Jeritan Ibu Pertiwi – Parte 4

Nos palcos do Oriente

por Mateus Ferrari

(English version below)

Um palco é um palco. Não importa o país, a cor, o material do piso, a estrutura, etc. Um palco é um palco nos enormes teatros da Broadway e nas pequenas vilas da Índia. O palco é o templo. É o meio de transporte para novas realidades, um portal para novos universos. Felizes e honrados são aqueles que fazem por merecer mostrar sua arte no palco.

Padang, 29 de março de 2019

Estávamos trabalhando no espetáculo há mais de 4 meses quando Yusril Katil foi convidado para participar do Festival de teatro da Universitas Negeri, em Padang, capital da província de Sumatra Ocidental. Entre diversos espetáculos que ele dirigiu, ele nos convidou para participar. Como citamos nos posts anteriores, o espetáculo ainda não estava pronto e seria apresentado como um work-in-progress. Nas 2 semanas entre o convite e a data de apresentação, focamos no trabalho de acabamento das cenas e adequação da dramaturgia para esta “versão reduzida” do nosso espetáculo.

29032019-DSC_1775Cena de Jeritan Ibu Pertiwi em Padang.

Chegou o dia da apresentação. Fomos logo cedo para Padang e logo começamos a montagem. O combinado seria que nossa equipe de alunos cuidaria do cenário e da luz e nós, músico e atriz, só participaríamos da passagem de som. Minha experiência em eventos anteriores aqui na Indonésia não me deixou acreditar nesse processo. Logo no começo da montagem, problemas. Nosso cenário eram somente 5 tecidos que iam do chão ao teto, intercalados (3 à frente, 2 no fundo), mas aqui não há planejamento nem conferência de plantas cênicas e a equipe começou a pendurar os tecidos de maneira completamente aleatória, sem medição. Como eu havia imaginado, tive de coordenar a montagem. Uma conversa de 5 minutos durante uma pausa para o cigarro (80% das pessoas fumam por aqui), medições improvisadas, 2 ou 3 desenhos básicos num papel e todos entenderam como proceder com o trabalho. 5 minutos que economizaram uma hora de trabalho, com todo mundo sabendo o que fazer e como fazer.

Na Indonésia, a iluminação cênica não é uma arte levada muito a sério, um bom exemplo é que nenhum iluminador grava as cenas aqui, é tudo na mão e na maioria das vezes improvisado na hora, com exceção dos grandes grupos artísticos de Jacarta e das produções internacionais que passam por aqui, que trazem seus técnicos e equipamentos. Durante o processo, todas as vezes em que discutíamos sobre a luz a resposta era confusa e indefinida (em um próximo post podemos falar sobre essa característica do povo indonésio). Então já havíamos nos preparado para trabalhar com luz geral e blackouts. Risky, nosso amigo da luz, coordenou a montagem e afinação dos refletores na estrutura do teto do local.

29032019-DSC_1804Cena de dança, com luz do nosso amigo Risky.

Partimos para a montagem da projeção. O combinado com a produção local era montar o projetor em um local alto, para as imagens não atingirem de maneira frontal a Janine no palco. Haviam nos garantido um cabo longo para fazermos isso, mas o tal cabo não existia, o que nos obrigou a montar o projetor na frente do palco e que me forçou a refazer a edição dos vídeos na hora, um desespero total. Ainda não entendi direito como, mas consegui alterar todos os vídeos e adequar para o espaço.

A montagem e passagem do som foi surpreendentemente tranquila e sem muitos percalços, embora atrasada e com boa parte do público já presente… Estávamos prontos. A caótica montagem estava finalizada e no passado. A hora era da arte. Da nossa arte. Do Grito da Mãe Terra (Jeritan Ibu Pertiwi).

29032019-DSC_1830Cena com os tradicionais bonecos Wayang.

A experiência e a vontade de mostrar nosso trabalho nos possibilitou transformar todo o estresse e correira da montagem em energia durante nossa apresentação. O espetáculo começa com uma cena de fuga, a parte mais difícil tecnicamente na música e na coreografia. A gente entrou com tudo, lembro de olhar para a Janine durante a cena (o que eu não conseguia fazer nos ensaios devido à velocidade e complexidade da música que eu criei nos talempongs) e pensar como ela estava linda e precisa nos movimentos. Coisas do palco. Eu sempre tentei usar uma abordagem de ator no meu trabalho de músico no teatro, ou seja, o Mateus do palco faz coisas que o Mateus do dia-a-dia não consegue. O público respondeu bem, os olhos inquietos demonstravam surpresa com a cultura Minangkabau sendo apresentada de maneira totalmente diferente da qual estão acostumados, por dois estrangeiros malucos experimentando com suas melodias, danças e tradições. No final, após aplausos entusiasmados, fizemos um bate-papo para compartilhar um pouco da experiência.

Nosso amigo Rudy fez uma crítica da apresentação para um site local, está em inglês e você pode conferir neste link. 

Alguns meses depois, em uma conversa com os artistas indonésios que colaboraram conosco, eles nos contaram que algumas pessoas ficaram um pouco chocadas com os temas abordados na peça (estupro familiar, casamento arranjado, papel da mulher na sociedade). Adoramos a notícia. Normalmente quem se incomoda com artistas abordando estes assuntos são os que colaboram com a perpetuação destas injustiças. Que se incomodem! Temos orgulho de ter tido a coragem de tocar nesses assuntos, numa sociedade muçulmana conservadora, de maneira poética e artística, inspirada na realidade e nos depoimentos de meninas e mulheres que sofrem com estes absurdos.

29032019-DSC_1887“Você tem mãe? Ela morreu? A minha também. Posso te contar um segredo? Deus não pode estar em todos os lugares, por isso ele criou as mães. Eu vou fugir e ninguém vai me encontrar. Não vou me casar com um homem que não quero. Vou subir lá, no topo do vulcão e quando chegar eu vou ser a Deusa da Dança, minha Bundo Kanduang! Você também tem de casar com alguém que não conhece? Não precisa ficar com medo. Você está seguro, te prometo. Ninguém vai te machucar, tá? Ninguém vai te machucar!”

Padang Panjang, 3 de maio de 2019

Após a apresentação em Padang, retornamos aos ensaios para terminar o espetáculo para a estreia na nossa casa, o Institut Seni Indonesia, em Padang Panjang. Havíamos nos comprometido em não exagerar nas projeções e traquitanas tecnológicas para as novas cenas, até pela experiência caótica na montagem em Padang, mas não conseguimos segurar e de repente tínhamos uma luta com sombra (projeção mapeada) e quase 50 transições de vídeo, para desespero da nossa querida amiga Polina, que além de criar as ilustrações também operava as projeções.

DSC_7310-01Cena de Jeritan Ibu Pertiwi no Institut Seni Indonesia, Padang Panjang.

A agenda original era realizar a apresentação no dia 29 de abril, junto com a cerimônia de encerramento das aulas dos estudantes estrangeiros na universidade. Na manhã deste dia, recebemos a notícia de que os estudantes estavam em greve e fecharam todos os espaços do Campus, protestando contra o reitor e sua decisão de concorrer a um cargo em outra universidade, enquanto o trabalho realizado no ISI Padang Panjang era completamente questionável. Nossa reação inicial foi de choque e decepção, mas após uma reunião com o comitê da greve, entendemos as reinvindicações e manifestamos nosso total apoio ao movimento. Intencionalmente ou não, a escolha da data de início da greve no dia da nossa apresentação (que de certa maneira atriu mais atenção para da mídia local para o ISI, era a peça de teatro dos estrangeiros) foi uma grande sacada.

DSC_7376-01Cena de luta com projeção mapeada.

A semana foi de indefinições e somente no dia 2 de maio à noite, conseguimos reagendar nossa apresentação para o dia seguinte. Haveria também um concerto da orquestra da universidade e uma exposição dos trabalhos dos nossos colegas de bolsa, estudantes estrangeiros de artes plásticas.

DSC_7354O gato, que compartilha da dor e da jornada da personagem Dorva.

Já estávamos mais afinados como equipe de produção e estávamos em casa, o que tornou a montagem bem mais tranquila que a anterior. Montamos e testamos tudo pela manhã. Nosso desafio seria desmontar uma orquestra inteira e trocar o cenário para o nosso espetáculo em 10 minutos. Eu estava desacreditado, mas aconteceu. Obrigado Deuses e Deusas do teatro!

DSC_7337Cena de estupro do espetáculo Jeritan Ibu Pertiwi.

Apagam se as luzes, os apresentadores anunciam ao público “Selamat Menyaksikan!” (algo como “boa apresentação”) e abrem-se as cortinas. No enorme palco do teatro lá estávamos nós novamente, entregando nosso suor e alma para contar uma história, a história de uma e de todas as mulheres, para fazer uma declaração de amor à cultura Minangkabau e um manifesto contra o atraso e o preconceito de gênero da Indonésia, para inspirar, questionar, fazer refletir e acima de tudo para existirmos.

DSC_7345-01“Descobri que tudo aqui é efêmero e pode acabar no próximo minuto, como a erupção de um vulcão, como o Grito da Mãe Terra. Eleve-se, povo Minangkabau! Elevem-se, mulheres da Terra! Não há limites para um coração preenchido de sonhos, amor e paixão pela vida. Eu consegui, eu consegui! Eu sou Dorva, eu sou Bundo Kanduang, sou você, sou ela, sou mulher! Então dance! Aqueles vistos dançando foram considerados insanos pelos que não ouviam a música! Dance! Dance!

Esperamos que tenham gostado desta série sobre o nosso espetáculo, como narramos por aqui foi um processo complexo e cheio de desafios, mas que certamente nos enche de orgulho e felicidade. Nós fizemos um espetáculo de teatro no oriente, sobre o oriente, para os orientais e isso não é nada fácil. Esse tipo de experiência nos enriquece muito artisticamente, como profissionais mas acima de tudo como humanos. Aos amigos artistas que embarcaram na jornada conosco aqui na Indonésia, não há palavras para agradecer a parceria de vocês. Obrigado por acreditar em nós, no nosso trabalho, na nossa arte. Obrigado por conseguir separar as acaloradas discussões durante todo o processo da nossa, agora eterna, amizade. Como disse a vocês, não ousem reservar hotel quando forem ao Brasil. Vocês são de casa.

Tarimo Kasih!

—-

Jeritan Ibu Pertiwi – Part 4

On the stages of the East

by Mateus Ferrari

A stage is a stage. No matter the country, the color, the material of the floor, the structure, etc. A stage is a stage in the huge Broadway theaters and in the small villages of India. The stage is the temple. It is the road to new realities, a portal to new universes. Happy and honored are those who deserve to show their art on stage.

Padang, March 29, 2019

We were working on the theater play for more than 4 months when Yusril Katil was invited to attend the Universitas Negeri Theater Festival in Padang, capital of West Sumatra province. Amongst various performances he directed, he invited us to participate. As we mentioned in previous posts, the performance was not yet ready and would be presented as a work-in-progress. In the 2 weeks between the invitation and the date of presentation, we focused on the details of the scenes and the suitability of the dramaturgy for this “reduced version” of our play.

The day of the presentation has arrived. We left early for Padang and soon we began the assembly. The plan was that our team of students would take care of the scenery and the light and we, musician and actress, would only participate in the sound testing. My experience in previous events here in Indonesia has not let me believe in this process. Right at the beginning of the assembly, problems. Our scenario was only 5 fabrics that went from floor to ceiling, interspersed (3 front, 2 back), but here there is no planning or scenic blueprints and the team began to hang the fabrics completely randomly without measurement. As I had imagined, I had to coordinate the assembly. A 5-minute conversation during a cigarette break (80% of people smoke around here), improvised measurements, 2 or 3 basic drawings on paper, and everyone understood how to proceed with the job. 5 minutes that saved an hour of work, with everyone knowing what to do and how to do it.

In Indonesia, stage lighting is not an art taken very seriously, a good example is that no illuminator pre-records the scenes here, it’s all done by hand and most of the time improvised, with the exception of the large artistic groups in Jakarta or international productions that come here, that bring their technicians and equipment. During the process, every time we discussed the light the answer was confused and indefinite (in a next post we can talk about this characteristic of the Indonesian people). So we had already prepared ourselves to work with general light and blackouts. Risky, our friend of light, coordinated the mounting and tuning of reflectors on the site ceiling structure.

We continue to set up the projection. The agreement with the local production was to mount the projector in a high place, so that the images did not reach Janine frontally on the stage. They promise a long cable to do this, but the cable did not exist, which forced us to mount the projector in front of the stage and forced me to redo all the editing of the videos, a total despair. I still do not understand how, but I managed to change all the videos and fit them for the space.

The sound testing was surprisingly organized and without many mishaps, although late and with much of the audience already present… We were ready. The chaotic assembly was over and done in the past. The time was for art. For our art. For the Scream of Mother Earth (Jeritan Ibu Pertiwi).

The experience and willingness to show our work enabled us to transform all the stress of the assembly into energy during our presentation. The show begins with an escape scene, the most technically difficult part in music and choreography. We came on fire, I remember that I looked at Janine during the scene (which I could not do in rehearsals due to the speed and complexity of the music I created in the talempongs) and think how beautiful and precise she was in the movements. Miracles of the stage. I have always tried to use an actor approach in my work as a musician in the theater, that is, the stage Mateus does things that the dailly Mateus can not. The public responded well, their restless eyes showing surprise at the Minangkabau culture being presented in a totally different way than they are used to see, by two crazy foreigners experimenting with their melodies, dances and traditions. In the end, after enthusiastic applause, we chatted to share some of the experience.

Our friend Rudy made a review of the presentation for a local site, you can check here.

A few months later, in a conversation with the Indonesian artists who collaborated with us, they told us that some people were a bit shocked by the themes covered in the play (family rape, arranged marriage, the role of women in society). We loved the news. Usually those who bother with artists addressing these issues are those who collaborate in the perpetuation of these injustices. Let them bother! We are proud to have had the courage to talk about these subjects, in a conservative Muslim society, in a poetic and artistic way, inspired by the reality and testimonies of girls and women who suffer from these absurdities.

“You have a mother? She died? Mine too. Can I tell you a secret? God can not be everywhere, so he invented the mothers. I’ll run away, no one will find me. I’m not going to marry some man I do not want! I will climb up there, on top of the volcano and when I get there I will became the God of Dance, my Bundo Kanduang! Do you also have to marry someone you do not know? No, you do not need to be scared! Now you are safe, I promise you, nobody will hurt you, ok? Nobody will hurt you!”

Padang Panjang, May 3, 2019

After the presentation in Padang, we returned to rehearsals to finish the play for the premiere at our home, the Institut Seni Indonesia in Padang Panjang. We had committed ourselves not to exaggerate the projections and technological trachymatics for the new scenes, even by the chaotic experience in the assembly in Padang, but we could not hold back and suddenly we had a fight with shadow (mapped projection) and almost 50 video transitions, to despair of our dear friend Polina, who besides creating the illustrations also operated the projections.

The original schedule was to hold the presentation on April 29, together with the closing ceremony of the foreign students classes at the university. On the morning of this day we received the information that the students were on strike and closed all Campus spaces protesting against the rector and his decision to run for office at another university while the work at ISI Padang Panjang was completely questionable. Our initial reaction was one of shock and disappointment, but after a meeting with the strike committee, we understood the claims and expressed our full support for the movement. Intentionally or not, the choice of the start date of the strike on the day of our presentation (which in some ways attracted more attention from the local media for the ISI, because it was the theater play of the foreigners) was a great idea.

The week was blurry and only on May 2 at night, we were able to reschedule our presentation for the next day. There would also be a concert by the university orchestra and an exhibition of the work of our fellow scholarship friends, foreign students of the fine arts.

We were already more attuned as a production team and we were at home, which made the assembly much easier than the previous one. We set up and tested everything in the morning. Our challenge would be to dismantle an entire orchestra and change the scenery to our show in 10 minutes. I was disheveled, but it happened. Thank you Gods and Goddesses of the theater!

Lights off, the presenters announced to the public “Selamat Menyaksikan!” (something like “have a good time watching”) and the curtains were opened. In the huge stage of the theater, there we were again, surrendering our sweat and soul to tell a story, the story of one and all women, to make a declaration of love to the Minangkabau culture and a manifesto against the backwardness and gender prejudice of Indonesia, to inspire, question, make reflect and above all to exist.

“I have found that everything here is ephemeral and may end in the next minute, like the eruption of a volcano, like the Scream of Mother Earth. I’m Dorva, I’m Bundo Kanduang, I’m you, I’m her, I’m a woman! So dance!” Those who were seen dancing were considered insane by those who did not listen to the music! Dance! Dance!

We hope you have enjoyed this series about our show, as we have narrated here was a complex and challenging process, but it certainly fills us with pride and happiness. We did a theater show in the east, about the east, for the eastern people and this is not easy. This kind of experience enriches us very much artistically, as professionals but above all as humans. To the artist friends who embarked on the journey with us here in Indonesia, there are no words to thank for your partnership. Thank you for believing in us, in our work, in our art. Thank you for separating the heated discussions throughout the process of our, now eternal, friendship. As I said to you, do not dare book a hotel when you go to Brazil. You’re home.

Tarimo Kasih!

Um comentário sobre “Jeritan Ibu Pertiwi – Parte 4

Deixe uma resposta para Marini Cancelar resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s