Jeritan Ibu Pertiwi – Parte 4

Nos palcos do Oriente

por Mateus Ferrari

(English version below)

Um palco é um palco. Não importa o país, a cor, o material do piso, a estrutura, etc. Um palco é um palco nos enormes teatros da Broadway e nas pequenas vilas da Índia. O palco é o templo. É o meio de transporte para novas realidades, um portal para novos universos. Felizes e honrados são aqueles que fazem por merecer mostrar sua arte no palco.

Padang, 29 de março de 2019

Estávamos trabalhando no espetáculo há mais de 4 meses quando Yusril Katil foi convidado para participar do Festival de teatro da Universitas Negeri, em Padang, capital da província de Sumatra Ocidental. Entre diversos espetáculos que ele dirigiu, ele nos convidou para participar. Como citamos nos posts anteriores, o espetáculo ainda não estava pronto e seria apresentado como um work-in-progress. Nas 2 semanas entre o convite e a data de apresentação, focamos no trabalho de acabamento das cenas e adequação da dramaturgia para esta “versão reduzida” do nosso espetáculo.

29032019-DSC_1775Cena de Jeritan Ibu Pertiwi em Padang.

Chegou o dia da apresentação. Fomos logo cedo para Padang e logo começamos a montagem. O combinado seria que nossa equipe de alunos cuidaria do cenário e da luz e nós, músico e atriz, só participaríamos da passagem de som. Minha experiência em eventos anteriores aqui na Indonésia não me deixou acreditar nesse processo. Logo no começo da montagem, problemas. Nosso cenário eram somente 5 tecidos que iam do chão ao teto, intercalados (3 à frente, 2 no fundo), mas aqui não há planejamento nem conferência de plantas cênicas e a equipe começou a pendurar os tecidos de maneira completamente aleatória, sem medição. Como eu havia imaginado, tive de coordenar a montagem. Uma conversa de 5 minutos durante uma pausa para o cigarro (80% das pessoas fumam por aqui), medições improvisadas, 2 ou 3 desenhos básicos num papel e todos entenderam como proceder com o trabalho. 5 minutos que economizaram uma hora de trabalho, com todo mundo sabendo o que fazer e como fazer.

Na Indonésia, a iluminação cênica não é uma arte levada muito a sério, um bom exemplo é que nenhum iluminador grava as cenas aqui, é tudo na mão e na maioria das vezes improvisado na hora, com exceção dos grandes grupos artísticos de Jacarta e das produções internacionais que passam por aqui, que trazem seus técnicos e equipamentos. Durante o processo, todas as vezes em que discutíamos sobre a luz a resposta era confusa e indefinida (em um próximo post podemos falar sobre essa característica do povo indonésio). Então já havíamos nos preparado para trabalhar com luz geral e blackouts. Risky, nosso amigo da luz, coordenou a montagem e afinação dos refletores na estrutura do teto do local.

29032019-DSC_1804Cena de dança, com luz do nosso amigo Risky.

Partimos para a montagem da projeção. O combinado com a produção local era montar o projetor em um local alto, para as imagens não atingirem de maneira frontal a Janine no palco. Haviam nos garantido um cabo longo para fazermos isso, mas o tal cabo não existia, o que nos obrigou a montar o projetor na frente do palco e que me forçou a refazer a edição dos vídeos na hora, um desespero total. Ainda não entendi direito como, mas consegui alterar todos os vídeos e adequar para o espaço.

A montagem e passagem do som foi surpreendentemente tranquila e sem muitos percalços, embora atrasada e com boa parte do público já presente… Estávamos prontos. A caótica montagem estava finalizada e no passado. A hora era da arte. Da nossa arte. Do Grito da Mãe Terra (Jeritan Ibu Pertiwi).

29032019-DSC_1830Cena com os tradicionais bonecos Wayang.

A experiência e a vontade de mostrar nosso trabalho nos possibilitou transformar todo o estresse e correira da montagem em energia durante nossa apresentação. O espetáculo começa com uma cena de fuga, a parte mais difícil tecnicamente na música e na coreografia. A gente entrou com tudo, lembro de olhar para a Janine durante a cena (o que eu não conseguia fazer nos ensaios devido à velocidade e complexidade da música que eu criei nos talempongs) e pensar como ela estava linda e precisa nos movimentos. Coisas do palco. Eu sempre tentei usar uma abordagem de ator no meu trabalho de músico no teatro, ou seja, o Mateus do palco faz coisas que o Mateus do dia-a-dia não consegue. O público respondeu bem, os olhos inquietos demonstravam surpresa com a cultura Minangkabau sendo apresentada de maneira totalmente diferente da qual estão acostumados, por dois estrangeiros malucos experimentando com suas melodias, danças e tradições. No final, após aplausos entusiasmados, fizemos um bate-papo para compartilhar um pouco da experiência.

Nosso amigo Rudy fez uma crítica da apresentação para um site local, está em inglês e você pode conferir neste link. 

Alguns meses depois, em uma conversa com os artistas indonésios que colaboraram conosco, eles nos contaram que algumas pessoas ficaram um pouco chocadas com os temas abordados na peça (estupro familiar, casamento arranjado, papel da mulher na sociedade). Adoramos a notícia. Normalmente quem se incomoda com artistas abordando estes assuntos são os que colaboram com a perpetuação destas injustiças. Que se incomodem! Temos orgulho de ter tido a coragem de tocar nesses assuntos, numa sociedade muçulmana conservadora, de maneira poética e artística, inspirada na realidade e nos depoimentos de meninas e mulheres que sofrem com estes absurdos.

29032019-DSC_1887“Você tem mãe? Ela morreu? A minha também. Posso te contar um segredo? Deus não pode estar em todos os lugares, por isso ele criou as mães. Eu vou fugir e ninguém vai me encontrar. Não vou me casar com um homem que não quero. Vou subir lá, no topo do vulcão e quando chegar eu vou ser a Deusa da Dança, minha Bundo Kanduang! Você também tem de casar com alguém que não conhece? Não precisa ficar com medo. Você está seguro, te prometo. Ninguém vai te machucar, tá? Ninguém vai te machucar!”

Padang Panjang, 3 de maio de 2019

Após a apresentação em Padang, retornamos aos ensaios para terminar o espetáculo para a estreia na nossa casa, o Institut Seni Indonesia, em Padang Panjang. Havíamos nos comprometido em não exagerar nas projeções e traquitanas tecnológicas para as novas cenas, até pela experiência caótica na montagem em Padang, mas não conseguimos segurar e de repente tínhamos uma luta com sombra (projeção mapeada) e quase 50 transições de vídeo, para desespero da nossa querida amiga Polina, que além de criar as ilustrações também operava as projeções.

DSC_7310-01Cena de Jeritan Ibu Pertiwi no Institut Seni Indonesia, Padang Panjang.

A agenda original era realizar a apresentação no dia 29 de abril, junto com a cerimônia de encerramento das aulas dos estudantes estrangeiros na universidade. Na manhã deste dia, recebemos a notícia de que os estudantes estavam em greve e fecharam todos os espaços do Campus, protestando contra o reitor e sua decisão de concorrer a um cargo em outra universidade, enquanto o trabalho realizado no ISI Padang Panjang era completamente questionável. Nossa reação inicial foi de choque e decepção, mas após uma reunião com o comitê da greve, entendemos as reinvindicações e manifestamos nosso total apoio ao movimento. Intencionalmente ou não, a escolha da data de início da greve no dia da nossa apresentação (que de certa maneira atriu mais atenção para da mídia local para o ISI, era a peça de teatro dos estrangeiros) foi uma grande sacada.

DSC_7376-01Cena de luta com projeção mapeada.

A semana foi de indefinições e somente no dia 2 de maio à noite, conseguimos reagendar nossa apresentação para o dia seguinte. Haveria também um concerto da orquestra da universidade e uma exposição dos trabalhos dos nossos colegas de bolsa, estudantes estrangeiros de artes plásticas.

DSC_7354O gato, que compartilha da dor e da jornada da personagem Dorva.

Já estávamos mais afinados como equipe de produção e estávamos em casa, o que tornou a montagem bem mais tranquila que a anterior. Montamos e testamos tudo pela manhã. Nosso desafio seria desmontar uma orquestra inteira e trocar o cenário para o nosso espetáculo em 10 minutos. Eu estava desacreditado, mas aconteceu. Obrigado Deuses e Deusas do teatro!

DSC_7337Cena de estupro do espetáculo Jeritan Ibu Pertiwi.

Apagam se as luzes, os apresentadores anunciam ao público “Selamat Menyaksikan!” (algo como “boa apresentação”) e abrem-se as cortinas. No enorme palco do teatro lá estávamos nós novamente, entregando nosso suor e alma para contar uma história, a história de uma e de todas as mulheres, para fazer uma declaração de amor à cultura Minangkabau e um manifesto contra o atraso e o preconceito de gênero da Indonésia, para inspirar, questionar, fazer refletir e acima de tudo para existirmos.

DSC_7345-01“Descobri que tudo aqui é efêmero e pode acabar no próximo minuto, como a erupção de um vulcão, como o Grito da Mãe Terra. Eleve-se, povo Minangkabau! Elevem-se, mulheres da Terra! Não há limites para um coração preenchido de sonhos, amor e paixão pela vida. Eu consegui, eu consegui! Eu sou Dorva, eu sou Bundo Kanduang, sou você, sou ela, sou mulher! Então dance! Aqueles vistos dançando foram considerados insanos pelos que não ouviam a música! Dance! Dance!

Esperamos que tenham gostado desta série sobre o nosso espetáculo, como narramos por aqui foi um processo complexo e cheio de desafios, mas que certamente nos enche de orgulho e felicidade. Nós fizemos um espetáculo de teatro no oriente, sobre o oriente, para os orientais e isso não é nada fácil. Esse tipo de experiência nos enriquece muito artisticamente, como profissionais mas acima de tudo como humanos. Aos amigos artistas que embarcaram na jornada conosco aqui na Indonésia, não há palavras para agradecer a parceria de vocês. Obrigado por acreditar em nós, no nosso trabalho, na nossa arte. Obrigado por conseguir separar as acaloradas discussões durante todo o processo da nossa, agora eterna, amizade. Como disse a vocês, não ousem reservar hotel quando forem ao Brasil. Vocês são de casa.

Tarimo Kasih!

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Jeritan Ibu Pertiwi – Part 4

On the stages of the East

by Mateus Ferrari

A stage is a stage. No matter the country, the color, the material of the floor, the structure, etc. A stage is a stage in the huge Broadway theaters and in the small villages of India. The stage is the temple. It is the road to new realities, a portal to new universes. Happy and honored are those who deserve to show their art on stage.

Padang, March 29, 2019

We were working on the theater play for more than 4 months when Yusril Katil was invited to attend the Universitas Negeri Theater Festival in Padang, capital of West Sumatra province. Amongst various performances he directed, he invited us to participate. As we mentioned in previous posts, the performance was not yet ready and would be presented as a work-in-progress. In the 2 weeks between the invitation and the date of presentation, we focused on the details of the scenes and the suitability of the dramaturgy for this “reduced version” of our play.

The day of the presentation has arrived. We left early for Padang and soon we began the assembly. The plan was that our team of students would take care of the scenery and the light and we, musician and actress, would only participate in the sound testing. My experience in previous events here in Indonesia has not let me believe in this process. Right at the beginning of the assembly, problems. Our scenario was only 5 fabrics that went from floor to ceiling, interspersed (3 front, 2 back), but here there is no planning or scenic blueprints and the team began to hang the fabrics completely randomly without measurement. As I had imagined, I had to coordinate the assembly. A 5-minute conversation during a cigarette break (80% of people smoke around here), improvised measurements, 2 or 3 basic drawings on paper, and everyone understood how to proceed with the job. 5 minutes that saved an hour of work, with everyone knowing what to do and how to do it.

In Indonesia, stage lighting is not an art taken very seriously, a good example is that no illuminator pre-records the scenes here, it’s all done by hand and most of the time improvised, with the exception of the large artistic groups in Jakarta or international productions that come here, that bring their technicians and equipment. During the process, every time we discussed the light the answer was confused and indefinite (in a next post we can talk about this characteristic of the Indonesian people). So we had already prepared ourselves to work with general light and blackouts. Risky, our friend of light, coordinated the mounting and tuning of reflectors on the site ceiling structure.

We continue to set up the projection. The agreement with the local production was to mount the projector in a high place, so that the images did not reach Janine frontally on the stage. They promise a long cable to do this, but the cable did not exist, which forced us to mount the projector in front of the stage and forced me to redo all the editing of the videos, a total despair. I still do not understand how, but I managed to change all the videos and fit them for the space.

The sound testing was surprisingly organized and without many mishaps, although late and with much of the audience already present… We were ready. The chaotic assembly was over and done in the past. The time was for art. For our art. For the Scream of Mother Earth (Jeritan Ibu Pertiwi).

The experience and willingness to show our work enabled us to transform all the stress of the assembly into energy during our presentation. The show begins with an escape scene, the most technically difficult part in music and choreography. We came on fire, I remember that I looked at Janine during the scene (which I could not do in rehearsals due to the speed and complexity of the music I created in the talempongs) and think how beautiful and precise she was in the movements. Miracles of the stage. I have always tried to use an actor approach in my work as a musician in the theater, that is, the stage Mateus does things that the dailly Mateus can not. The public responded well, their restless eyes showing surprise at the Minangkabau culture being presented in a totally different way than they are used to see, by two crazy foreigners experimenting with their melodies, dances and traditions. In the end, after enthusiastic applause, we chatted to share some of the experience.

Our friend Rudy made a review of the presentation for a local site, you can check here.

A few months later, in a conversation with the Indonesian artists who collaborated with us, they told us that some people were a bit shocked by the themes covered in the play (family rape, arranged marriage, the role of women in society). We loved the news. Usually those who bother with artists addressing these issues are those who collaborate in the perpetuation of these injustices. Let them bother! We are proud to have had the courage to talk about these subjects, in a conservative Muslim society, in a poetic and artistic way, inspired by the reality and testimonies of girls and women who suffer from these absurdities.

“You have a mother? She died? Mine too. Can I tell you a secret? God can not be everywhere, so he invented the mothers. I’ll run away, no one will find me. I’m not going to marry some man I do not want! I will climb up there, on top of the volcano and when I get there I will became the God of Dance, my Bundo Kanduang! Do you also have to marry someone you do not know? No, you do not need to be scared! Now you are safe, I promise you, nobody will hurt you, ok? Nobody will hurt you!”

Padang Panjang, May 3, 2019

After the presentation in Padang, we returned to rehearsals to finish the play for the premiere at our home, the Institut Seni Indonesia in Padang Panjang. We had committed ourselves not to exaggerate the projections and technological trachymatics for the new scenes, even by the chaotic experience in the assembly in Padang, but we could not hold back and suddenly we had a fight with shadow (mapped projection) and almost 50 video transitions, to despair of our dear friend Polina, who besides creating the illustrations also operated the projections.

The original schedule was to hold the presentation on April 29, together with the closing ceremony of the foreign students classes at the university. On the morning of this day we received the information that the students were on strike and closed all Campus spaces protesting against the rector and his decision to run for office at another university while the work at ISI Padang Panjang was completely questionable. Our initial reaction was one of shock and disappointment, but after a meeting with the strike committee, we understood the claims and expressed our full support for the movement. Intentionally or not, the choice of the start date of the strike on the day of our presentation (which in some ways attracted more attention from the local media for the ISI, because it was the theater play of the foreigners) was a great idea.

The week was blurry and only on May 2 at night, we were able to reschedule our presentation for the next day. There would also be a concert by the university orchestra and an exhibition of the work of our fellow scholarship friends, foreign students of the fine arts.

We were already more attuned as a production team and we were at home, which made the assembly much easier than the previous one. We set up and tested everything in the morning. Our challenge would be to dismantle an entire orchestra and change the scenery to our show in 10 minutes. I was disheveled, but it happened. Thank you Gods and Goddesses of the theater!

Lights off, the presenters announced to the public “Selamat Menyaksikan!” (something like “have a good time watching”) and the curtains were opened. In the huge stage of the theater, there we were again, surrendering our sweat and soul to tell a story, the story of one and all women, to make a declaration of love to the Minangkabau culture and a manifesto against the backwardness and gender prejudice of Indonesia, to inspire, question, make reflect and above all to exist.

“I have found that everything here is ephemeral and may end in the next minute, like the eruption of a volcano, like the Scream of Mother Earth. I’m Dorva, I’m Bundo Kanduang, I’m you, I’m her, I’m a woman! So dance!” Those who were seen dancing were considered insane by those who did not listen to the music! Dance! Dance!

We hope you have enjoyed this series about our show, as we have narrated here was a complex and challenging process, but it certainly fills us with pride and happiness. We did a theater show in the east, about the east, for the eastern people and this is not easy. This kind of experience enriches us very much artistically, as professionals but above all as humans. To the artist friends who embarked on the journey with us here in Indonesia, there are no words to thank for your partnership. Thank you for believing in us, in our work, in our art. Thank you for separating the heated discussions throughout the process of our, now eternal, friendship. As I said to you, do not dare book a hotel when you go to Brazil. You’re home.

Tarimo Kasih!

Jeritan Ibu Pertiwi – Parte 3

Mais e mais artistas

por Mateus Ferrari
(English version below)

Passado o choque cultural e artístico do início do nosso processo colaborativo, estávamos com o espetáculo caminhando para um resultado interessante, que representava bem a mistura de culturas, técnicas e artistas envolvidos no processo. Conforme relatado no post anterior, havíamos aceitado a ideia de construir a peça para um palco grande. Surgiu daí a necessidade de pensar em uma forma de preencher este palco e “vesti-lo” com as características visuais da cultura Minangkabau. A intenção era ser o mais minimalista possível, pois tínhamos a possibilidade de viajar para algumas cidades da Indonésia (o que acabou não acontecendo por motivos políticos e burocráticos) e queríamos economizar o máximo no tamanho do cenário e adereços para viabilizar esta possível turnê.

Ativo 1-100Conceito para o cenário do espetáculo…

Em uma das cenas a personagem luta contra uma sombra criada através de uma projeção mapeada, ou seja, teríamos um projetor no espetáculo. A partir disso, decidimos utilizar algumas ilustrações como fundo nas cenas. A decisão na escolha do artista visual foi fácil: nossa amiga e grande artista russa Polina Buchenkova. Polina é nossa colega de bolsa aqui em Padangpanjang, ela escolheu estudar as artes visuais enquanto nós optamos pelas artes performáticas. Como somos do “bonde da cervejinha” entre os alunos, a conversa foi fácil e direta: – Precisamos de uns desenhos para o cenário do espetáculo, não temos dinheiro, estamos fazendo esta produção na raça e somos fãs da sua arte, topa participar? Com seu senso de humor único e o característico sotaque russo ela respondeu: “Yes, I don´t have nothing better to do, you know…”.

DSC_7306… cena do espetáculo, com cenário e projeção.

Era mais uma grande artista embarcando no nosso processo. Eu fico pensando o que a gente tem que faz as pessoas acreditarem nas nossa ideias malucas, deve ser o jeito expansivo e zoeiro do brasileiro, só pode. Procurei passar as direções e conceitos das ilustrações para a Polina e deixá-la com a maior liberdade possível para que a criatividade e talento dela florescessem. Além das ilustrações, Polina também seria a responsável pela operação das projeções nas apresentações em conjunto com outro grande amigo: o indonésio Willy Andika, que por ser um grande músico iria auxiliá-la nas deixas de troca de projeções que eram precisas com a música. Cabe aqui também agradecer ao Willy por me emprestar o teclado Midi que usei na gravação das músicas do espetáculo. Salvou minha vida!

4 - WaveDesenho de Polina Buchenkova para o espetáculo.

Conforme citado anteriormente, precisávamos também de um artista para a cena de luta. Outra escolha simples: nosso amigo James Tiana, de Madagascar – África. Nas aulas de Silat ele sempre foi, de longe, o melhor entre nós, com uma facilidade incrível em memorizar e reproduzir com precisão as inúmeras sequências de ataques, defesas e transições características desta complexa arte marcial. Agendamos então uma tarde no teatro para gravar a cena. O plano inicial era utilizar um pano branco com uma luz no fundo para gravar a sombra do lutador. Mas aqui tudo é difícil e não havia nem pano nem refletores disponíveis, teríamos que escrever uma carta para o reitor e esperar e blá-blá-blá. Partimos então para o plano B, conseguimos um projetor emprestado e decidimos gravar de frente, projetando uma luz branca no ciclorama do teatro. Isso dificultou muito a minha edição do material, mas foi possível chegar a um bom resultado. No dia da gravação, nosso tempo no teatro foi reduzido de 4 horas para 1 hora, pois haveria outra gravação (agendada mesmo sabendo-se que gravaríamos durante a tarde toda) e a preferência é sempre dos alunos locais. Precisávamos do palco totalmente escuro e pasmem, para desligar a luz demorou meia-hora até encontrarem o técnico que sabia onde apagar as luzes. Quando finalmente estávamos prontos para gravar, tínhamos 30 minutos.

DSC_2005James Tiana gravando cenas de luta para o espetáculo.

A gravação foi apressada e intensa, o que fez nosso amigo James passar mal devido ao calor e a falta de descanso entre os takes. Mas o espírito de luta dos africanos o fez ir adiante e conseguimos o take perfeito. James, poucos tem a sua energia e companheirismo. Dedicar-se com tudo a um projeto que não é seu não é para todo mundo. Obrigado Amigo.

IMG_20190526_205606_212James, Janine, Mateus, Polina e Willy curtindo o descanso após as apresentações.

Para fechar a apresentação da equipe, temos os alunos do curso de teatro. Todos muito jovens (entre 18 e 21 anos) cheios de energia e prontidão para nos ajudar. Durante o processo nos ajudavam com a montagem do palco para os ensaios e também com adereços e figurinos. Eles trabalham muito duro, porém é nítido que o curso de teatro não oferece um conteúdo aprofundado relacionado à produção, até pela maneira como as apresentações artísticas são realizadas na Indonésia. Aqui não se gasta tempo planejando, decide-se e faz-se tudo na hora, o que obviamente traz uma série de problemas, que não incomodam o povo local, mas que para nós interferem na qualidade da produção e consequentemente da apresentação. Pouco a pouco conseguimos estabelecer alguns parâmetros para a organização do trabalho e passamos para eles nossa experiência no planejamento e execução de produções teatrais. Foi nítida a evolução do trabalho deles e esperamos que os conhecimentos que compartilhamos possam auxiliá-los em seus próximos projetos.

Nosso muito obrigado para Yeni Wahyuni (direção de palco), Junari Adi Saputra (cenotécnico), Muhammad Haikal (adereços), Rahmi Lestari (adereços), Risky Fahclevi (iluminação), Rahma Dona (maquiagem e figurinos), Aulia Firm Gusra (som), Tiara Larassati (equipamentos) e aos outros alunos que colaboraram conosco durante o processo.

DSC_1891Equipe no palco após apresentação em Padang.

Para finalizar, ainda falando sobre os alunos de teatro, me orgulhou muito ver a forma como eles organizaram e lideraram os protestos contra o reitor da universidade, buscando na garganta soluções para os diversos problemas da instituição. Pelo contrato da bolsa de estudos, nós não podemos participar de manifestações e atividades políticas, mas disfarçadamente consegui demonstrar meu apoio à causa e aos alunos nos dias de manifestações. Espero realmente que as coisas melhorem e que os alunos tenham melhores condições de estudo aqui no ISI Padangpanjang.

No próximo e último capítulo desta série, vamos falar sobre as apresentações do espetáculo no Festival de Teatro de Padang e no campus do Institut Seni Indonesia Padangpanjang.

(Continua no próximo post).

Jeritan Ibu Pertiwi – Part 3

More and more artists

by Mateus Ferrari

After the cultural and artistic shock of the beginning of our collaborative process, the theater play was moving towards an interesting result, which represented well the mixture of cultures, techniques and artists involved in the process. As reported in the previous post, we had accepted the idea of building the play for a big stage. There arose the need to think of a way to fill this stage and “dress it” with the visual characteristics of the Minangkabau culture. The intention was to be as minimal as possible because we had the possibility to travel to some cities of Indonesia (which did not happen because of political and bureaucratic reasons) and we wanted to save the maximum on the size of the scenery and props to make this possible tour possible.

In one of the scenes the character fights against a shadow created through a mapped projection, that is, we would have a projector in the play. From that, we decided to use some illustrations as background in the scenes. The decision in choosing the visual artist was easy: our friend and great Russian artist Polina Buchenkova. Polina is our colleague here in Padangpanjang, she chose to study the visual arts while we opted for the performing arts. As we are in the “beer crew” among the students, the conversation was easy and straightforward: – We need some drawings for the scenery of the play, we do not have money, we are doing this production all by ourselves and we are fans of your art, do you want to join us? With her unique sense of humor and the characteristic Russian accent she replied, “Yes, I do not have anything better to do, you know …”.

She was another great artist embarking on our process. I keep thinking what we have that makes people believe in our crazy ideas, it must be the Brazilian’s expansive and funny way, I guess. I tried to brief the directions and concepts of the illustrations to Polina and leave her with as much freedom as possible for her creativity and talent to flourish. In addition to the illustrations, Polina would also be responsible for the operation of the projections in the performance along with another beloved friend: Willy Andika, who as a great musician would assist her in the changes of projections that were accurate with the music. It is also my pleasure to thank Willy for lending me the Midi keyboard I used to record the songs of the play. He saved my life!

As mentioned earlier, we also needed an artist for the fight scene. Another simple choice: our friend James Tiana from Madagascar. In Silat classes he has always been by far the best among us, with an incredible facility in memorizing and accurately reproducing the innumerable sequences of attacks, defenses and transitions characteristic of this complex martial art. We then scheduled an afternoon at the theater to record the scene. The initial plan was to use a white fabric with a light in the background to record the shadow of the fighter. But here everything is difficult and there was neither fabric nor reflectors available, we would have to write a letter to the dean and wait and blah blah blah. We then set out for Plan B, got a borrowed projector, and decided to record from the front, projecting a white light into the theater’s cyclorama. This made it very difficult for me to edit the material, but it was possible to achieve a good result. On the day of recording, our time in the theater was reduced from 4 hours to 1 hour, because there would be another recording (scheduled even though everybody knew that we would record all afternoon) and the preference is always of the local students. We needed the stage totally dark and it can seem a lie, but to turn off the light it took half an hour until they found the technician who knew where to turn off the lights. When we were finally ready to record, we had 30 minutes.

The recording was rushed and intense, which made our friend James go bad due to the heat and the lack of rest between takes. But the fighting spirit of the Africans made him go ahead and we got the perfect take. James, few people have your energy and companionship. Dedicating yourself to a project that is not yours is not for everyone. Thank you friend.

To close the presentation of the team, we have the students of the theater course. All very young (between 18 and 21 years old) full of energy and readiness to help us. During the process they helped us with the assembly of the stage for the rehearsals and also with props and costumes. They work very hard, but it is clear that the theater course does not offer in-depth content related to production, probably by the way the artistic presentations are held in Indonesia. Here time is not spent planning, everything is decided on time, obviously bringing a series of problems, which do not bother the local people, but for us interfere in the quality of the production and consequently the performance. Step by step we were able to establish some parameters for the organization of the work and we passed on to them our experience in the planning and execution of theatrical productions. The evolution of their work was clear and we hope that the knowledge we share can help them in their next projects.

Our thanks to Yeni Wahyuni (stage direction), Junari Adi Saputra (cenotechnician), Muhammad Haikal (props), Rahmi Lestari (props), Risky Fahclevi (lighting), Rahma Dona (makeup and costumes), Aulia Firm Gusra (sound), Tiara Larassati (equipment) and all the other students who collaborated with us during the process.

Finally, still talking about the students of theater, I was very proud to see how they organized and led the protests against the university rector, seeking with their voices solutions to the various problems of the institution. By the scholarship contract, we can not participate in demonstrations and political activities, but I covertly demonstrated my support for the cause and the students in the days of demonstrations. I really hope things get better and that students have better conditions of study here at ISI Padangpanjang.

In the next and last chapter of this series, we will talk about the performances of the play at the Padang Theater Festival and at the campus of the Institut Seni Indonesia Padangpanjang.

(To be continued)

Jeritan Ibu Pertiwi – Parte 2

Corrida de obstáculos

por Janine de Campos
(English version below)

Cada vez mais descobrimos que a vida é feita de escolhas. Parece uma frase de caminhão, mas a realidade é essa mesma. E quando você faz uma escolha quer dizer que você tem que abdicar de algo para obter outro algo. Nessa nossa escolha de embarcar num processo de criação teatral nós tivemos que deixar de viajar nas férias, de beber nossa cerveja no fim de semana, de comer as coisas mais caras (porque sabíamos que tínhamos que guardar o máximo de dinheiro para o que a obra pedisse), de dormir até tarde e de ter uma vida confortável. Sabíamos que a outra escolha era “mais prazerosa”, mas nós, artistas que somos, tínhamos sede de criar.

PP05-1Em um dos raros momentos em que tivemos uma sala para ensaiar, no começo do processo.

Além de não fazer parte do time dos “que tinham prazeres”, logo no começo já entendemos que teríamos  muitos obstáculos para enfrentar. Já ouvi muitas reclamações sobre o Brasil ser um país burocrático, onde tudo demora e temos que ter paciência. Vocês não tem ideia do que é a Indonésia. Enquanto na Índia um dos meus maiores aprendizados foi em relação ao tempo, aqui na Indonésia o meu maior aprendizado é sobre: PACIÊNCIA e como consequência, RESILIÊNCIA.

Nosso primeiro obstáculo foi encontrar um local para começar os ensaios. Nossa coordenadora nos informou que teríamos que fazer uma carta com o pedido de sala endereçada ao reitor da Universidade, que deveria assinar e então passar para o departamento de teatro, para então chegar a liberação no departamento internacional (que trata dos assuntos dos estrangeiros). Fizemos a carta em novembro, para conseguir uma sala que pudéssemos usar em dezembro e janeiro, durante as nossas férias. Enquanto não tínhamos resposta, resolvi tentar a sorte em alguns horários alternativos. Acordava cedo e assim que via uma sala de dança livre já tomava meu lugar, mas logo já chegava alguém informando que em 10 minutos iria começar a aula ou os alunos locais iriam utilizar para ensaio. Os horários das aulas eram confusos e não havia uma rotina lógica. Tive experiências com alunas de dança mais velhas que foram super arrogantes (o que comprova que esse tipo de pessoa, que trabalha com o ego inflado existe em todos os cantos do mundo, mesmo na Ásia).

PP05-2Janine ensaiando e no fundo a “gata porteira” assegurando-se que ninguém entrasse na nossa sala.

Foi assim, durante as férias inteiras. Pulando de sala em sala. Mas logo no começo as Deusas do teatro já começaram a “dar as caras”. No primeiro dia de ensaio estava sozinha na sala, com a porta aberta e uma gata entrou e ficou me observando. Quando terminei, sentei e ela se aproximou de mim, subiu no meu colo e ali ficou. Eu me emocionei pois no espetáculo a personagem conta seus problemas para uma gata que ela encontrou em seu caminho durante uma tempestade. Coincidentemente, ou como eu acredito, “destinamente”, eu e o Mateus salvamos 4 filhotes de gatos que estavam morrendo após uma forte tempestade no último dia de 2018. Passamos a virada do ano sozinhos na varanda da minha casa, eu, o Mateus e 4 filhotes de gatos que transformaram nosso ano novo com apenas 1 fogo de artifício numa diversão pura! Acredito realmente que as Deusas estavam do nosso lado.

Sabíamos que tínhamos a benção das Deusas, mas a burocracia não estava facilitando nossa vida, era clara a necessidade de aprender um pouco mais sobre paciência. Nossa coordenadora foi fazer um curso fora da cidade e ficou 2 meses sem aparecer, o que atrasou, e muito, nossa saga da sala. Só após a chegada dela, na metade de janeiro que a liberação foi autorizada e como ela sabia de nossos anseios e talvez até como um pedido de desculpas pela demora, o que ela nos deu de presente para o ensaio foi: o teatro. Lembro que ficamos muito felizes de ter um espaço em que poderíamos guardar as coisas e ainda poder ter a energia de um teatro para trabalhar. O teatro era grande e como queríamos fazer uma coisa mais intimista, não fomos direto para o palco, pois para nós, o palco é sagrado e só iríamos para lá quando tivéssemos o direito de pisar nele. Começamos a ensaiar num corredor com espelhos atrás do palco, o que facilitava a minha direção coreográfica. O melhor horário era bem cedo, pois nos dias de evento os estudantes poderiam chegar e atrapalhar o andamento.

PP05-4Testando adereços e figurinos Minagkabau.

Assim, todos os dias ao amanhecer estávamos lá, eu e o Mateus, inventando, criando, recriando, tentando entender como seria esse novo processo para a gente. Comecei criando uma base coreográfica de desenho de corpo (vindo dos ensinamentos do Eugenio Barba que tenho experienciado nos últimos anos) estimulado pelas visões e estados que a dramaturgia trazia (método do Théâtre du Soleil). O Mateus aos poucos, a cada dia, ia trazendo a música e a musicalidade da cena para a composição. Tínhamos um rascunho de 3 cenas quando nossa coordenadora chegou para assistir um ensaio e entender o que esses “bulês” obcecados estavam inventando. Ela assistiu só o final da terceira cena e resolver fazer uma ligação, dizendo para que esperássemos antes de mostrar o processo do começo. Nessa ligação ela convidou o diretor teatral Yusril Katil para assistir o trabalho pois achou que poderia interessá-lo.

PP05-6Ensaio com protótipos de bonecos javaneses, wayang.

Katil é um diretor que trabalha principalmente com teatro físico e desde o começo dos estudos por aqui já me falaram que deveríamos conhecê-lo pois nossos estilos de  trabalho se aproximavam. Certa vez a coordenadora me chamou para assistir um ensaio de um espetáculo que ele estava fazendo até para saber se eu não queria participar (ele gosta muito de trabalhar o interculturalismo). Eu fui assistir e cheguei a conclusão que os atores deles eram tão bons fisicamente, que tinham um corpo tão preparado e tão Minangkabau, que ia demorar um bom tempo para que eu me igualasse à eles (ou seja, pensei que não era boa o suficiente para o que ele precisava). Me arrependi depois, em ter dito não, talvez por medo, talvez eu devesse arriscar já que é para isso que eu estava aqui, mas eu sabia que a data para a apresentação era próxima, então teria que parar tudo que estava fazendo só para me dedicar a isso (o que atrapalharia meus estudos). Me lembro que pensei que gostaria muito de trabalhar com ele. E como as Deusas tem uma audição apurada: lá estava ele naquele dia, assistindo o que eu e o Mateus havíamos criado até o momento.

PP05-8Mateus ensaiando, tocando os gongos de Sumatra, os talempongs.

Logo que acabou o ensaio, sentamos para conversar, ele não fala inglês, e ainda não sabíamos muito de indonésio. Tintun, a coordenadora, fez a tradução/mediação. Ele fez observações sobre o que viu, disse que para ele era bem contemporâneo, que tinha a essência do tradicional com um novo olhar e que gostaria de fazer parte do processo. Começou, naquele momento, uma nova etapa da nossa criação: a colaboração entre artistas de diferentes países, que não falam a mesma língua, trabalhando juntos para a construção de uma obra de arte.

No outro dia Tintun convidou um outro amigo dela, um professor e bailarino, cujo trabalho conhecemos quando assistimos sua performance de dança na primeira semana, (segundo o Mateus, uma das melhores danças que ele assistiu na vida dele), e realmente ele era fantástico, lembro de pensar pensar: “nossa! Que corpo! queria poder saber dançar como ele”!. E eis que as Deusas nos escutaram de novo e, Ali Sucri, que também não falava nenhum pouco de inglês, seria mais um colaborador da obra para trabalhar as coreografias e as técnicas corporais tradicionais.

PP05-5Janine trabalhando na construção de desenhos corporais Minagkabau.

“Que responsabilidade”, eu pensava e “que honra, que benção das Deusas, que oportunidade”!. Sim, foi uma oportunidade única na vida! Dessas que trazem muitos aprendizados e muita história para contar. Não pensem que tudo foi um “mar de rosas”, não foi mesmo! O primeiro problema que tivemos foi agenda, os 3 envolvidos eram professores e grandes artistas, logo estavam sempre cheios de compromissos. A gente tinha nossas aulas e o teatro tinha limite de horários (em algumas oportunidades o teatro era fechado para o responsável ir rezar na mesquita). Era sempre uma incógnita, não sabíamos se criávamos sozinhos com a possibilidade deles chegarem e mudarem tudo ou se esperávamos eles aparecerem. A coisa só ficou mais constante quando Katil foi convidado para apresentar um espetáculo dele em um Festival de Teatro numa Universidade em Padang (capital da província) e escolheu a gente para apresentar. Junto com isso, Tintun fez com que os alunos do curso de teatro acompanhassem o processo e ajudassem nas necessidades técnicas como parte das aulas no semestre. Como a apresentação estava super próxima (tínhamos cerca de 2 semanas) decidimos em conjunto apresentar só uma parte da dramaturgia, como um work-in-progress, assim poderíamos dedicar este tempo para detalhar o que havíamos criado e deixar o mais redondo possível.

Tivemos vários debates e diferenças, principalmente por 2 motivos: o primeiro relacionado à dificuldade de comunicação. Não era sempre que tínhamos alguém para traduzir o que era dito, então muito do diálogo que deve ser feito em qualquer processo de criação se perdeu nessa confusão. Por ser um teatro baseado no físico, nos entendíamos através de apontamentos feitos na prática, no próprio corpo, já que Katil cuidava da direção e Sucri das coreografias. O segundo ponto de discordância era diretamente relacionado à linguagem teatral. Viemos de um teatro em que a musicalidade da cena e principalmente a “urgência” são as bases de trabalho. Para nós, o espetáculo é uma grande orquestra ritmada e quando há lentidão nas cenas, esta precisa ser bem justificada e com o estado dilatado. Eles adoram uma lentidão! Assistimos muitos espetáculos aqui em que a dançarina atravessava o palco (que é bem grande) num ritmo absurdamente lento, e víamos a maioria da plateia aproveitar a oportunidade para checar os celulares e pensar nos problemas da vida. Esse era nosso maior medo. No começo deixamos fluir para ver aonde iriam chegar e o que podíamos aprender com essa dificuldade, mas chegou o momento que tivemos que falar sobre essa diferença e, apesar de saber que eles não estavam 100% satisfeitos, chegamos ao meio termo, ou ao que almejamos em todos os aspectos da vida, ao equilíbrio.

PP05-9A equipe do espetáculo Jeritan Ibu Pertiwi debatendo após o ensaio.

Acho que foi um pouco sofrido para os dois lados. Nós queríamos algo intimista, pequeno, em que a plateia pudesse olhar nos olhos da personagem, afinal, seria apenas uma atriz e um músico em cena. Eles, como já vimos em suas apresentações anteriores, gostavam da ideia de ser algo grande (por ser bem físico), largo. Após bastante sofrimento e relutância, chegou um ponto em que eu e o Mateus nos deixamos levar pela experiência. Deixamos de lado a ideia que imaginávamos para mergulhar na colaboração, para trocar, para aprender. Deixamos de lado o que era o nosso jeito “certo” de trabalhar para ir de encontro com o que é “certo” para eles. Quem disse que o nosso jeito é o “certo”? Quem disse que o deles é o “certo”? Esse é o grande aprendizado dessa jornada: desapegar de nossas crenças de certo e errado e deixar-nos guiar pela experiência única que estávamos tendo a oportunidade de ter, ou seja, viver o processo.

Tenho muito orgulho dessa experiência e muito carinho e gratidão por todos aqueles que fizeram parte dela, que acreditaram no trabalho de dois “bules kacau” (gringos loucos), que dedicaram seu tempo e seu trabalho à criação de uma obra de arte, que deram a “cara para bater”, pois o espetáculo é uma crítica a alguns costumes da sociedade em que eles vivem, que colocaram sua alma nesse projeto e que entenderam junto com a gente que a linguagem da arte é universal e é uma poderosa ferramenta de aprendizado e transformação humana.

(Continua no próximo post)

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Jeritan Ibu Pertiwi – Parte 2

Obstacle race

by Janine de Campos

More and more we discover that life is made of choices. It may sound a little cheeky, but the reality is that. And when you make a choice it means you have to give up something to get something else. In our choice of embarking on a process of theatrical creation we had to give up on vacationing, drinking our beer over the weekend, eating the more expensive food (because we knew we had to save as much money as the play asked for), sleeping late and having a comfortable life. We knew that the other choice was “more enjoyable,” but we, as the artists we are, were thirsting to create.

Besides not being part of the team that had “pleasures”, at the beginning we already understood that we would have many obstacles to face. I’ve heard many complaints about Brazil being a bureaucratic country, where everything takes time and we have to be patient. You have no idea what Indonesia is. While in India one of my greatest learnings was about time, here in Indonesia my greatest learning is about: PATIENCE and as a consequence, RESILIENCE.

Our first obstacle was finding a place to start the rehearsals. Our coordinator informed us that we would have to make a letter with the room request addressed to the university’s rector, who should sign and then send to the theater department, who would send the authorization to the international office (which deals with foreign affairs). We did the letter in November to get a room we could use in December and January during our vacation. While we did not have the answer, I decided to try our luck at some alternative times. I used to wake up early and as soon as I saw a dance room free, I would take my place, but soon someone would arrive saying that in 10 minutes the class would start or the local students would use it for rehearsal. Class times were always confusing and there was no logical schedule. I had experiences with older dance students who were super arrogant (which proves that this type of person, who works with the inflated ego exists in every corner of the world, even in Asia).

It was like this, during the whole vacation. Leaping from room to room. But right at the beginning, the Goddesses of the theater have begun to “move their fingers”. On the first day of rehearsal, when I was in the room with the door open, a cat came in and watched me. When I finished, I sat down and it approached me, climbed on my lap and lay there. I was very emotional because in the theater play, the character tells her problems to a cat she encountered on her way during a storm. Coincidentally, or as I believe, “by fate”, Mateus and I saved 4 kittens that were dying after a heavy storm on the last day of 2018. We spent the new years eve on the porch of my house, me, Mateus and the 4 kittens that have transformed our New Year with only 1 firework into pure fun! I really believe that the Goddesses were on our side.

We knew we had the blessing of the Goddesses, but the bureaucracy was not making our lives easier, we knew we had to learn a little more about patience. Our coordinator went to take a course outside of the city and was 2 months without appearing, which delayed, and much, our saga of the room. Only after her arrival in the middle of January that the letter about the room was authorized and how she knew of our yearnings and perhaps even as an apology for the delay, she gave us as a gift for the rehearsal: the theater. I remember that we were very happy to have a space in which we could save our things and still be able to have the energy of a theater to work. At first we knew the theater was great, and as we wanted to do something more intimate, we did not go straight to the stage, because for us, the stage is sacred and we would only go there when we had the right to step on it. We started rehearsing in a hallway with mirrors behind the stage, which made my choreographic direction easier. The best time was very early, because on the days with events scheduled the students could arrive and disrupt the progress.

So every day at dawn, we were there, me and Mateus, inventing, creating, recreating, trying to understand what this new process would be like for us. I started by creating a choreographic body drawing base (coming from the teachings of Eugenio Barba which I had experienced in recent years) stimulated by the visions and character states that the dramaturgy brought (Théâtre du Soleil method). Mateus gradually, each day, brought the music and musicality of the scene to the composition. We had a sketch of 3 scenes when our coordinator arrived to watch a rehearsal and understand what these obsessed “bules” were making up. She watched only the end of the third scene and decided to make a phone call telling us to wait before showing the process from the beginning. In this call she invited the theater director Yusril Katil to attend the rehearsal because she thought it might interest him.

Katil is a director who works primarily with physical theater and from the beginning I’ve been told that I should meet him because it suited our type of work. The coordinator called me to attend a rehearsal on a play he was doing to know if maybe I could participate (he likes to work on interculturalism). I went to watch and I came to the conclusion that the actors were so good physically, with bodies so prepared and so Minangkabau that it would take a long time for me to match them (in other words I thought I was not good enough for what he needed). I regretted it later, saying no, maybe out of fear, maybe I should take a chance because that’s what I was here for, but I knew the date for the presentation was next, so I would have to stop everything and concentrate 100% on this (which would disrupt my studies). I remember thinking I’d really like to work with him. And as the Goddesses have a clear hearing: there he was that day, watching what Mateus and I had created so far.

As soon as we finished the rehearsal, we sat down to talk, he don´t  speaks English, and we still did not know much about Indonesian. Tintun, the coordinator, did the translation/mediation. He made remarks about what he saw, said that for him it was quite contemporary, that he saw the essence of traditional with a new look and that he would like to be part of the process. At that moment a new stage of our creation began: collaboration between artists from different countries, who do not speak the same language, working together to build an artistic piece.

The next day Tintun invited another friend of hers, a teacher and dancer, who we watched dancing on our first week in Padangpanjang (according to Mateus, one of the best dances he saw in his life), and indeed he was fantastic, I even thought: “Wow! What a body! I wish I could know how to dance like him”! And, behold, the Goddesses listened again, and Ali Sucri, who also don´t speak English, would be one more collaborator in the process to work on traditional choreography and body techniques.

“What a responsibility,” I thought and “what an honor, what a blessing from the Goddesses, what an opportunity”! Yes, it was a once in a lifetime opportunity. One of those that bring lots of learning and lots of story to tell. Do not think that everything was like a fairytale, it was not! The first problem we had were the schedules, the 3 involved were teachers and great artists so they were always with the busy schedule. We had our classes and the theater had a limit of hours (in some cases the theater was closed so the person in charge could go to pray in the mosque). It was always a mystery, we did not know if we should advance alone with the possibility of them coming and changing everything or if we should wait them to appear. The process only became more solid when Katil was invited to present one of his performances at a Theater Festival of a University in Padang (capital of the province) and he choose us to perform. Along with this, Tintun made the students of the theater course follow the process and help in the technical needs as part of the classes in the semester. As the date of the performance was close we decided together to present only part of the dramaturgy as a work-in-progress, so we could take time to detail what we had created and leave it as round as possible.

We had several debates and differences, mainly for two reasons: the first related to the difficulty of communication. It was not every time we had someone to translate what was said, so much of the dialogue that must be done in any creation process was lost in this mess. What really saved was that, because it was a theater based on the physical, the notes were made in the practice, in the own body, since Yusril took care of the direction and Sucre of the choreographies. The second point of disagreement was directly related to the theatrical language. We came from a theater in which the musicality of the scene and especially the “urgency” in the theater are the basis. For us, a theater play is a great rhythmic orchestra and when the scene demands slowness it needs to be well justified and dilated. They love slowness! We watched a lot of performances here where the dancer walked across the stage (which is quite large) at an absurdly slow pace, and we saw most of the audience seizing the opportunity to check their cell phones and think about the problems of life. That was our greatest fear. At first we let ourselves flow to see where they would arrive and what we could learn from this difficulty, but the time came when we had to talk about that difference and, although we knew they were not 100% satisfied, we came to the middle ground, or to what we strive in every aspect of life: balance.

I think it was a little painful for both sides. We wanted something intimate and small, where the audience could look into the character’s eyes, after all, it would just be an actress and a musician on the stage. They, as we have seen in their previous presentations, liked the idea of something big (for being very physical), wide. After some suffering it cames to a point where Mateus and I let ourselves be carried away by experience. We set aside the idea we imagined to plunge into collaboration, to exchange, to learn. We set aside what was our “right” way of working to meet what was “right” for them. Who says our way is the right one? Who said it was theirs? This is the great learning of this journey: letting go of our beliefs of right and wrong and letting ourselves be guided by the unique experience we were having, living the process.

I am very proud of this experience and very caring and grateful for all those who were part of it, who believed in the work of two “bule kacau” (crazy foreigners), who dedicated their time and their work to the creation of a work of art, which expose themselves, since the play has criticism of some customs of the society in which they live, who put their soul in this project and who understood together with us that the language of art is universal and is a powerful tool of learning and human transformation.

(To be continued)