nas leis do ADAT, o sistema matriarcal na qual a propriedade e a descendência é traçada pelas mães. Toda a sociedade girava em torno desse ADAT, as leis e/ou costumes, que contém toda a filosofia do povo Minangkabau, bem como seus deveres aos seus ancestrais, a eles mesmos, ao meio ambiente e aos seus descendentes.

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Bundo Kanduang.

Minangkabau significa “búfalo vitorioso”. Diz a lenda que certa vez houve uma disputa territorial pelas terras do oeste de Sumatra entre o povo local e um reino de Java. Para evitar batalhas e sangue derramado o povo Minang sugeriu que a questão fosse resolvida através de uma luta entra 2 búfalos. Os inimigos aceitaram e começaram a
procurar pelo maior e mais agressivo búfalo que pudessem encontrar. Já o povo  Minangkabau, escolheu o menor e mais inocente búfalo. No dia da batalha, eles amarraram uma lança no nariz do pequeno búfalo. Como haviam imaginado, o grande búfalo javanês não teve medo do pequeno e começou a procurar por algum animal de seu tamanho. O “baby búfalo”, que estava morrendo de fome, foi direto na direção do grande búfalo, na tentativa de encontrar leite e isso permitiu que seu nariz (com a lança) ferisse mortalmente a barriga do grande búfalo, dando ao povo Minangkabau a vitória no conflito e o direito de continuar em suas terras. Essa história ainda pode ser vista como um exemplo da superioridade da inteligência matriarcal Minangkabau, triunfando ante a brutalidade patriarcal dos javaneses.

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A inteligência vence a força bruta.

Os chifres do búfalo serviram de inspiração para as curvas dos telhados das casas tradicionais (Rumah Gadang), e também a forma curvada dos adornos que as mulheres usam na cabeça tanto quando estão trabalhando como em alguns trajes das danças tradicionais.

Apesar de estarmos estudando em sala de aula a língua nacional da Indonésia (Bahasa Indonesia), no dia-a-dia, nas ruas, aprendemos o dialeto do povo Minang. E quando eles escutam “bulês” (gringos) falando a língua local, sempre recebemos sorrisos carregados de surpresa e às vezes até conseguimos descontos por isso.

Quanto à culinária desse povo, a pimenta toma conta do prato (bem mais que na Índia), mas em 4 meses o paladar acaba se acostumando. O arroz está presente em todas as refeições. Peixe, frango, tofu e tempeh (derivado da Indonésia) fazem a vez das proteínas e muitas folhas verdes e vegetais complementam o cardápio. O prato típico da região é o Rendang, feito especialmente com carne bovina ou jaca cozidos por horas no leite de cocô. Tivemos a oportunidade ver como era feito (e ajudar na cozinha) quando visitamos a vila de Jawi-Jawi, que mantém muito do estilo de vida tradicional do povo Minangkabau. O prato é uma delícia!!

DSC_8956Saboreando as delícias da cozinha Minangkabau com os amigos da Darmasiswa.

Nessa vila, tivemos a oportunidade de dormir dentro de uma Rumah Gadang (a casa típica Minang que é uma verdadeira obra de arte) e vivenciamos alguns costumes deles, como banho a céu aberto, plantar arroz e observar o búfalo em seu trabalho diário. Assistimos também algumas performances de música e dança tradicionais e vestimos suas roupas.

LRM_EXPORT_4965610879217_20181007_230516387Janine com roupas tradicionais, dentro de uma Rumah Gadang.

A cultura Minangkabau com sua simbologia, o contato com a natureza, a relação com os espíritos e seus ancestrais além da Deusa Mãe, nos fazem refletir a sociedade brasileira, e como estamos tão longe disso… como a magia é para poucos e como o ser humano perdeu suas conexões interiores. Todos estes fatores estão nos provocando e inspirando em um novo processo de pesquisa para o primeiro espetáculo do ArteJornadaHumana, mas isso é assunto para um novo post…

DSC_0112-01Ensaiando, dançando, atuando, trabalhando sob os olhos de Bundo Kanduang.

Tarimo Kasih!

The Minangkabau Culture

Did you know that Indonesia is formed by 17,508 islands? At the opening ceremony of the Darmasiwa program we listened this information a few times and yet it was difficult to have the real perception of the complexity and greatness of this country. Through these thousands of islands, the people are distributed in different ethnic, linguistic, religious and cultural groups. That is, the culture of the Indonesia is very rich and each region has its cuisine, dialects and traditional arts, as well as its costumes and traditions.

Our journey in Indonesia is with the Minangkabau, the culture of the people of West Sumatra. Here we are studying its traditional songs and dances, besides the martial art (Silat or Silek) and the theater (Randai). But before speaking specifically of the culture I would like to make a parentheses to talk a little about the history and customs of this peculiar people.

Minangkabau is a traditionally matriarchal and Muslim society. It was around of the sixteenth century that Islam began to be adopted, brought by the traders of the Middle East. Throughout Indonesia, the Minangkabau people were once considered the most intellectual and with the best literatures. The center of Minangkbau philosophy is based on living in harmony with nature. Many of their mystical symbols come from the force of nature and especially from their ancestors. They believe that the soul of the ancestors is always reborning and connecting and that spirits can dwell plants, humans, earths, metals and stones.

Much of the Minangkabau artsrepresent nature. In the plastic arts and stamping, bamboo shoots, ferns and crab leaves are always present and have philosophical meanings that pass from generation to generation.

Besides the relationship with nature, the greatest practical relation of this people is with the figure of the mother. The big legend is about the Bundo Kanduang , a Queen who held the power of the Minangkabau kingdom thousands of years ago. “Bundo” means “Mother”. She was the incarnation of a Goddess and had the task of educating the people in the laws of ADAT, the matriarchal system in which property and descent is drawn by the mothers. The whole society revolved around this ADAT, the laws and / or customs, which contains the whole philosophy of the Minangkabau people, as well as their duties to their ancestors, themselves, the environment and the their descendants.

Minangkabau means “victorious buffalo”. The legend says that there was once a territorial dispute over the lands of the West Sumatra between the local people and a kingdom of Java. To avoid battles and blood shed the Minang people suggested that the issue could be resolved through a fight between 2 buffaloes. The enemies accepted and began to look for the biggest and most aggressive buffalo they could find. On the other hand the Minangkabau people choosed the smaller and more innocent buffalo. On the day of the battle, they tied a spear to the little buffalo’s nose. As they had imagined, the great javanese buffalo was not afraid of the little one and began to search for some animal of its size. The “baby buffalo”, which was starving, headed straight for the great buffalo, in the attempt to find milk and this allowed his nose (with the spear) to mortally wound the belly of the great buffalo, giving the people of Minangkabau victory in the conflict and the right to continue on their lands.

This story can still be seen as an example of the superiority of the matriarchal intelligence of Minangkabau, triumphing over the patriarchal brutality of the Javanese.

The horns of the buffalo served as inspiration for the curves of the roofs of traditional houses (rumah gadang), and also the curved shape of the adornments that women wear on their heads both when they are working and in some traditional dance costumes.

Although we are studying in the classroom the national language of Indonesia (Bahasa Indonesia), on the streets, we learn the dialect of the Minang people. And when they hear “bules” (foreigners) speaking the local language, we always get smiles loaded with surprise and sometimes we even get discounts for it.

As for the cuisine of this people, the pepper takes care of the dish (well more than in India), but in 4 months the palate becomes used to the spiceness. Rice is present at all meals. Fish, chicken, tofu and tempeh make the turn of proteins and many green leaves and vegetables complement the dish. The typical dish of the region is Rendang, made especially with beef or jackfruit cooked for hours in coconut milk. We had the opportunity to see how it is done (and help in the kitchen) when we visited the village of Jawi-Jawi, which retains much of the traditional lifestyle of the Minangkabau people. The dish is delicious!!

In this village, we had the opportunity to sleep inside a Rumah Gadang (the typical minang house that is a real masterpiece) and we experienced some of their customs, such as open air bathing, planting rice and watch the famous “water buffalo” in its daily work. We also watched some music and dance and dress their clothes.

The Minangkabau culture with its symbology, the contact with nature, the relationship with the spirits and their ancestors besides the Mother Goddess, make us reflect the Brazilian society, and how far we are from this … how magic is for
few and how human beings lost their inner connections. All these factors are provoking and inspiring us in a new research process for the first spectacle of ArteJornadaHumana, but this is subject for a new post …

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