Um sonho de Bali

por Janine de Campos
(English version below)

Assim como tive um chamado do coração para a Índia, sempre senti um chamado para Bali. No princípio achava que era um chamado do ego, afinal, é fácil se imaginar morando na ilha de Bali de frente para o mar, acordando com o Sol sorrindo para você entre o azul do mar e do céu. Sim, eu sonhei muito com isso, e confesso que de vez em quando ainda sonho com essa paz e tranquilidade que esse cenário me traz. Porém, depois de conhecer as máscaras balinesas, através da atriz e diretora Fabianna de Mello e Souza da Cia Bondrés do Rio de Janeiro descobri que o chamado ia além, ele chegava no ponto direto do coração e da conexão artística e mais tarde descobri que passa bem perto da minha relação com o Kathakali da Índia: uma conexão espiritual e ritualística com os Deuses e com esse desconhecido que é poder doar seu corpo para que um espírito possa viver, seja ele um Deus poderoso ou um humano cheio de fragilidades.

montagem bali-01Encontros com Djimat em Bali. Em 2016 e 2019.

Minha grande transformação como atriz veio com a oficina que a Fabianna deu em Curitiba, através da Ave Lola Espaço de Criação e um tempo depois através de um projeto dela, conheci o mestre I Made Djimat, que estava ministrando uma oficina no Rio de Janeiro (e que eu só pude aproveitar por 2 dias, pois estava de passagem). Depois disso, a Fabianna voltou a dar mais umas oficinas em Curitiba e voltei a ter o contato com essa arte quando fomos criar o espetáculo “Nuon”. Quem conhece nossa história sabe que o espetáculo se passa no Camboja e eu tive que fazer uma pesquisa intensa sobre a arte de alguns países asiáticos para tentar encontrar o corpo e a voz dos personagens que estava criando. Pesquisei muito sobre o Camboja, Índia, China, Coréia e é claro sobre a querida Bali. Em 2016, tivemos a oportunidade de visitar Bali como turistas e aproveitamos para fazer uma aula com o mestre Djimat. Foram só algumas horas em uma tarde ensolarada, o suficiente para entendermos que precisávamos voltar para a Ásia para estudar com mais profundidade as artes do oriente.

04072019-pbali4I Made Djimat e Janine.

Quando o universo nos abriu a porta para uma possibilidade de morar na Indonésia através da bolsa Darmasiswa, meus olhos brilharam! Essa era a oportunidade que eu tanto sonhava, e esse era meu chamado de morar em Bali por 1 ano! Nos inscrevemos colocando Bali como primeira opção, argumentamos o quanto o estudo das máscaras balinesas era de nosso interesse e sabíamos que tínhamos boas chances de conseguir ir para lá. Escolhemos como segunda opção, Padangpanjang, pois antigamente era um respeitado conservatório de artes em Sumatra. Quando saiu o resultado estávamos indo para Bali, pulamos de alegria, mas durou pouco. Um segundo resultado (e esse oficial) nos realocou para nossa segunda opção. Existe um porquê das coisas saírem do jeito que saíram. Provavelmente o que tínhamos que aprender em Padangpanjang era mais importante do que o que tínhamos a aprender em Bali nesse momento de nossas vidas. Porém, estávamos em Sumatra, a milhares de quilômetros de casa e não podíamos deixar passar a oportunidade de por nossos pés em terras balinesas novamente. Economizamos o possível e o impossível e nas férias finais da bolsa Darmasiswa conseguimos organizar e viabilizar nossa ida.

30062019-pbali3Performance de I Made Djimat em um pequeno templo no centro de Bali. 

Nosso destino era certo: o centro cultural Tri Pusaka Çakti, da família do Djimat, na vila de Batuan, coração artístico balinês. Eu me reencontrei com o Topeng e as máscaras balinesas e o Mateus se aperfeiçoou no Gamelão Balinês (ele já estava estudando em Padanpanjang). Minha aula começava no silêncio das 6h da manhã: eu, o mestre e o Sol nascendo. Eu, o mestre, o Sol e toda carga de ensinamentos que um mestre tem em sua alma. Um grande mestre que eu também percebi humano quando um dia se atrasou porque dormiu sem querer ou que na volta de uma apresentação dele, no carro, encostou a cabeça no ombro do Mateus e tirou uma soneca tão merecida antes de mais 4 horas de aula que ainda daria naquele dia. Um mestre que ao colocar qualquer máscara flutua! Um mestre que sorri muito e que cuida de seus alunos. Um mestre que sabe muito e que, mesmo com a idade já avançada, ainda trabalha MUITO! São pessoas como essas que deveriam nos servir de inspiração. São artistas como esses que deveriam ser exemplos para atrizes e atores jovens, não a falsa promessa da fama e novelas. Esses são os verdadeiros artistas, os artistas da alma. Mais do que servir ao seus próprios egos, eles servem aos Deuses. Como não amar pessoas assim, como não se inspirar, como não querer ser um artista, uma pessoa melhor?

03072019-pbali2Momento vida real: sentados no meio-fio esperando o transporte após um festival.

Encontrar com seres humanos como esses (e coloco na mesma categoria o meu amado guru de Kathakali Udayakumar) são presentes únicos que a vida pode nos dar. Tenho muita gratidão pela oportunidade de conviver, nem que seja um pouquinho, com seres humanos como esses, que nos tratam como família. A filha de Djimat, Putu, é uma mulher forte e guerreira que recentemente perdeu o marido e cuida da escola e dos 3 filhos. No nosso primeiro dia na escola fomos com ela para uma cerimônia no templo de Batuan. Ela nos deu as roupas que deveríamos usar, levou nossas oferendas e nos explicou um pouco sobre todo o ritual. Certo ponto ela me disse: agora é o momento que você pede e ou agradece à Deus e fechou os olhos. Eu fechei os meus, lembro que a primeira coisa que veio na minha cabeça foi: Obrigada! Obrigada por estar aqui, obrigada pela oportunidade única que estou tendo, obrigada por poder viver isso tudo, e pensei, já que estou aqui, o que gostaria de pedir? Logo me veio a resposta: que eu possa voltar e logo para poder viver mais momentos como esses. Se o pedido vem do coração tenho certeza que será realizado, basta confiar!

04072019-pbali7Mateus e I Made Djimat.

Em Bali também passeamos um bocado por diversos pontos da ilha, mas o foco desse post não é o turismo. Existem milhares de blogs e sites onde pode-se encontrar dicas dos melhores locais para turistar em Bali e nas nossas redes sociais pessoais (Instagram @mateusoferrari e @janinedecampos) vocês podem encontrar fotos das nossas aventuras turísticas balinesas.

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A dream of Bali

by Janine de Campos

Just as I had a heart call to India, I always felt a call to Bali. At first I thought it was an ego call, after all, it’s easy to imagine yourself living on the island of Bali facing the sea, waking up to the sun smiling at you between the blue of the sea and the sky. Yes, I dreamed about it a lot, and I confess that from time to time I still dream about this peace and tranquility that this scenario brings me. However, after getting to know the Balinese masks, through the actress and director Fabianna de Mello and Souza of Cia Bondrés of Rio de Janeiro, I discovered that the call went beyond, it reached the direct point of the heart and the artistic connection and later found out that it passes very close to my relationship with the Kathakali of India, a spiritual and ritualistic connection with the Gods and this unknown magic which is being able to offer your body so that a spirit can live, be it a powerful God or a fragile human.

My great transformation as an actress came with the Balinese masks workshop Fabianna gave in Curitiba, through Ave Lola Espaço de Criação and when later through her project, I met the master I Made Djimat, who was giving a workshop in Rio de Janeiro (and that I could only enjoy for 2 days, because I was passing through). After that, Fabianna gave another workshops in Curitiba and I got back to this art when we created the theater play “Nuon”. Anyone who knows our history knows that the play is set in Cambodia and I had to do some intense research on the art of some Asian countries to try to find the body and voice of the characters I was creating. I researched a lot about Cambodia, India, China, Korea and of course about dear Bali. In 2016, we had the opportunity to visit Bali as tourists and we took a lesson with Master Djimat. It was only a few hours on a sunny afternoon, long enough to understand that we needed to go back to Asia to study the eastern arts more deeply.

When the universe opened the door to a possibility of living in Indonesia through the Darmasiswa scholarship, my eyes sparkled! This was the opportunity I had dreamed so much, and this was my call to live in Bali for 1 year! We signed up with Bali as our first option, argued how much the study of Balinese masks was in our best interest and knew we had a good chance of getting there. We chose Padangpanjang as a second option because it was formerly a respected arts conservatory in Sumatra. When the result came we were going to Bali, we jumped for joy, but it was short lived, a second result (and this official) relocated us to our second option. There is a reason why things turn out the way they did. Probably what we had to learn in Padangpanjang was more important than what we had to learn in Bali. But we were in Sumatra, thousands of miles from home, and we could not pass up the opportunity to set foot on Balinese lands again. We saved the possible and the impossible, and on the final Darmasiswa scholarship vacation we were able to organize our finances and make our trip possible.

Our destination was certain: the Djimat family’s Tri Pusaka Çakti cultural center in the Balinese artistic heart of Batuan village. I found myself again with Topeng and the Balinese masks and Mateus perfected himself in the Balinese Gamelan (he was already studying in Padanpanjang). My class began in the quiet of 6 am: me, the master, and the rising sun. Me, the master, the sun and every load of teachings a master has in his soul. A great teacher I also saw as human when he was late one day because he had inadvertently slept or when he returned from a performance in his car, put his head on Mateus’s shoulder and took a well-deserved nap before another 4 hours of class he would still give that day. A master who when putting on any mask floats! A master who smiles a lot and takes care of his students. A master who knows a lot and who, even at an advanced age, still works A LOT! These are the people who should inspire us. It is artists like these who should be examples for young actresses and actors, not the false promise of fame and soap operas. These are the true artists, the artists of the soul. More than serving their own egos, they serve the Gods. How not to love people like that, how not to be inspired, how not to want to be an artist, a better person?

Meeting such human beings (and placing my beloved Kathakali Udayakumar guru in the same category) are unique gifts that life can give us. I am very grateful for the opportunity to live even a little with human beings who treat us like family. Djimat’s daughter Putu is a strong, warrior woman who recently lost her husband and looks after the school and her 3 children. On our first day at school we went with her to a ceremony in the Batuan temple. She gave us the clothes we should wear, took our offerings and explained to us a little about the whole ritual. At one point she said to me: Now is the time you ask and or thank God and closed her eyes. I closed mine, I remember the first thing that came into my head was: Thank you! Thank you for being here, thank you for the unique opportunity I’m having, thank you for being able to live it all, and I thought, since I’m here, what would you like to ask? Then the answer came to me: that I may return soon to be able to live more moments like these. If the request comes from the heart I’m sure it will be fulfilled, just trust!

In Bali we also strolled around the island, but the focus of this post is not tourism. There are thousands of blogs and websites where you can find tips of the best places to visit in Bali and on our personal social networks (Instagram @mateusoferrari and @janinedecampos) you can find pictures of our Balinese tourist adventures.

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