Jeritan Ibu Pertiwi – Parte 1

Quais são os planos?

por Janine de Campos
(English version below)

Quando fomos aprovados para a bolsa de estudos na Indonésia, inicialmente pensei que deveríamos chegar, viver, experimentar e nos deixar guiar pelos acontecimentos para então sabermos qual seria o resultado de todos os aprendizados. Vim pensando que iríamos aprender as novas artes como se degusta um bom livro: vamos ler e no final entenderemos como ele nos toca e quais serão as consequências. Porém, somos artistas agitados e sensíveis ao entorno, então os estímulos de uma vida em uma sociedade tão complexa e distante da nossa realidade e o tempo livre entre os estudos, nos trouxe o anseio imediato de criar algo concreto e inspirado na nossa experiência em Sumatra: um espetáculo teatral sobre a mulher na cultura Minangkabau.

DSC_1722A menina…

Me lembro que ainda no Brasil, já conversávamos sobre assuntos que gostaríamos de abordar em um futuro espetáculo, mas o papo sempre era de realizar o processo de criação no retorno ao nosso país. Antes mesmo de chegar em Padangpanjang sabíamos que iríamos morar no meio de 2 grandes vulcões (1 ainda em atividade) e que essa situação, de viver em um local com a possibilidade de uma erupção vulcânica, nos mostrava que a vida poderia acabar em um segundo, e sem culpados da tragédia. Era um risco que estávamos dispostos a correr, e que o povo daqui corre todos os dias. Então, já tínhamos a ideia de uma história sobre uma menina que morava no meio de 2 vulcões e… bom, só isso já seria um bom começo para a criação.

Jpeg… e os vulcões (Singgalang e Marapi).

Chegamos aqui. Conhecemos de longe os 2 vulcões (em suas raras aparições por entre as nuvens da chuvosa Padangpanjang) e aos poucos fomos conhecendo o povo que mora no meio deles. Tivemos contato com as artes que iríamos aprender, assistimos algumas apresentações, visitamos um vilarejo que preserva as raízes da cultura Minangkabau, mas tudo ainda parecia de certa maneira superficial, não porque não estávamos indo fundo o bastante, mas principalmente devido ao problema de comunicação, afinal, a maioria não fala inglês e nosso minang (dialeto local) e indonésio (idioma nacional) estavam no básico do básico. Essa é um dos primeiras dificuldades de trabalhar com interculturalismo: a comunicação. Foi um dos nossos maiores problemas, sem dúvida, e nos levou para bem longe da nossa zona de conforto como humanos e como artistas.

DSC_9197Tocando com o povo da vila tradicional de Jawi-Jawi.

Com a dificuldade de entender na prática a cultura e a história local, decidi procurar nos livros a teoria do que estávamos experienciando. Fui na biblioteca da Universidade e achei um dos únicos livros em inglês que conta a história do povo Minangkabau (Journey to the Land of the Earth Goddess – Katherine Stenger Frey). Esse era um daqueles livros que não podem ser levados para a casa, só consulta local, então fiquei 3 meses indo quase todos os dias até a biblioteca para esse “encontro”. Como o inglês não é minha língua nativa, no começo demorava horas para compreender uma página, mas com o tempo, meu cérebro começou a trabalhar no modo trilíngue e a prática diária deixou mais rápida a compreensão.

Falando em prática, gostaria de fazer um parênteses para escrever sobre um grande aprendizado que já vinha tendo antes de vir para cá, mas acho que aqui ficou mais evidente: você consegue fazer muita coisa que você nem imaginaria se você dedicar tempo e trabalho diário. Digo isso porque aqui aprendi a tocar 2 instrumentos que, à primeira vista, pareciam impossíveis, mas que com treino diário, me fez me tornar a nova percussionista do ArteJornadaHumana (para alegria e orgulho do Mateus). O próprio Mateus, que se considerava apenas músico, aprendeu e evoluiu muito na aula de Silat (ou Silek, arte marcial Minangkabau). O trabalho de artista foi completo uma vez que eu tive que trabalhar o meu desconforto nos instrumentos musicais e o Mateus teve que trabalhar o desconforto dele no trabalho corporal. Cada vez mais tenho a certeza de que um artista pode e deve ser envolto em todas as artes possíveis e que dissociá-las é sempre uma perda.

JpegBiblioteca do Institut Seni Indonesia Padangpanjang.

Bom, terminei o livro da biblioteca e pela internet comprei mais 2 que poderiam colaborar com a nossa pesquisa: um sobre o povo Minangkabau, mais especificamente sobre o sistema social matriarcal que me interessava muito (Unexpected Matriarchs Book 2 – Simon Bird & Katerina Karaskova) e outro que trazia na teoria as artes cênicas que estávamos estudando mais a fundo (Theater & Martial Arts in West Sumatra – Randai & Silek of the Minangkabau – Kirstin Pauka), esse, como veio do Amazon chegou bem depois que havíamos iniciado o processo de criação, e pasmem, muito do que estávamos trabalhando estava diretamente relacionado ao que o livro trazia de informação (essa é a magia do teatro, que sempre nos surpreende). Assim como no Kathakali, os gurus não trazem muito da teoria, tudo que aprendemos é na prática. Tenho certeza que isso é proposital para o melhor aprendizado, mas como nosso tempo com os mestres era pouco para conhecer as grandiosidades das artes, os livros ajudaram a abrir os caminhos para um aprendizado mais aprofundado.

Não lembro exatamente, mas acho que estava na metade do livro sobre o matriarcado quando, num sábado a tarde, sem nenhuma tarefa específica para fazer, me deu a vontade de escrever uma base para a dramaturgia. Sentei na minha cama, peguei meu caderno e comecei a escrever… foi uma coisa muito louca (de novo a magia do teatro aparecendo), fui escrevendo cena por cena sem pensar, sem racionalizar, quase sem respirar. As imagens estavam bem claras na minha mente e simplesmente vieram quase como uma psicografia, muito provavelmente porque aquilo já estava fervendo dentro de mim conforme ia adentrando mais profundamente essas novas terras, essa nova sociedade e cada vez mais senti a necessidade de criar um espetáculo aqui, nesse lugar, e apresentá-lo para eles, os donos da terra, o povo Minangkabau. Um dia depois, fui com o Mateus comprar o almoço que ele mais gosta (frango frito), pegamos uma chuva e comemos embaixo da marquise da casa dele (meninas não podem entrar na casa dos meninos e vice-versa). Entre um pedaço e outro, gritando para vencer o barulho da chuva e com as mãos cheias de gordura fui contando para o Mateus o aqui havia escrito no dia anterior. Falei: “- é só um começo… uma base para a gente começar…” e a resposta dele foi: “- é isso”.

Screenshot_20190519-193444_GalleryCanovaccio do espetáculo Jeritan Ibu Pertiwi.

Ok, então era isso. Iríamos começar a nossa jornada de criar um espetáculo teatral no outro lado do mundo. Se em Curitiba, com nosso antigo grupo que tinha uma casa, uma diretora, um cenógrafo, um iluminador, patrocinadores, ou seja, estrutura, já é muito difícil criar um espetáculo teatral imagine na nossa nova situação, totalmente fora da nossa zona de conforto, sozinhos, só eu e o Mateus, uma atriz e um músico, sem estrutura nenhuma, sem dinheiro para investir e com enormes dificuldades na comunicação para tentar pedir qualquer tipo de ajuda. O que tínhamos era a vontade de fazer e o amor pela arte que nunca nos faz desistir.

Um dos grandes aprendizados de nossas viagens é não criar expectativas, e aqui, como ninguém conhecia nossos trabalhos anteriores, nem nossas personalidades, pudemos abandonar algumas crenças vindas do passado e nos sentir realmente livres e abertos para receber a obra do jeito que ela viria, sem pensar muito no resultado final, mas aproveitando a vivência do processo. Assim, começamos a nossa jornada prática da criação, com uma história no papel, um monte de visões na mente, com tempo para dedicar, muita vontade de criar, amor para doar à essa criação e principalmente: sem grandes expectativas para o resultado.
(Continua no próximo post)

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Jeritan Ibu Pertiwi – Part 1

What are the plans?

by Janine de Campos

When we were approved for the scholarship in Indonesia, I initially thought we should come, live, experience and let ourselves be guided by what happens so we know what the outcome of all learning will be. I came thinking that we would learn the new arts as if tasting a good book: let’s read and in the end we will understand how it touches us and what the consequences will be. However, we are agitated and sensitive artists to the surroundings, so the stimuli of a life in a society so complex and distant from our reality and free time between studies, brought us the immediate desire to create something concrete and inspired by our experience in Sumatra : a theater play about women in the Minangkabau culture.

I remember that even in Brazil, we talked about issues that we would like to address in a future theater play, but the talk was always to carry out the creation process when we return to our country. Before we even arrived in Padangpanjang we knew that we would live between 2 big volcanoes (1 still active) and that this situation, of living in a place with the possibility of a volcanic eruption, showed us that life could end in a second, without one to guilt for the tragedy. It was a risk we were willing to take, and the people here take it every day. So we already had the idea of ??a story about a girl who lived in the middle of 2 volcanoes and … well, that alone would be a good start for creation.

We got here. We meet from a distance the 2 volcanoes (in their rare appearances through the clouds of the rainy Padangpanjang) and gradually we got to know the people who live between them. We had contact with the arts that we were going to learn, we watched some presentations, we visited a village that preserves the roots of the Minangkabau culture, but everything still seemed somewhat superficial, not because we were not going deep enough but mainly because of the communication problem, after all, most do not speak English and our minang (local dialect) and Indonesian (national language) were in the most basic level. This is one of the first difficulties of working with interculturalism: communication. It was one of our biggest problems, no doubt, and it took us quite far from our comfort zone as humans and as artists.

With the difficulty of understanding the local culture and history in practice, I decided to search the books for the theory of what we were experiencing. I went to the University Library and found one of the only books in English that tells the story of the Minangkabau people (Journey to the Land of the Earth Goddess – Katherine Stenger Frey). This was one of those books that can not be taken home, just for local researchn, so I spent 3 months going almost every day to the library for that “meeting”. Because English is not my native language, it took hours to understand a page in the beginning, but over time my brain started working in trilingual mode, and daily practice made comprehension quicker.

Speaking of practice, I would like to make a parenthesis to write about a great learning that I already had before coming here, but I think it became more evident here: you can do a lot that you would not even know if you dedicate time and daily work. I say this because I learned to play 2 instruments that, at first glance, seemed impossible, but with daily training, made me become the new percussionist of ArteJornadaHumana (for Mateus’s joy and pride). Mateus himself, who considered himself only a musician, learned and evolved greatly in the class of Silat (or Silek, Minangkabau´s martial art). The artist’s work was complete since I had to work out my discomfort on musical instruments and Mateus had to work out his discomfort in body work. I am sure that an artist can and should be involved in all possible arts and that dissociating them is always a loss.

Well, I finished the book from the library and bought 2 more that could contribute to our research: one about the Minangkabau people, more specifically about the matriarchal social system that interested me a lot (Unexpected Matriarchs Book 2 – Simon Bird & Katerina Karaskova) and another that brought in the theory of the performing arts that we were studying more deeply (Theater & Martial Arts in West Sumatra – Randai & Silek of the Minangkabau – Kirstin Pauka), that came from the Amazon Online Store, so it arrived well after we had begun the process of creation, and wonder, much of what we were working was directly related to what the book brought with it (this is the theater magic, which always surprises us). Just as in Kathakali, gurus do not bring much of theory, all we learn is in practice. I am sure that this is purposeful for the best learning, but as our time with the masters was little to know the full greatness of the arts, the books helped to open the way for a deeper learning.

I do not remember exactly, but I think I was in the middle of the book about matriarchy when, on a Saturday afternoon, with no specific task to do, it gave me the will to write a basis for dramaturgy. I sat on my bed, picked up my notebook and began to write … it was a very crazy thing (again the magic of the theater appearing), I wrote scene by scene without thinking, without rationalizing, almost without breathing. The images were very clear in my mind and they simply came almost like a psychograph, most probably because it was already boiling inside me as I went deeper into these new lands, this new society and I felt more and more the need to create a theater play in here, in this place, and present it to them, the owners of the land, the people Minangkabau. A day later, I went with Mateus to buy the lunch he likes (fried chicken), we caught a rain and ate under the porch of his house (girls can not enter the boys house and vice versa). Between one piece and another, shouting to beat the noise of the rain and with the hands full of fat I was telling Mateus the lines I had written the day before. I said, “It’s just a start … a basis for us to start …” and his response was, “That’s it.”

Okay, so that was it. We would begin our journey of creating a theater play on the other side of the world. If in Curitiba, with our old group that had a house, a director, a scenario designer, a light designer, sponsors, well… structure, it is already very difficult to create theater, imagine our new situation, totally outside of our comfort zone, alone, me and Mateus, an actress and a musician, with no structure whatsoever, no money to invest and enormous communication difficulties to try to ask for any help. What we had was the will to do and the love for art that makes us never give up.

One of the great lessons of our travels is not to create expectations, and here, as no one knew about our previous works or our personalities, we were able to abandon some beliefs from the past and feel really free and open to receive the play the way it would come, without thinking much about the final result, but taking advantage of the experience of the process. Thus, we begin our practical journey of creation, with a story on paper, a lot of visions in the mind, with time to dedicate, a lot of desire to create, love to give to this creation and especially: without high expectations for the result.

(To be continued)