Jeritan Ibu Pertiwi – Parte 3

Mais e mais artistas

por Mateus Ferrari
(English version below)

Passado o choque cultural e artístico do início do nosso processo colaborativo, estávamos com o espetáculo caminhando para um resultado interessante, que representava bem a mistura de culturas, técnicas e artistas envolvidos no processo. Conforme relatado no post anterior, havíamos aceitado a ideia de construir a peça para um palco grande. Surgiu daí a necessidade de pensar em uma forma de preencher este palco e “vesti-lo” com as características visuais da cultura Minangkabau. A intenção era ser o mais minimalista possível, pois tínhamos a possibilidade de viajar para algumas cidades da Indonésia (o que acabou não acontecendo por motivos políticos e burocráticos) e queríamos economizar o máximo no tamanho do cenário e adereços para viabilizar esta possível turnê.

Ativo 1-100Conceito para o cenário do espetáculo…

Em uma das cenas a personagem luta contra uma sombra criada através de uma projeção mapeada, ou seja, teríamos um projetor no espetáculo. A partir disso, decidimos utilizar algumas ilustrações como fundo nas cenas. A decisão na escolha do artista visual foi fácil: nossa amiga e grande artista russa Polina Buchenkova. Polina é nossa colega de bolsa aqui em Padangpanjang, ela escolheu estudar as artes visuais enquanto nós optamos pelas artes performáticas. Como somos do “bonde da cervejinha” entre os alunos, a conversa foi fácil e direta: – Precisamos de uns desenhos para o cenário do espetáculo, não temos dinheiro, estamos fazendo esta produção na raça e somos fãs da sua arte, topa participar? Com seu senso de humor único e o característico sotaque russo ela respondeu: “Yes, I don´t have nothing better to do, you know…”.

DSC_7306… cena do espetáculo, com cenário e projeção.

Era mais uma grande artista embarcando no nosso processo. Eu fico pensando o que a gente tem que faz as pessoas acreditarem nas nossa ideias malucas, deve ser o jeito expansivo e zoeiro do brasileiro, só pode. Procurei passar as direções e conceitos das ilustrações para a Polina e deixá-la com a maior liberdade possível para que a criatividade e talento dela florescessem. Além das ilustrações, Polina também seria a responsável pela operação das projeções nas apresentações em conjunto com outro grande amigo: o indonésio Willy Andika, que por ser um grande músico iria auxiliá-la nas deixas de troca de projeções que eram precisas com a música. Cabe aqui também agradecer ao Willy por me emprestar o teclado Midi que usei na gravação das músicas do espetáculo. Salvou minha vida!

4 - WaveDesenho de Polina Buchenkova para o espetáculo.

Conforme citado anteriormente, precisávamos também de um artista para a cena de luta. Outra escolha simples: nosso amigo James Tiana, de Madagascar – África. Nas aulas de Silat ele sempre foi, de longe, o melhor entre nós, com uma facilidade incrível em memorizar e reproduzir com precisão as inúmeras sequências de ataques, defesas e transições características desta complexa arte marcial. Agendamos então uma tarde no teatro para gravar a cena. O plano inicial era utilizar um pano branco com uma luz no fundo para gravar a sombra do lutador. Mas aqui tudo é difícil e não havia nem pano nem refletores disponíveis, teríamos que escrever uma carta para o reitor e esperar e blá-blá-blá. Partimos então para o plano B, conseguimos um projetor emprestado e decidimos gravar de frente, projetando uma luz branca no ciclorama do teatro. Isso dificultou muito a minha edição do material, mas foi possível chegar a um bom resultado. No dia da gravação, nosso tempo no teatro foi reduzido de 4 horas para 1 hora, pois haveria outra gravação (agendada mesmo sabendo-se que gravaríamos durante a tarde toda) e a preferência é sempre dos alunos locais. Precisávamos do palco totalmente escuro e pasmem, para desligar a luz demorou meia-hora até encontrarem o técnico que sabia onde apagar as luzes. Quando finalmente estávamos prontos para gravar, tínhamos 30 minutos.

DSC_2005James Tiana gravando cenas de luta para o espetáculo.

A gravação foi apressada e intensa, o que fez nosso amigo James passar mal devido ao calor e a falta de descanso entre os takes. Mas o espírito de luta dos africanos o fez ir adiante e conseguimos o take perfeito. James, poucos tem a sua energia e companheirismo. Dedicar-se com tudo a um projeto que não é seu não é para todo mundo. Obrigado Amigo.

IMG_20190526_205606_212James, Janine, Mateus, Polina e Willy curtindo o descanso após as apresentações.

Para fechar a apresentação da equipe, temos os alunos do curso de teatro. Todos muito jovens (entre 18 e 21 anos) cheios de energia e prontidão para nos ajudar. Durante o processo nos ajudavam com a montagem do palco para os ensaios e também com adereços e figurinos. Eles trabalham muito duro, porém é nítido que o curso de teatro não oferece um conteúdo aprofundado relacionado à produção, até pela maneira como as apresentações artísticas são realizadas na Indonésia. Aqui não se gasta tempo planejando, decide-se e faz-se tudo na hora, o que obviamente traz uma série de problemas, que não incomodam o povo local, mas que para nós interferem na qualidade da produção e consequentemente da apresentação. Pouco a pouco conseguimos estabelecer alguns parâmetros para a organização do trabalho e passamos para eles nossa experiência no planejamento e execução de produções teatrais. Foi nítida a evolução do trabalho deles e esperamos que os conhecimentos que compartilhamos possam auxiliá-los em seus próximos projetos.

Nosso muito obrigado para Yeni Wahyuni (direção de palco), Junari Adi Saputra (cenotécnico), Muhammad Haikal (adereços), Rahmi Lestari (adereços), Risky Fahclevi (iluminação), Rahma Dona (maquiagem e figurinos), Aulia Firm Gusra (som), Tiara Larassati (equipamentos) e aos outros alunos que colaboraram conosco durante o processo.

DSC_1891Equipe no palco após apresentação em Padang.

Para finalizar, ainda falando sobre os alunos de teatro, me orgulhou muito ver a forma como eles organizaram e lideraram os protestos contra o reitor da universidade, buscando na garganta soluções para os diversos problemas da instituição. Pelo contrato da bolsa de estudos, nós não podemos participar de manifestações e atividades políticas, mas disfarçadamente consegui demonstrar meu apoio à causa e aos alunos nos dias de manifestações. Espero realmente que as coisas melhorem e que os alunos tenham melhores condições de estudo aqui no ISI Padangpanjang.

No próximo e último capítulo desta série, vamos falar sobre as apresentações do espetáculo no Festival de Teatro de Padang e no campus do Institut Seni Indonesia Padangpanjang.

(Continua no próximo post).

Jeritan Ibu Pertiwi – Part 3

More and more artists

by Mateus Ferrari

After the cultural and artistic shock of the beginning of our collaborative process, the theater play was moving towards an interesting result, which represented well the mixture of cultures, techniques and artists involved in the process. As reported in the previous post, we had accepted the idea of building the play for a big stage. There arose the need to think of a way to fill this stage and “dress it” with the visual characteristics of the Minangkabau culture. The intention was to be as minimal as possible because we had the possibility to travel to some cities of Indonesia (which did not happen because of political and bureaucratic reasons) and we wanted to save the maximum on the size of the scenery and props to make this possible tour possible.

In one of the scenes the character fights against a shadow created through a mapped projection, that is, we would have a projector in the play. From that, we decided to use some illustrations as background in the scenes. The decision in choosing the visual artist was easy: our friend and great Russian artist Polina Buchenkova. Polina is our colleague here in Padangpanjang, she chose to study the visual arts while we opted for the performing arts. As we are in the “beer crew” among the students, the conversation was easy and straightforward: – We need some drawings for the scenery of the play, we do not have money, we are doing this production all by ourselves and we are fans of your art, do you want to join us? With her unique sense of humor and the characteristic Russian accent she replied, “Yes, I do not have anything better to do, you know …”.

She was another great artist embarking on our process. I keep thinking what we have that makes people believe in our crazy ideas, it must be the Brazilian’s expansive and funny way, I guess. I tried to brief the directions and concepts of the illustrations to Polina and leave her with as much freedom as possible for her creativity and talent to flourish. In addition to the illustrations, Polina would also be responsible for the operation of the projections in the performance along with another beloved friend: Willy Andika, who as a great musician would assist her in the changes of projections that were accurate with the music. It is also my pleasure to thank Willy for lending me the Midi keyboard I used to record the songs of the play. He saved my life!

As mentioned earlier, we also needed an artist for the fight scene. Another simple choice: our friend James Tiana from Madagascar. In Silat classes he has always been by far the best among us, with an incredible facility in memorizing and accurately reproducing the innumerable sequences of attacks, defenses and transitions characteristic of this complex martial art. We then scheduled an afternoon at the theater to record the scene. The initial plan was to use a white fabric with a light in the background to record the shadow of the fighter. But here everything is difficult and there was neither fabric nor reflectors available, we would have to write a letter to the dean and wait and blah blah blah. We then set out for Plan B, got a borrowed projector, and decided to record from the front, projecting a white light into the theater’s cyclorama. This made it very difficult for me to edit the material, but it was possible to achieve a good result. On the day of recording, our time in the theater was reduced from 4 hours to 1 hour, because there would be another recording (scheduled even though everybody knew that we would record all afternoon) and the preference is always of the local students. We needed the stage totally dark and it can seem a lie, but to turn off the light it took half an hour until they found the technician who knew where to turn off the lights. When we were finally ready to record, we had 30 minutes.

The recording was rushed and intense, which made our friend James go bad due to the heat and the lack of rest between takes. But the fighting spirit of the Africans made him go ahead and we got the perfect take. James, few people have your energy and companionship. Dedicating yourself to a project that is not yours is not for everyone. Thank you friend.

To close the presentation of the team, we have the students of the theater course. All very young (between 18 and 21 years old) full of energy and readiness to help us. During the process they helped us with the assembly of the stage for the rehearsals and also with props and costumes. They work very hard, but it is clear that the theater course does not offer in-depth content related to production, probably by the way the artistic presentations are held in Indonesia. Here time is not spent planning, everything is decided on time, obviously bringing a series of problems, which do not bother the local people, but for us interfere in the quality of the production and consequently the performance. Step by step we were able to establish some parameters for the organization of the work and we passed on to them our experience in the planning and execution of theatrical productions. The evolution of their work was clear and we hope that the knowledge we share can help them in their next projects.

Our thanks to Yeni Wahyuni (stage direction), Junari Adi Saputra (cenotechnician), Muhammad Haikal (props), Rahmi Lestari (props), Risky Fahclevi (lighting), Rahma Dona (makeup and costumes), Aulia Firm Gusra (sound), Tiara Larassati (equipment) and all the other students who collaborated with us during the process.

Finally, still talking about the students of theater, I was very proud to see how they organized and led the protests against the university rector, seeking with their voices solutions to the various problems of the institution. By the scholarship contract, we can not participate in demonstrations and political activities, but I covertly demonstrated my support for the cause and the students in the days of demonstrations. I really hope things get better and that students have better conditions of study here at ISI Padangpanjang.

In the next and last chapter of this series, we will talk about the performances of the play at the Padang Theater Festival and at the campus of the Institut Seni Indonesia Padangpanjang.

(To be continued)

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