Um sonho de Bali

por Janine de Campos
(English version below)

Assim como tive um chamado do coração para a Índia, sempre senti um chamado para Bali. No princípio achava que era um chamado do ego, afinal, é fácil se imaginar morando na ilha de Bali de frente para o mar, acordando com o Sol sorrindo para você entre o azul do mar e do céu. Sim, eu sonhei muito com isso, e confesso que de vez em quando ainda sonho com essa paz e tranquilidade que esse cenário me traz. Porém, depois de conhecer as máscaras balinesas, através da atriz e diretora Fabianna de Mello e Souza da Cia Bondrés do Rio de Janeiro descobri que o chamado ia além, ele chegava no ponto direto do coração e da conexão artística e mais tarde descobri que passa bem perto da minha relação com o Kathakali da Índia: uma conexão espiritual e ritualística com os Deuses e com esse desconhecido que é poder doar seu corpo para que um espírito possa viver, seja ele um Deus poderoso ou um humano cheio de fragilidades.

montagem bali-01Encontros com Djimat em Bali. Em 2016 e 2019.

Minha grande transformação como atriz veio com a oficina que a Fabianna deu em Curitiba, através da Ave Lola Espaço de Criação e um tempo depois através de um projeto dela, conheci o mestre I Made Djimat, que estava ministrando uma oficina no Rio de Janeiro (e que eu só pude aproveitar por 2 dias, pois estava de passagem). Depois disso, a Fabianna voltou a dar mais umas oficinas em Curitiba e voltei a ter o contato com essa arte quando fomos criar o espetáculo “Nuon”. Quem conhece nossa história sabe que o espetáculo se passa no Camboja e eu tive que fazer uma pesquisa intensa sobre a arte de alguns países asiáticos para tentar encontrar o corpo e a voz dos personagens que estava criando. Pesquisei muito sobre o Camboja, Índia, China, Coréia e é claro sobre a querida Bali. Em 2016, tivemos a oportunidade de visitar Bali como turistas e aproveitamos para fazer uma aula com o mestre Djimat. Foram só algumas horas em uma tarde ensolarada, o suficiente para entendermos que precisávamos voltar para a Ásia para estudar com mais profundidade as artes do oriente.

04072019-pbali4I Made Djimat e Janine.

Quando o universo nos abriu a porta para uma possibilidade de morar na Indonésia através da bolsa Darmasiswa, meus olhos brilharam! Essa era a oportunidade que eu tanto sonhava, e esse era meu chamado de morar em Bali por 1 ano! Nos inscrevemos colocando Bali como primeira opção, argumentamos o quanto o estudo das máscaras balinesas era de nosso interesse e sabíamos que tínhamos boas chances de conseguir ir para lá. Escolhemos como segunda opção, Padangpanjang, pois antigamente era um respeitado conservatório de artes em Sumatra. Quando saiu o resultado estávamos indo para Bali, pulamos de alegria, mas durou pouco. Um segundo resultado (e esse oficial) nos realocou para nossa segunda opção. Existe um porquê das coisas saírem do jeito que saíram. Provavelmente o que tínhamos que aprender em Padangpanjang era mais importante do que o que tínhamos a aprender em Bali nesse momento de nossas vidas. Porém, estávamos em Sumatra, a milhares de quilômetros de casa e não podíamos deixar passar a oportunidade de por nossos pés em terras balinesas novamente. Economizamos o possível e o impossível e nas férias finais da bolsa Darmasiswa conseguimos organizar e viabilizar nossa ida.

30062019-pbali3Performance de I Made Djimat em um pequeno templo no centro de Bali. 

Nosso destino era certo: o centro cultural Tri Pusaka Çakti, da família do Djimat, na vila de Batuan, coração artístico balinês. Eu me reencontrei com o Topeng e as máscaras balinesas e o Mateus se aperfeiçoou no Gamelão Balinês (ele já estava estudando em Padanpanjang). Minha aula começava no silêncio das 6h da manhã: eu, o mestre e o Sol nascendo. Eu, o mestre, o Sol e toda carga de ensinamentos que um mestre tem em sua alma. Um grande mestre que eu também percebi humano quando um dia se atrasou porque dormiu sem querer ou que na volta de uma apresentação dele, no carro, encostou a cabeça no ombro do Mateus e tirou uma soneca tão merecida antes de mais 4 horas de aula que ainda daria naquele dia. Um mestre que ao colocar qualquer máscara flutua! Um mestre que sorri muito e que cuida de seus alunos. Um mestre que sabe muito e que, mesmo com a idade já avançada, ainda trabalha MUITO! São pessoas como essas que deveriam nos servir de inspiração. São artistas como esses que deveriam ser exemplos para atrizes e atores jovens, não a falsa promessa da fama e novelas. Esses são os verdadeiros artistas, os artistas da alma. Mais do que servir ao seus próprios egos, eles servem aos Deuses. Como não amar pessoas assim, como não se inspirar, como não querer ser um artista, uma pessoa melhor?

03072019-pbali2Momento vida real: sentados no meio-fio esperando o transporte após um festival.

Encontrar com seres humanos como esses (e coloco na mesma categoria o meu amado guru de Kathakali Udayakumar) são presentes únicos que a vida pode nos dar. Tenho muita gratidão pela oportunidade de conviver, nem que seja um pouquinho, com seres humanos como esses, que nos tratam como família. A filha de Djimat, Putu, é uma mulher forte e guerreira que recentemente perdeu o marido e cuida da escola e dos 3 filhos. No nosso primeiro dia na escola fomos com ela para uma cerimônia no templo de Batuan. Ela nos deu as roupas que deveríamos usar, levou nossas oferendas e nos explicou um pouco sobre todo o ritual. Certo ponto ela me disse: agora é o momento que você pede e ou agradece à Deus e fechou os olhos. Eu fechei os meus, lembro que a primeira coisa que veio na minha cabeça foi: Obrigada! Obrigada por estar aqui, obrigada pela oportunidade única que estou tendo, obrigada por poder viver isso tudo, e pensei, já que estou aqui, o que gostaria de pedir? Logo me veio a resposta: que eu possa voltar e logo para poder viver mais momentos como esses. Se o pedido vem do coração tenho certeza que será realizado, basta confiar!

04072019-pbali7Mateus e I Made Djimat.

Em Bali também passeamos um bocado por diversos pontos da ilha, mas o foco desse post não é o turismo. Existem milhares de blogs e sites onde pode-se encontrar dicas dos melhores locais para turistar em Bali e nas nossas redes sociais pessoais (Instagram @mateusoferrari e @janinedecampos) vocês podem encontrar fotos das nossas aventuras turísticas balinesas.

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A dream of Bali

by Janine de Campos

Just as I had a heart call to India, I always felt a call to Bali. At first I thought it was an ego call, after all, it’s easy to imagine yourself living on the island of Bali facing the sea, waking up to the sun smiling at you between the blue of the sea and the sky. Yes, I dreamed about it a lot, and I confess that from time to time I still dream about this peace and tranquility that this scenario brings me. However, after getting to know the Balinese masks, through the actress and director Fabianna de Mello and Souza of Cia Bondrés of Rio de Janeiro, I discovered that the call went beyond, it reached the direct point of the heart and the artistic connection and later found out that it passes very close to my relationship with the Kathakali of India, a spiritual and ritualistic connection with the Gods and this unknown magic which is being able to offer your body so that a spirit can live, be it a powerful God or a fragile human.

My great transformation as an actress came with the Balinese masks workshop Fabianna gave in Curitiba, through Ave Lola Espaço de Criação and when later through her project, I met the master I Made Djimat, who was giving a workshop in Rio de Janeiro (and that I could only enjoy for 2 days, because I was passing through). After that, Fabianna gave another workshops in Curitiba and I got back to this art when we created the theater play “Nuon”. Anyone who knows our history knows that the play is set in Cambodia and I had to do some intense research on the art of some Asian countries to try to find the body and voice of the characters I was creating. I researched a lot about Cambodia, India, China, Korea and of course about dear Bali. In 2016, we had the opportunity to visit Bali as tourists and we took a lesson with Master Djimat. It was only a few hours on a sunny afternoon, long enough to understand that we needed to go back to Asia to study the eastern arts more deeply.

When the universe opened the door to a possibility of living in Indonesia through the Darmasiswa scholarship, my eyes sparkled! This was the opportunity I had dreamed so much, and this was my call to live in Bali for 1 year! We signed up with Bali as our first option, argued how much the study of Balinese masks was in our best interest and knew we had a good chance of getting there. We chose Padangpanjang as a second option because it was formerly a respected arts conservatory in Sumatra. When the result came we were going to Bali, we jumped for joy, but it was short lived, a second result (and this official) relocated us to our second option. There is a reason why things turn out the way they did. Probably what we had to learn in Padangpanjang was more important than what we had to learn in Bali. But we were in Sumatra, thousands of miles from home, and we could not pass up the opportunity to set foot on Balinese lands again. We saved the possible and the impossible, and on the final Darmasiswa scholarship vacation we were able to organize our finances and make our trip possible.

Our destination was certain: the Djimat family’s Tri Pusaka Çakti cultural center in the Balinese artistic heart of Batuan village. I found myself again with Topeng and the Balinese masks and Mateus perfected himself in the Balinese Gamelan (he was already studying in Padanpanjang). My class began in the quiet of 6 am: me, the master, and the rising sun. Me, the master, the sun and every load of teachings a master has in his soul. A great teacher I also saw as human when he was late one day because he had inadvertently slept or when he returned from a performance in his car, put his head on Mateus’s shoulder and took a well-deserved nap before another 4 hours of class he would still give that day. A master who when putting on any mask floats! A master who smiles a lot and takes care of his students. A master who knows a lot and who, even at an advanced age, still works A LOT! These are the people who should inspire us. It is artists like these who should be examples for young actresses and actors, not the false promise of fame and soap operas. These are the true artists, the artists of the soul. More than serving their own egos, they serve the Gods. How not to love people like that, how not to be inspired, how not to want to be an artist, a better person?

Meeting such human beings (and placing my beloved Kathakali Udayakumar guru in the same category) are unique gifts that life can give us. I am very grateful for the opportunity to live even a little with human beings who treat us like family. Djimat’s daughter Putu is a strong, warrior woman who recently lost her husband and looks after the school and her 3 children. On our first day at school we went with her to a ceremony in the Batuan temple. She gave us the clothes we should wear, took our offerings and explained to us a little about the whole ritual. At one point she said to me: Now is the time you ask and or thank God and closed her eyes. I closed mine, I remember the first thing that came into my head was: Thank you! Thank you for being here, thank you for the unique opportunity I’m having, thank you for being able to live it all, and I thought, since I’m here, what would you like to ask? Then the answer came to me: that I may return soon to be able to live more moments like these. If the request comes from the heart I’m sure it will be fulfilled, just trust!

In Bali we also strolled around the island, but the focus of this post is not tourism. There are thousands of blogs and websites where you can find tips of the best places to visit in Bali and on our personal social networks (Instagram @mateusoferrari and @janinedecampos) you can find pictures of our Balinese tourist adventures.

Jeritan Ibu Pertiwi – Parte 4

Nos palcos do Oriente

por Mateus Ferrari

(English version below)

Um palco é um palco. Não importa o país, a cor, o material do piso, a estrutura, etc. Um palco é um palco nos enormes teatros da Broadway e nas pequenas vilas da Índia. O palco é o templo. É o meio de transporte para novas realidades, um portal para novos universos. Felizes e honrados são aqueles que fazem por merecer mostrar sua arte no palco.

Padang, 29 de março de 2019

Estávamos trabalhando no espetáculo há mais de 4 meses quando Yusril Katil foi convidado para participar do Festival de teatro da Universitas Negeri, em Padang, capital da província de Sumatra Ocidental. Entre diversos espetáculos que ele dirigiu, ele nos convidou para participar. Como citamos nos posts anteriores, o espetáculo ainda não estava pronto e seria apresentado como um work-in-progress. Nas 2 semanas entre o convite e a data de apresentação, focamos no trabalho de acabamento das cenas e adequação da dramaturgia para esta “versão reduzida” do nosso espetáculo.

29032019-DSC_1775Cena de Jeritan Ibu Pertiwi em Padang.

Chegou o dia da apresentação. Fomos logo cedo para Padang e logo começamos a montagem. O combinado seria que nossa equipe de alunos cuidaria do cenário e da luz e nós, músico e atriz, só participaríamos da passagem de som. Minha experiência em eventos anteriores aqui na Indonésia não me deixou acreditar nesse processo. Logo no começo da montagem, problemas. Nosso cenário eram somente 5 tecidos que iam do chão ao teto, intercalados (3 à frente, 2 no fundo), mas aqui não há planejamento nem conferência de plantas cênicas e a equipe começou a pendurar os tecidos de maneira completamente aleatória, sem medição. Como eu havia imaginado, tive de coordenar a montagem. Uma conversa de 5 minutos durante uma pausa para o cigarro (80% das pessoas fumam por aqui), medições improvisadas, 2 ou 3 desenhos básicos num papel e todos entenderam como proceder com o trabalho. 5 minutos que economizaram uma hora de trabalho, com todo mundo sabendo o que fazer e como fazer.

Na Indonésia, a iluminação cênica não é uma arte levada muito a sério, um bom exemplo é que nenhum iluminador grava as cenas aqui, é tudo na mão e na maioria das vezes improvisado na hora, com exceção dos grandes grupos artísticos de Jacarta e das produções internacionais que passam por aqui, que trazem seus técnicos e equipamentos. Durante o processo, todas as vezes em que discutíamos sobre a luz a resposta era confusa e indefinida (em um próximo post podemos falar sobre essa característica do povo indonésio). Então já havíamos nos preparado para trabalhar com luz geral e blackouts. Risky, nosso amigo da luz, coordenou a montagem e afinação dos refletores na estrutura do teto do local.

29032019-DSC_1804Cena de dança, com luz do nosso amigo Risky.

Partimos para a montagem da projeção. O combinado com a produção local era montar o projetor em um local alto, para as imagens não atingirem de maneira frontal a Janine no palco. Haviam nos garantido um cabo longo para fazermos isso, mas o tal cabo não existia, o que nos obrigou a montar o projetor na frente do palco e que me forçou a refazer a edição dos vídeos na hora, um desespero total. Ainda não entendi direito como, mas consegui alterar todos os vídeos e adequar para o espaço.

A montagem e passagem do som foi surpreendentemente tranquila e sem muitos percalços, embora atrasada e com boa parte do público já presente… Estávamos prontos. A caótica montagem estava finalizada e no passado. A hora era da arte. Da nossa arte. Do Grito da Mãe Terra (Jeritan Ibu Pertiwi).

29032019-DSC_1830Cena com os tradicionais bonecos Wayang.

A experiência e a vontade de mostrar nosso trabalho nos possibilitou transformar todo o estresse e correira da montagem em energia durante nossa apresentação. O espetáculo começa com uma cena de fuga, a parte mais difícil tecnicamente na música e na coreografia. A gente entrou com tudo, lembro de olhar para a Janine durante a cena (o que eu não conseguia fazer nos ensaios devido à velocidade e complexidade da música que eu criei nos talempongs) e pensar como ela estava linda e precisa nos movimentos. Coisas do palco. Eu sempre tentei usar uma abordagem de ator no meu trabalho de músico no teatro, ou seja, o Mateus do palco faz coisas que o Mateus do dia-a-dia não consegue. O público respondeu bem, os olhos inquietos demonstravam surpresa com a cultura Minangkabau sendo apresentada de maneira totalmente diferente da qual estão acostumados, por dois estrangeiros malucos experimentando com suas melodias, danças e tradições. No final, após aplausos entusiasmados, fizemos um bate-papo para compartilhar um pouco da experiência.

Nosso amigo Rudy fez uma crítica da apresentação para um site local, está em inglês e você pode conferir neste link. 

Alguns meses depois, em uma conversa com os artistas indonésios que colaboraram conosco, eles nos contaram que algumas pessoas ficaram um pouco chocadas com os temas abordados na peça (estupro familiar, casamento arranjado, papel da mulher na sociedade). Adoramos a notícia. Normalmente quem se incomoda com artistas abordando estes assuntos são os que colaboram com a perpetuação destas injustiças. Que se incomodem! Temos orgulho de ter tido a coragem de tocar nesses assuntos, numa sociedade muçulmana conservadora, de maneira poética e artística, inspirada na realidade e nos depoimentos de meninas e mulheres que sofrem com estes absurdos.

29032019-DSC_1887“Você tem mãe? Ela morreu? A minha também. Posso te contar um segredo? Deus não pode estar em todos os lugares, por isso ele criou as mães. Eu vou fugir e ninguém vai me encontrar. Não vou me casar com um homem que não quero. Vou subir lá, no topo do vulcão e quando chegar eu vou ser a Deusa da Dança, minha Bundo Kanduang! Você também tem de casar com alguém que não conhece? Não precisa ficar com medo. Você está seguro, te prometo. Ninguém vai te machucar, tá? Ninguém vai te machucar!”

Padang Panjang, 3 de maio de 2019

Após a apresentação em Padang, retornamos aos ensaios para terminar o espetáculo para a estreia na nossa casa, o Institut Seni Indonesia, em Padang Panjang. Havíamos nos comprometido em não exagerar nas projeções e traquitanas tecnológicas para as novas cenas, até pela experiência caótica na montagem em Padang, mas não conseguimos segurar e de repente tínhamos uma luta com sombra (projeção mapeada) e quase 50 transições de vídeo, para desespero da nossa querida amiga Polina, que além de criar as ilustrações também operava as projeções.

DSC_7310-01Cena de Jeritan Ibu Pertiwi no Institut Seni Indonesia, Padang Panjang.

A agenda original era realizar a apresentação no dia 29 de abril, junto com a cerimônia de encerramento das aulas dos estudantes estrangeiros na universidade. Na manhã deste dia, recebemos a notícia de que os estudantes estavam em greve e fecharam todos os espaços do Campus, protestando contra o reitor e sua decisão de concorrer a um cargo em outra universidade, enquanto o trabalho realizado no ISI Padang Panjang era completamente questionável. Nossa reação inicial foi de choque e decepção, mas após uma reunião com o comitê da greve, entendemos as reinvindicações e manifestamos nosso total apoio ao movimento. Intencionalmente ou não, a escolha da data de início da greve no dia da nossa apresentação (que de certa maneira atriu mais atenção para da mídia local para o ISI, era a peça de teatro dos estrangeiros) foi uma grande sacada.

DSC_7376-01Cena de luta com projeção mapeada.

A semana foi de indefinições e somente no dia 2 de maio à noite, conseguimos reagendar nossa apresentação para o dia seguinte. Haveria também um concerto da orquestra da universidade e uma exposição dos trabalhos dos nossos colegas de bolsa, estudantes estrangeiros de artes plásticas.

DSC_7354O gato, que compartilha da dor e da jornada da personagem Dorva.

Já estávamos mais afinados como equipe de produção e estávamos em casa, o que tornou a montagem bem mais tranquila que a anterior. Montamos e testamos tudo pela manhã. Nosso desafio seria desmontar uma orquestra inteira e trocar o cenário para o nosso espetáculo em 10 minutos. Eu estava desacreditado, mas aconteceu. Obrigado Deuses e Deusas do teatro!

DSC_7337Cena de estupro do espetáculo Jeritan Ibu Pertiwi.

Apagam se as luzes, os apresentadores anunciam ao público “Selamat Menyaksikan!” (algo como “boa apresentação”) e abrem-se as cortinas. No enorme palco do teatro lá estávamos nós novamente, entregando nosso suor e alma para contar uma história, a história de uma e de todas as mulheres, para fazer uma declaração de amor à cultura Minangkabau e um manifesto contra o atraso e o preconceito de gênero da Indonésia, para inspirar, questionar, fazer refletir e acima de tudo para existirmos.

DSC_7345-01“Descobri que tudo aqui é efêmero e pode acabar no próximo minuto, como a erupção de um vulcão, como o Grito da Mãe Terra. Eleve-se, povo Minangkabau! Elevem-se, mulheres da Terra! Não há limites para um coração preenchido de sonhos, amor e paixão pela vida. Eu consegui, eu consegui! Eu sou Dorva, eu sou Bundo Kanduang, sou você, sou ela, sou mulher! Então dance! Aqueles vistos dançando foram considerados insanos pelos que não ouviam a música! Dance! Dance!

Esperamos que tenham gostado desta série sobre o nosso espetáculo, como narramos por aqui foi um processo complexo e cheio de desafios, mas que certamente nos enche de orgulho e felicidade. Nós fizemos um espetáculo de teatro no oriente, sobre o oriente, para os orientais e isso não é nada fácil. Esse tipo de experiência nos enriquece muito artisticamente, como profissionais mas acima de tudo como humanos. Aos amigos artistas que embarcaram na jornada conosco aqui na Indonésia, não há palavras para agradecer a parceria de vocês. Obrigado por acreditar em nós, no nosso trabalho, na nossa arte. Obrigado por conseguir separar as acaloradas discussões durante todo o processo da nossa, agora eterna, amizade. Como disse a vocês, não ousem reservar hotel quando forem ao Brasil. Vocês são de casa.

Tarimo Kasih!

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Jeritan Ibu Pertiwi – Part 4

On the stages of the East

by Mateus Ferrari

A stage is a stage. No matter the country, the color, the material of the floor, the structure, etc. A stage is a stage in the huge Broadway theaters and in the small villages of India. The stage is the temple. It is the road to new realities, a portal to new universes. Happy and honored are those who deserve to show their art on stage.

Padang, March 29, 2019

We were working on the theater play for more than 4 months when Yusril Katil was invited to attend the Universitas Negeri Theater Festival in Padang, capital of West Sumatra province. Amongst various performances he directed, he invited us to participate. As we mentioned in previous posts, the performance was not yet ready and would be presented as a work-in-progress. In the 2 weeks between the invitation and the date of presentation, we focused on the details of the scenes and the suitability of the dramaturgy for this “reduced version” of our play.

The day of the presentation has arrived. We left early for Padang and soon we began the assembly. The plan was that our team of students would take care of the scenery and the light and we, musician and actress, would only participate in the sound testing. My experience in previous events here in Indonesia has not let me believe in this process. Right at the beginning of the assembly, problems. Our scenario was only 5 fabrics that went from floor to ceiling, interspersed (3 front, 2 back), but here there is no planning or scenic blueprints and the team began to hang the fabrics completely randomly without measurement. As I had imagined, I had to coordinate the assembly. A 5-minute conversation during a cigarette break (80% of people smoke around here), improvised measurements, 2 or 3 basic drawings on paper, and everyone understood how to proceed with the job. 5 minutes that saved an hour of work, with everyone knowing what to do and how to do it.

In Indonesia, stage lighting is not an art taken very seriously, a good example is that no illuminator pre-records the scenes here, it’s all done by hand and most of the time improvised, with the exception of the large artistic groups in Jakarta or international productions that come here, that bring their technicians and equipment. During the process, every time we discussed the light the answer was confused and indefinite (in a next post we can talk about this characteristic of the Indonesian people). So we had already prepared ourselves to work with general light and blackouts. Risky, our friend of light, coordinated the mounting and tuning of reflectors on the site ceiling structure.

We continue to set up the projection. The agreement with the local production was to mount the projector in a high place, so that the images did not reach Janine frontally on the stage. They promise a long cable to do this, but the cable did not exist, which forced us to mount the projector in front of the stage and forced me to redo all the editing of the videos, a total despair. I still do not understand how, but I managed to change all the videos and fit them for the space.

The sound testing was surprisingly organized and without many mishaps, although late and with much of the audience already present… We were ready. The chaotic assembly was over and done in the past. The time was for art. For our art. For the Scream of Mother Earth (Jeritan Ibu Pertiwi).

The experience and willingness to show our work enabled us to transform all the stress of the assembly into energy during our presentation. The show begins with an escape scene, the most technically difficult part in music and choreography. We came on fire, I remember that I looked at Janine during the scene (which I could not do in rehearsals due to the speed and complexity of the music I created in the talempongs) and think how beautiful and precise she was in the movements. Miracles of the stage. I have always tried to use an actor approach in my work as a musician in the theater, that is, the stage Mateus does things that the dailly Mateus can not. The public responded well, their restless eyes showing surprise at the Minangkabau culture being presented in a totally different way than they are used to see, by two crazy foreigners experimenting with their melodies, dances and traditions. In the end, after enthusiastic applause, we chatted to share some of the experience.

Our friend Rudy made a review of the presentation for a local site, you can check here.

A few months later, in a conversation with the Indonesian artists who collaborated with us, they told us that some people were a bit shocked by the themes covered in the play (family rape, arranged marriage, the role of women in society). We loved the news. Usually those who bother with artists addressing these issues are those who collaborate in the perpetuation of these injustices. Let them bother! We are proud to have had the courage to talk about these subjects, in a conservative Muslim society, in a poetic and artistic way, inspired by the reality and testimonies of girls and women who suffer from these absurdities.

“You have a mother? She died? Mine too. Can I tell you a secret? God can not be everywhere, so he invented the mothers. I’ll run away, no one will find me. I’m not going to marry some man I do not want! I will climb up there, on top of the volcano and when I get there I will became the God of Dance, my Bundo Kanduang! Do you also have to marry someone you do not know? No, you do not need to be scared! Now you are safe, I promise you, nobody will hurt you, ok? Nobody will hurt you!”

Padang Panjang, May 3, 2019

After the presentation in Padang, we returned to rehearsals to finish the play for the premiere at our home, the Institut Seni Indonesia in Padang Panjang. We had committed ourselves not to exaggerate the projections and technological trachymatics for the new scenes, even by the chaotic experience in the assembly in Padang, but we could not hold back and suddenly we had a fight with shadow (mapped projection) and almost 50 video transitions, to despair of our dear friend Polina, who besides creating the illustrations also operated the projections.

The original schedule was to hold the presentation on April 29, together with the closing ceremony of the foreign students classes at the university. On the morning of this day we received the information that the students were on strike and closed all Campus spaces protesting against the rector and his decision to run for office at another university while the work at ISI Padang Panjang was completely questionable. Our initial reaction was one of shock and disappointment, but after a meeting with the strike committee, we understood the claims and expressed our full support for the movement. Intentionally or not, the choice of the start date of the strike on the day of our presentation (which in some ways attracted more attention from the local media for the ISI, because it was the theater play of the foreigners) was a great idea.

The week was blurry and only on May 2 at night, we were able to reschedule our presentation for the next day. There would also be a concert by the university orchestra and an exhibition of the work of our fellow scholarship friends, foreign students of the fine arts.

We were already more attuned as a production team and we were at home, which made the assembly much easier than the previous one. We set up and tested everything in the morning. Our challenge would be to dismantle an entire orchestra and change the scenery to our show in 10 minutes. I was disheveled, but it happened. Thank you Gods and Goddesses of the theater!

Lights off, the presenters announced to the public “Selamat Menyaksikan!” (something like “have a good time watching”) and the curtains were opened. In the huge stage of the theater, there we were again, surrendering our sweat and soul to tell a story, the story of one and all women, to make a declaration of love to the Minangkabau culture and a manifesto against the backwardness and gender prejudice of Indonesia, to inspire, question, make reflect and above all to exist.

“I have found that everything here is ephemeral and may end in the next minute, like the eruption of a volcano, like the Scream of Mother Earth. I’m Dorva, I’m Bundo Kanduang, I’m you, I’m her, I’m a woman! So dance!” Those who were seen dancing were considered insane by those who did not listen to the music! Dance! Dance!

We hope you have enjoyed this series about our show, as we have narrated here was a complex and challenging process, but it certainly fills us with pride and happiness. We did a theater show in the east, about the east, for the eastern people and this is not easy. This kind of experience enriches us very much artistically, as professionals but above all as humans. To the artist friends who embarked on the journey with us here in Indonesia, there are no words to thank for your partnership. Thank you for believing in us, in our work, in our art. Thank you for separating the heated discussions throughout the process of our, now eternal, friendship. As I said to you, do not dare book a hotel when you go to Brazil. You’re home.

Tarimo Kasih!

Jeritan Ibu Pertiwi – Parte 3

Mais e mais artistas

por Mateus Ferrari
(English version below)

Passado o choque cultural e artístico do início do nosso processo colaborativo, estávamos com o espetáculo caminhando para um resultado interessante, que representava bem a mistura de culturas, técnicas e artistas envolvidos no processo. Conforme relatado no post anterior, havíamos aceitado a ideia de construir a peça para um palco grande. Surgiu daí a necessidade de pensar em uma forma de preencher este palco e “vesti-lo” com as características visuais da cultura Minangkabau. A intenção era ser o mais minimalista possível, pois tínhamos a possibilidade de viajar para algumas cidades da Indonésia (o que acabou não acontecendo por motivos políticos e burocráticos) e queríamos economizar o máximo no tamanho do cenário e adereços para viabilizar esta possível turnê.

Ativo 1-100Conceito para o cenário do espetáculo…

Em uma das cenas a personagem luta contra uma sombra criada através de uma projeção mapeada, ou seja, teríamos um projetor no espetáculo. A partir disso, decidimos utilizar algumas ilustrações como fundo nas cenas. A decisão na escolha do artista visual foi fácil: nossa amiga e grande artista russa Polina Buchenkova. Polina é nossa colega de bolsa aqui em Padangpanjang, ela escolheu estudar as artes visuais enquanto nós optamos pelas artes performáticas. Como somos do “bonde da cervejinha” entre os alunos, a conversa foi fácil e direta: – Precisamos de uns desenhos para o cenário do espetáculo, não temos dinheiro, estamos fazendo esta produção na raça e somos fãs da sua arte, topa participar? Com seu senso de humor único e o característico sotaque russo ela respondeu: “Yes, I don´t have nothing better to do, you know…”.

DSC_7306… cena do espetáculo, com cenário e projeção.

Era mais uma grande artista embarcando no nosso processo. Eu fico pensando o que a gente tem que faz as pessoas acreditarem nas nossa ideias malucas, deve ser o jeito expansivo e zoeiro do brasileiro, só pode. Procurei passar as direções e conceitos das ilustrações para a Polina e deixá-la com a maior liberdade possível para que a criatividade e talento dela florescessem. Além das ilustrações, Polina também seria a responsável pela operação das projeções nas apresentações em conjunto com outro grande amigo: o indonésio Willy Andika, que por ser um grande músico iria auxiliá-la nas deixas de troca de projeções que eram precisas com a música. Cabe aqui também agradecer ao Willy por me emprestar o teclado Midi que usei na gravação das músicas do espetáculo. Salvou minha vida!

4 - WaveDesenho de Polina Buchenkova para o espetáculo.

Conforme citado anteriormente, precisávamos também de um artista para a cena de luta. Outra escolha simples: nosso amigo James Tiana, de Madagascar – África. Nas aulas de Silat ele sempre foi, de longe, o melhor entre nós, com uma facilidade incrível em memorizar e reproduzir com precisão as inúmeras sequências de ataques, defesas e transições características desta complexa arte marcial. Agendamos então uma tarde no teatro para gravar a cena. O plano inicial era utilizar um pano branco com uma luz no fundo para gravar a sombra do lutador. Mas aqui tudo é difícil e não havia nem pano nem refletores disponíveis, teríamos que escrever uma carta para o reitor e esperar e blá-blá-blá. Partimos então para o plano B, conseguimos um projetor emprestado e decidimos gravar de frente, projetando uma luz branca no ciclorama do teatro. Isso dificultou muito a minha edição do material, mas foi possível chegar a um bom resultado. No dia da gravação, nosso tempo no teatro foi reduzido de 4 horas para 1 hora, pois haveria outra gravação (agendada mesmo sabendo-se que gravaríamos durante a tarde toda) e a preferência é sempre dos alunos locais. Precisávamos do palco totalmente escuro e pasmem, para desligar a luz demorou meia-hora até encontrarem o técnico que sabia onde apagar as luzes. Quando finalmente estávamos prontos para gravar, tínhamos 30 minutos.

DSC_2005James Tiana gravando cenas de luta para o espetáculo.

A gravação foi apressada e intensa, o que fez nosso amigo James passar mal devido ao calor e a falta de descanso entre os takes. Mas o espírito de luta dos africanos o fez ir adiante e conseguimos o take perfeito. James, poucos tem a sua energia e companheirismo. Dedicar-se com tudo a um projeto que não é seu não é para todo mundo. Obrigado Amigo.

IMG_20190526_205606_212James, Janine, Mateus, Polina e Willy curtindo o descanso após as apresentações.

Para fechar a apresentação da equipe, temos os alunos do curso de teatro. Todos muito jovens (entre 18 e 21 anos) cheios de energia e prontidão para nos ajudar. Durante o processo nos ajudavam com a montagem do palco para os ensaios e também com adereços e figurinos. Eles trabalham muito duro, porém é nítido que o curso de teatro não oferece um conteúdo aprofundado relacionado à produção, até pela maneira como as apresentações artísticas são realizadas na Indonésia. Aqui não se gasta tempo planejando, decide-se e faz-se tudo na hora, o que obviamente traz uma série de problemas, que não incomodam o povo local, mas que para nós interferem na qualidade da produção e consequentemente da apresentação. Pouco a pouco conseguimos estabelecer alguns parâmetros para a organização do trabalho e passamos para eles nossa experiência no planejamento e execução de produções teatrais. Foi nítida a evolução do trabalho deles e esperamos que os conhecimentos que compartilhamos possam auxiliá-los em seus próximos projetos.

Nosso muito obrigado para Yeni Wahyuni (direção de palco), Junari Adi Saputra (cenotécnico), Muhammad Haikal (adereços), Rahmi Lestari (adereços), Risky Fahclevi (iluminação), Rahma Dona (maquiagem e figurinos), Aulia Firm Gusra (som), Tiara Larassati (equipamentos) e aos outros alunos que colaboraram conosco durante o processo.

DSC_1891Equipe no palco após apresentação em Padang.

Para finalizar, ainda falando sobre os alunos de teatro, me orgulhou muito ver a forma como eles organizaram e lideraram os protestos contra o reitor da universidade, buscando na garganta soluções para os diversos problemas da instituição. Pelo contrato da bolsa de estudos, nós não podemos participar de manifestações e atividades políticas, mas disfarçadamente consegui demonstrar meu apoio à causa e aos alunos nos dias de manifestações. Espero realmente que as coisas melhorem e que os alunos tenham melhores condições de estudo aqui no ISI Padangpanjang.

No próximo e último capítulo desta série, vamos falar sobre as apresentações do espetáculo no Festival de Teatro de Padang e no campus do Institut Seni Indonesia Padangpanjang.

(Continua no próximo post).

Jeritan Ibu Pertiwi – Part 3

More and more artists

by Mateus Ferrari

After the cultural and artistic shock of the beginning of our collaborative process, the theater play was moving towards an interesting result, which represented well the mixture of cultures, techniques and artists involved in the process. As reported in the previous post, we had accepted the idea of building the play for a big stage. There arose the need to think of a way to fill this stage and “dress it” with the visual characteristics of the Minangkabau culture. The intention was to be as minimal as possible because we had the possibility to travel to some cities of Indonesia (which did not happen because of political and bureaucratic reasons) and we wanted to save the maximum on the size of the scenery and props to make this possible tour possible.

In one of the scenes the character fights against a shadow created through a mapped projection, that is, we would have a projector in the play. From that, we decided to use some illustrations as background in the scenes. The decision in choosing the visual artist was easy: our friend and great Russian artist Polina Buchenkova. Polina is our colleague here in Padangpanjang, she chose to study the visual arts while we opted for the performing arts. As we are in the “beer crew” among the students, the conversation was easy and straightforward: – We need some drawings for the scenery of the play, we do not have money, we are doing this production all by ourselves and we are fans of your art, do you want to join us? With her unique sense of humor and the characteristic Russian accent she replied, “Yes, I do not have anything better to do, you know …”.

She was another great artist embarking on our process. I keep thinking what we have that makes people believe in our crazy ideas, it must be the Brazilian’s expansive and funny way, I guess. I tried to brief the directions and concepts of the illustrations to Polina and leave her with as much freedom as possible for her creativity and talent to flourish. In addition to the illustrations, Polina would also be responsible for the operation of the projections in the performance along with another beloved friend: Willy Andika, who as a great musician would assist her in the changes of projections that were accurate with the music. It is also my pleasure to thank Willy for lending me the Midi keyboard I used to record the songs of the play. He saved my life!

As mentioned earlier, we also needed an artist for the fight scene. Another simple choice: our friend James Tiana from Madagascar. In Silat classes he has always been by far the best among us, with an incredible facility in memorizing and accurately reproducing the innumerable sequences of attacks, defenses and transitions characteristic of this complex martial art. We then scheduled an afternoon at the theater to record the scene. The initial plan was to use a white fabric with a light in the background to record the shadow of the fighter. But here everything is difficult and there was neither fabric nor reflectors available, we would have to write a letter to the dean and wait and blah blah blah. We then set out for Plan B, got a borrowed projector, and decided to record from the front, projecting a white light into the theater’s cyclorama. This made it very difficult for me to edit the material, but it was possible to achieve a good result. On the day of recording, our time in the theater was reduced from 4 hours to 1 hour, because there would be another recording (scheduled even though everybody knew that we would record all afternoon) and the preference is always of the local students. We needed the stage totally dark and it can seem a lie, but to turn off the light it took half an hour until they found the technician who knew where to turn off the lights. When we were finally ready to record, we had 30 minutes.

The recording was rushed and intense, which made our friend James go bad due to the heat and the lack of rest between takes. But the fighting spirit of the Africans made him go ahead and we got the perfect take. James, few people have your energy and companionship. Dedicating yourself to a project that is not yours is not for everyone. Thank you friend.

To close the presentation of the team, we have the students of the theater course. All very young (between 18 and 21 years old) full of energy and readiness to help us. During the process they helped us with the assembly of the stage for the rehearsals and also with props and costumes. They work very hard, but it is clear that the theater course does not offer in-depth content related to production, probably by the way the artistic presentations are held in Indonesia. Here time is not spent planning, everything is decided on time, obviously bringing a series of problems, which do not bother the local people, but for us interfere in the quality of the production and consequently the performance. Step by step we were able to establish some parameters for the organization of the work and we passed on to them our experience in the planning and execution of theatrical productions. The evolution of their work was clear and we hope that the knowledge we share can help them in their next projects.

Our thanks to Yeni Wahyuni (stage direction), Junari Adi Saputra (cenotechnician), Muhammad Haikal (props), Rahmi Lestari (props), Risky Fahclevi (lighting), Rahma Dona (makeup and costumes), Aulia Firm Gusra (sound), Tiara Larassati (equipment) and all the other students who collaborated with us during the process.

Finally, still talking about the students of theater, I was very proud to see how they organized and led the protests against the university rector, seeking with their voices solutions to the various problems of the institution. By the scholarship contract, we can not participate in demonstrations and political activities, but I covertly demonstrated my support for the cause and the students in the days of demonstrations. I really hope things get better and that students have better conditions of study here at ISI Padangpanjang.

In the next and last chapter of this series, we will talk about the performances of the play at the Padang Theater Festival and at the campus of the Institut Seni Indonesia Padangpanjang.

(To be continued)

Jeritan Ibu Pertiwi – Parte 2

Corrida de obstáculos

por Janine de Campos
(English version below)

Cada vez mais descobrimos que a vida é feita de escolhas. Parece uma frase de caminhão, mas a realidade é essa mesma. E quando você faz uma escolha quer dizer que você tem que abdicar de algo para obter outro algo. Nessa nossa escolha de embarcar num processo de criação teatral nós tivemos que deixar de viajar nas férias, de beber nossa cerveja no fim de semana, de comer as coisas mais caras (porque sabíamos que tínhamos que guardar o máximo de dinheiro para o que a obra pedisse), de dormir até tarde e de ter uma vida confortável. Sabíamos que a outra escolha era “mais prazerosa”, mas nós, artistas que somos, tínhamos sede de criar.

PP05-1Em um dos raros momentos em que tivemos uma sala para ensaiar, no começo do processo.

Além de não fazer parte do time dos “que tinham prazeres”, logo no começo já entendemos que teríamos  muitos obstáculos para enfrentar. Já ouvi muitas reclamações sobre o Brasil ser um país burocrático, onde tudo demora e temos que ter paciência. Vocês não tem ideia do que é a Indonésia. Enquanto na Índia um dos meus maiores aprendizados foi em relação ao tempo, aqui na Indonésia o meu maior aprendizado é sobre: PACIÊNCIA e como consequência, RESILIÊNCIA.

Nosso primeiro obstáculo foi encontrar um local para começar os ensaios. Nossa coordenadora nos informou que teríamos que fazer uma carta com o pedido de sala endereçada ao reitor da Universidade, que deveria assinar e então passar para o departamento de teatro, para então chegar a liberação no departamento internacional (que trata dos assuntos dos estrangeiros). Fizemos a carta em novembro, para conseguir uma sala que pudéssemos usar em dezembro e janeiro, durante as nossas férias. Enquanto não tínhamos resposta, resolvi tentar a sorte em alguns horários alternativos. Acordava cedo e assim que via uma sala de dança livre já tomava meu lugar, mas logo já chegava alguém informando que em 10 minutos iria começar a aula ou os alunos locais iriam utilizar para ensaio. Os horários das aulas eram confusos e não havia uma rotina lógica. Tive experiências com alunas de dança mais velhas que foram super arrogantes (o que comprova que esse tipo de pessoa, que trabalha com o ego inflado existe em todos os cantos do mundo, mesmo na Ásia).

PP05-2Janine ensaiando e no fundo a “gata porteira” assegurando-se que ninguém entrasse na nossa sala.

Foi assim, durante as férias inteiras. Pulando de sala em sala. Mas logo no começo as Deusas do teatro já começaram a “dar as caras”. No primeiro dia de ensaio estava sozinha na sala, com a porta aberta e uma gata entrou e ficou me observando. Quando terminei, sentei e ela se aproximou de mim, subiu no meu colo e ali ficou. Eu me emocionei pois no espetáculo a personagem conta seus problemas para uma gata que ela encontrou em seu caminho durante uma tempestade. Coincidentemente, ou como eu acredito, “destinamente”, eu e o Mateus salvamos 4 filhotes de gatos que estavam morrendo após uma forte tempestade no último dia de 2018. Passamos a virada do ano sozinhos na varanda da minha casa, eu, o Mateus e 4 filhotes de gatos que transformaram nosso ano novo com apenas 1 fogo de artifício numa diversão pura! Acredito realmente que as Deusas estavam do nosso lado.

Sabíamos que tínhamos a benção das Deusas, mas a burocracia não estava facilitando nossa vida, era clara a necessidade de aprender um pouco mais sobre paciência. Nossa coordenadora foi fazer um curso fora da cidade e ficou 2 meses sem aparecer, o que atrasou, e muito, nossa saga da sala. Só após a chegada dela, na metade de janeiro que a liberação foi autorizada e como ela sabia de nossos anseios e talvez até como um pedido de desculpas pela demora, o que ela nos deu de presente para o ensaio foi: o teatro. Lembro que ficamos muito felizes de ter um espaço em que poderíamos guardar as coisas e ainda poder ter a energia de um teatro para trabalhar. O teatro era grande e como queríamos fazer uma coisa mais intimista, não fomos direto para o palco, pois para nós, o palco é sagrado e só iríamos para lá quando tivéssemos o direito de pisar nele. Começamos a ensaiar num corredor com espelhos atrás do palco, o que facilitava a minha direção coreográfica. O melhor horário era bem cedo, pois nos dias de evento os estudantes poderiam chegar e atrapalhar o andamento.

PP05-4Testando adereços e figurinos Minagkabau.

Assim, todos os dias ao amanhecer estávamos lá, eu e o Mateus, inventando, criando, recriando, tentando entender como seria esse novo processo para a gente. Comecei criando uma base coreográfica de desenho de corpo (vindo dos ensinamentos do Eugenio Barba que tenho experienciado nos últimos anos) estimulado pelas visões e estados que a dramaturgia trazia (método do Théâtre du Soleil). O Mateus aos poucos, a cada dia, ia trazendo a música e a musicalidade da cena para a composição. Tínhamos um rascunho de 3 cenas quando nossa coordenadora chegou para assistir um ensaio e entender o que esses “bulês” obcecados estavam inventando. Ela assistiu só o final da terceira cena e resolver fazer uma ligação, dizendo para que esperássemos antes de mostrar o processo do começo. Nessa ligação ela convidou o diretor teatral Yusril Katil para assistir o trabalho pois achou que poderia interessá-lo.

PP05-6Ensaio com protótipos de bonecos javaneses, wayang.

Katil é um diretor que trabalha principalmente com teatro físico e desde o começo dos estudos por aqui já me falaram que deveríamos conhecê-lo pois nossos estilos de  trabalho se aproximavam. Certa vez a coordenadora me chamou para assistir um ensaio de um espetáculo que ele estava fazendo até para saber se eu não queria participar (ele gosta muito de trabalhar o interculturalismo). Eu fui assistir e cheguei a conclusão que os atores deles eram tão bons fisicamente, que tinham um corpo tão preparado e tão Minangkabau, que ia demorar um bom tempo para que eu me igualasse à eles (ou seja, pensei que não era boa o suficiente para o que ele precisava). Me arrependi depois, em ter dito não, talvez por medo, talvez eu devesse arriscar já que é para isso que eu estava aqui, mas eu sabia que a data para a apresentação era próxima, então teria que parar tudo que estava fazendo só para me dedicar a isso (o que atrapalharia meus estudos). Me lembro que pensei que gostaria muito de trabalhar com ele. E como as Deusas tem uma audição apurada: lá estava ele naquele dia, assistindo o que eu e o Mateus havíamos criado até o momento.

PP05-8Mateus ensaiando, tocando os gongos de Sumatra, os talempongs.

Logo que acabou o ensaio, sentamos para conversar, ele não fala inglês, e ainda não sabíamos muito de indonésio. Tintun, a coordenadora, fez a tradução/mediação. Ele fez observações sobre o que viu, disse que para ele era bem contemporâneo, que tinha a essência do tradicional com um novo olhar e que gostaria de fazer parte do processo. Começou, naquele momento, uma nova etapa da nossa criação: a colaboração entre artistas de diferentes países, que não falam a mesma língua, trabalhando juntos para a construção de uma obra de arte.

No outro dia Tintun convidou um outro amigo dela, um professor e bailarino, cujo trabalho conhecemos quando assistimos sua performance de dança na primeira semana, (segundo o Mateus, uma das melhores danças que ele assistiu na vida dele), e realmente ele era fantástico, lembro de pensar pensar: “nossa! Que corpo! queria poder saber dançar como ele”!. E eis que as Deusas nos escutaram de novo e, Ali Sucri, que também não falava nenhum pouco de inglês, seria mais um colaborador da obra para trabalhar as coreografias e as técnicas corporais tradicionais.

PP05-5Janine trabalhando na construção de desenhos corporais Minagkabau.

“Que responsabilidade”, eu pensava e “que honra, que benção das Deusas, que oportunidade”!. Sim, foi uma oportunidade única na vida! Dessas que trazem muitos aprendizados e muita história para contar. Não pensem que tudo foi um “mar de rosas”, não foi mesmo! O primeiro problema que tivemos foi agenda, os 3 envolvidos eram professores e grandes artistas, logo estavam sempre cheios de compromissos. A gente tinha nossas aulas e o teatro tinha limite de horários (em algumas oportunidades o teatro era fechado para o responsável ir rezar na mesquita). Era sempre uma incógnita, não sabíamos se criávamos sozinhos com a possibilidade deles chegarem e mudarem tudo ou se esperávamos eles aparecerem. A coisa só ficou mais constante quando Katil foi convidado para apresentar um espetáculo dele em um Festival de Teatro numa Universidade em Padang (capital da província) e escolheu a gente para apresentar. Junto com isso, Tintun fez com que os alunos do curso de teatro acompanhassem o processo e ajudassem nas necessidades técnicas como parte das aulas no semestre. Como a apresentação estava super próxima (tínhamos cerca de 2 semanas) decidimos em conjunto apresentar só uma parte da dramaturgia, como um work-in-progress, assim poderíamos dedicar este tempo para detalhar o que havíamos criado e deixar o mais redondo possível.

Tivemos vários debates e diferenças, principalmente por 2 motivos: o primeiro relacionado à dificuldade de comunicação. Não era sempre que tínhamos alguém para traduzir o que era dito, então muito do diálogo que deve ser feito em qualquer processo de criação se perdeu nessa confusão. Por ser um teatro baseado no físico, nos entendíamos através de apontamentos feitos na prática, no próprio corpo, já que Katil cuidava da direção e Sucri das coreografias. O segundo ponto de discordância era diretamente relacionado à linguagem teatral. Viemos de um teatro em que a musicalidade da cena e principalmente a “urgência” são as bases de trabalho. Para nós, o espetáculo é uma grande orquestra ritmada e quando há lentidão nas cenas, esta precisa ser bem justificada e com o estado dilatado. Eles adoram uma lentidão! Assistimos muitos espetáculos aqui em que a dançarina atravessava o palco (que é bem grande) num ritmo absurdamente lento, e víamos a maioria da plateia aproveitar a oportunidade para checar os celulares e pensar nos problemas da vida. Esse era nosso maior medo. No começo deixamos fluir para ver aonde iriam chegar e o que podíamos aprender com essa dificuldade, mas chegou o momento que tivemos que falar sobre essa diferença e, apesar de saber que eles não estavam 100% satisfeitos, chegamos ao meio termo, ou ao que almejamos em todos os aspectos da vida, ao equilíbrio.

PP05-9A equipe do espetáculo Jeritan Ibu Pertiwi debatendo após o ensaio.

Acho que foi um pouco sofrido para os dois lados. Nós queríamos algo intimista, pequeno, em que a plateia pudesse olhar nos olhos da personagem, afinal, seria apenas uma atriz e um músico em cena. Eles, como já vimos em suas apresentações anteriores, gostavam da ideia de ser algo grande (por ser bem físico), largo. Após bastante sofrimento e relutância, chegou um ponto em que eu e o Mateus nos deixamos levar pela experiência. Deixamos de lado a ideia que imaginávamos para mergulhar na colaboração, para trocar, para aprender. Deixamos de lado o que era o nosso jeito “certo” de trabalhar para ir de encontro com o que é “certo” para eles. Quem disse que o nosso jeito é o “certo”? Quem disse que o deles é o “certo”? Esse é o grande aprendizado dessa jornada: desapegar de nossas crenças de certo e errado e deixar-nos guiar pela experiência única que estávamos tendo a oportunidade de ter, ou seja, viver o processo.

Tenho muito orgulho dessa experiência e muito carinho e gratidão por todos aqueles que fizeram parte dela, que acreditaram no trabalho de dois “bules kacau” (gringos loucos), que dedicaram seu tempo e seu trabalho à criação de uma obra de arte, que deram a “cara para bater”, pois o espetáculo é uma crítica a alguns costumes da sociedade em que eles vivem, que colocaram sua alma nesse projeto e que entenderam junto com a gente que a linguagem da arte é universal e é uma poderosa ferramenta de aprendizado e transformação humana.

(Continua no próximo post)

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Jeritan Ibu Pertiwi – Parte 2

Obstacle race

by Janine de Campos

More and more we discover that life is made of choices. It may sound a little cheeky, but the reality is that. And when you make a choice it means you have to give up something to get something else. In our choice of embarking on a process of theatrical creation we had to give up on vacationing, drinking our beer over the weekend, eating the more expensive food (because we knew we had to save as much money as the play asked for), sleeping late and having a comfortable life. We knew that the other choice was “more enjoyable,” but we, as the artists we are, were thirsting to create.

Besides not being part of the team that had “pleasures”, at the beginning we already understood that we would have many obstacles to face. I’ve heard many complaints about Brazil being a bureaucratic country, where everything takes time and we have to be patient. You have no idea what Indonesia is. While in India one of my greatest learnings was about time, here in Indonesia my greatest learning is about: PATIENCE and as a consequence, RESILIENCE.

Our first obstacle was finding a place to start the rehearsals. Our coordinator informed us that we would have to make a letter with the room request addressed to the university’s rector, who should sign and then send to the theater department, who would send the authorization to the international office (which deals with foreign affairs). We did the letter in November to get a room we could use in December and January during our vacation. While we did not have the answer, I decided to try our luck at some alternative times. I used to wake up early and as soon as I saw a dance room free, I would take my place, but soon someone would arrive saying that in 10 minutes the class would start or the local students would use it for rehearsal. Class times were always confusing and there was no logical schedule. I had experiences with older dance students who were super arrogant (which proves that this type of person, who works with the inflated ego exists in every corner of the world, even in Asia).

It was like this, during the whole vacation. Leaping from room to room. But right at the beginning, the Goddesses of the theater have begun to “move their fingers”. On the first day of rehearsal, when I was in the room with the door open, a cat came in and watched me. When I finished, I sat down and it approached me, climbed on my lap and lay there. I was very emotional because in the theater play, the character tells her problems to a cat she encountered on her way during a storm. Coincidentally, or as I believe, “by fate”, Mateus and I saved 4 kittens that were dying after a heavy storm on the last day of 2018. We spent the new years eve on the porch of my house, me, Mateus and the 4 kittens that have transformed our New Year with only 1 firework into pure fun! I really believe that the Goddesses were on our side.

We knew we had the blessing of the Goddesses, but the bureaucracy was not making our lives easier, we knew we had to learn a little more about patience. Our coordinator went to take a course outside of the city and was 2 months without appearing, which delayed, and much, our saga of the room. Only after her arrival in the middle of January that the letter about the room was authorized and how she knew of our yearnings and perhaps even as an apology for the delay, she gave us as a gift for the rehearsal: the theater. I remember that we were very happy to have a space in which we could save our things and still be able to have the energy of a theater to work. At first we knew the theater was great, and as we wanted to do something more intimate, we did not go straight to the stage, because for us, the stage is sacred and we would only go there when we had the right to step on it. We started rehearsing in a hallway with mirrors behind the stage, which made my choreographic direction easier. The best time was very early, because on the days with events scheduled the students could arrive and disrupt the progress.

So every day at dawn, we were there, me and Mateus, inventing, creating, recreating, trying to understand what this new process would be like for us. I started by creating a choreographic body drawing base (coming from the teachings of Eugenio Barba which I had experienced in recent years) stimulated by the visions and character states that the dramaturgy brought (Théâtre du Soleil method). Mateus gradually, each day, brought the music and musicality of the scene to the composition. We had a sketch of 3 scenes when our coordinator arrived to watch a rehearsal and understand what these obsessed “bules” were making up. She watched only the end of the third scene and decided to make a phone call telling us to wait before showing the process from the beginning. In this call she invited the theater director Yusril Katil to attend the rehearsal because she thought it might interest him.

Katil is a director who works primarily with physical theater and from the beginning I’ve been told that I should meet him because it suited our type of work. The coordinator called me to attend a rehearsal on a play he was doing to know if maybe I could participate (he likes to work on interculturalism). I went to watch and I came to the conclusion that the actors were so good physically, with bodies so prepared and so Minangkabau that it would take a long time for me to match them (in other words I thought I was not good enough for what he needed). I regretted it later, saying no, maybe out of fear, maybe I should take a chance because that’s what I was here for, but I knew the date for the presentation was next, so I would have to stop everything and concentrate 100% on this (which would disrupt my studies). I remember thinking I’d really like to work with him. And as the Goddesses have a clear hearing: there he was that day, watching what Mateus and I had created so far.

As soon as we finished the rehearsal, we sat down to talk, he don´t  speaks English, and we still did not know much about Indonesian. Tintun, the coordinator, did the translation/mediation. He made remarks about what he saw, said that for him it was quite contemporary, that he saw the essence of traditional with a new look and that he would like to be part of the process. At that moment a new stage of our creation began: collaboration between artists from different countries, who do not speak the same language, working together to build an artistic piece.

The next day Tintun invited another friend of hers, a teacher and dancer, who we watched dancing on our first week in Padangpanjang (according to Mateus, one of the best dances he saw in his life), and indeed he was fantastic, I even thought: “Wow! What a body! I wish I could know how to dance like him”! And, behold, the Goddesses listened again, and Ali Sucri, who also don´t speak English, would be one more collaborator in the process to work on traditional choreography and body techniques.

“What a responsibility,” I thought and “what an honor, what a blessing from the Goddesses, what an opportunity”! Yes, it was a once in a lifetime opportunity. One of those that bring lots of learning and lots of story to tell. Do not think that everything was like a fairytale, it was not! The first problem we had were the schedules, the 3 involved were teachers and great artists so they were always with the busy schedule. We had our classes and the theater had a limit of hours (in some cases the theater was closed so the person in charge could go to pray in the mosque). It was always a mystery, we did not know if we should advance alone with the possibility of them coming and changing everything or if we should wait them to appear. The process only became more solid when Katil was invited to present one of his performances at a Theater Festival of a University in Padang (capital of the province) and he choose us to perform. Along with this, Tintun made the students of the theater course follow the process and help in the technical needs as part of the classes in the semester. As the date of the performance was close we decided together to present only part of the dramaturgy as a work-in-progress, so we could take time to detail what we had created and leave it as round as possible.

We had several debates and differences, mainly for two reasons: the first related to the difficulty of communication. It was not every time we had someone to translate what was said, so much of the dialogue that must be done in any creation process was lost in this mess. What really saved was that, because it was a theater based on the physical, the notes were made in the practice, in the own body, since Yusril took care of the direction and Sucre of the choreographies. The second point of disagreement was directly related to the theatrical language. We came from a theater in which the musicality of the scene and especially the “urgency” in the theater are the basis. For us, a theater play is a great rhythmic orchestra and when the scene demands slowness it needs to be well justified and dilated. They love slowness! We watched a lot of performances here where the dancer walked across the stage (which is quite large) at an absurdly slow pace, and we saw most of the audience seizing the opportunity to check their cell phones and think about the problems of life. That was our greatest fear. At first we let ourselves flow to see where they would arrive and what we could learn from this difficulty, but the time came when we had to talk about that difference and, although we knew they were not 100% satisfied, we came to the middle ground, or to what we strive in every aspect of life: balance.

I think it was a little painful for both sides. We wanted something intimate and small, where the audience could look into the character’s eyes, after all, it would just be an actress and a musician on the stage. They, as we have seen in their previous presentations, liked the idea of something big (for being very physical), wide. After some suffering it cames to a point where Mateus and I let ourselves be carried away by experience. We set aside the idea we imagined to plunge into collaboration, to exchange, to learn. We set aside what was our “right” way of working to meet what was “right” for them. Who says our way is the right one? Who said it was theirs? This is the great learning of this journey: letting go of our beliefs of right and wrong and letting ourselves be guided by the unique experience we were having, living the process.

I am very proud of this experience and very caring and grateful for all those who were part of it, who believed in the work of two “bule kacau” (crazy foreigners), who dedicated their time and their work to the creation of a work of art, which expose themselves, since the play has criticism of some customs of the society in which they live, who put their soul in this project and who understood together with us that the language of art is universal and is a powerful tool of learning and human transformation.

(To be continued)

Jeritan Ibu Pertiwi – Parte 1

Quais são os planos?

por Janine de Campos
(English version below)

Quando fomos aprovados para a bolsa de estudos na Indonésia, inicialmente pensei que deveríamos chegar, viver, experimentar e nos deixar guiar pelos acontecimentos para então sabermos qual seria o resultado de todos os aprendizados. Vim pensando que iríamos aprender as novas artes como se degusta um bom livro: vamos ler e no final entenderemos como ele nos toca e quais serão as consequências. Porém, somos artistas agitados e sensíveis ao entorno, então os estímulos de uma vida em uma sociedade tão complexa e distante da nossa realidade e o tempo livre entre os estudos, nos trouxe o anseio imediato de criar algo concreto e inspirado na nossa experiência em Sumatra: um espetáculo teatral sobre a mulher na cultura Minangkabau.

DSC_1722A menina…

Me lembro que ainda no Brasil, já conversávamos sobre assuntos que gostaríamos de abordar em um futuro espetáculo, mas o papo sempre era de realizar o processo de criação no retorno ao nosso país. Antes mesmo de chegar em Padangpanjang sabíamos que iríamos morar no meio de 2 grandes vulcões (1 ainda em atividade) e que essa situação, de viver em um local com a possibilidade de uma erupção vulcânica, nos mostrava que a vida poderia acabar em um segundo, e sem culpados da tragédia. Era um risco que estávamos dispostos a correr, e que o povo daqui corre todos os dias. Então, já tínhamos a ideia de uma história sobre uma menina que morava no meio de 2 vulcões e… bom, só isso já seria um bom começo para a criação.

Jpeg… e os vulcões (Singgalang e Marapi).

Chegamos aqui. Conhecemos de longe os 2 vulcões (em suas raras aparições por entre as nuvens da chuvosa Padangpanjang) e aos poucos fomos conhecendo o povo que mora no meio deles. Tivemos contato com as artes que iríamos aprender, assistimos algumas apresentações, visitamos um vilarejo que preserva as raízes da cultura Minangkabau, mas tudo ainda parecia de certa maneira superficial, não porque não estávamos indo fundo o bastante, mas principalmente devido ao problema de comunicação, afinal, a maioria não fala inglês e nosso minang (dialeto local) e indonésio (idioma nacional) estavam no básico do básico. Essa é um dos primeiras dificuldades de trabalhar com interculturalismo: a comunicação. Foi um dos nossos maiores problemas, sem dúvida, e nos levou para bem longe da nossa zona de conforto como humanos e como artistas.

DSC_9197Tocando com o povo da vila tradicional de Jawi-Jawi.

Com a dificuldade de entender na prática a cultura e a história local, decidi procurar nos livros a teoria do que estávamos experienciando. Fui na biblioteca da Universidade e achei um dos únicos livros em inglês que conta a história do povo Minangkabau (Journey to the Land of the Earth Goddess – Katherine Stenger Frey). Esse era um daqueles livros que não podem ser levados para a casa, só consulta local, então fiquei 3 meses indo quase todos os dias até a biblioteca para esse “encontro”. Como o inglês não é minha língua nativa, no começo demorava horas para compreender uma página, mas com o tempo, meu cérebro começou a trabalhar no modo trilíngue e a prática diária deixou mais rápida a compreensão.

Falando em prática, gostaria de fazer um parênteses para escrever sobre um grande aprendizado que já vinha tendo antes de vir para cá, mas acho que aqui ficou mais evidente: você consegue fazer muita coisa que você nem imaginaria se você dedicar tempo e trabalho diário. Digo isso porque aqui aprendi a tocar 2 instrumentos que, à primeira vista, pareciam impossíveis, mas que com treino diário, me fez me tornar a nova percussionista do ArteJornadaHumana (para alegria e orgulho do Mateus). O próprio Mateus, que se considerava apenas músico, aprendeu e evoluiu muito na aula de Silat (ou Silek, arte marcial Minangkabau). O trabalho de artista foi completo uma vez que eu tive que trabalhar o meu desconforto nos instrumentos musicais e o Mateus teve que trabalhar o desconforto dele no trabalho corporal. Cada vez mais tenho a certeza de que um artista pode e deve ser envolto em todas as artes possíveis e que dissociá-las é sempre uma perda.

JpegBiblioteca do Institut Seni Indonesia Padangpanjang.

Bom, terminei o livro da biblioteca e pela internet comprei mais 2 que poderiam colaborar com a nossa pesquisa: um sobre o povo Minangkabau, mais especificamente sobre o sistema social matriarcal que me interessava muito (Unexpected Matriarchs Book 2 – Simon Bird & Katerina Karaskova) e outro que trazia na teoria as artes cênicas que estávamos estudando mais a fundo (Theater & Martial Arts in West Sumatra – Randai & Silek of the Minangkabau – Kirstin Pauka), esse, como veio do Amazon chegou bem depois que havíamos iniciado o processo de criação, e pasmem, muito do que estávamos trabalhando estava diretamente relacionado ao que o livro trazia de informação (essa é a magia do teatro, que sempre nos surpreende). Assim como no Kathakali, os gurus não trazem muito da teoria, tudo que aprendemos é na prática. Tenho certeza que isso é proposital para o melhor aprendizado, mas como nosso tempo com os mestres era pouco para conhecer as grandiosidades das artes, os livros ajudaram a abrir os caminhos para um aprendizado mais aprofundado.

Não lembro exatamente, mas acho que estava na metade do livro sobre o matriarcado quando, num sábado a tarde, sem nenhuma tarefa específica para fazer, me deu a vontade de escrever uma base para a dramaturgia. Sentei na minha cama, peguei meu caderno e comecei a escrever… foi uma coisa muito louca (de novo a magia do teatro aparecendo), fui escrevendo cena por cena sem pensar, sem racionalizar, quase sem respirar. As imagens estavam bem claras na minha mente e simplesmente vieram quase como uma psicografia, muito provavelmente porque aquilo já estava fervendo dentro de mim conforme ia adentrando mais profundamente essas novas terras, essa nova sociedade e cada vez mais senti a necessidade de criar um espetáculo aqui, nesse lugar, e apresentá-lo para eles, os donos da terra, o povo Minangkabau. Um dia depois, fui com o Mateus comprar o almoço que ele mais gosta (frango frito), pegamos uma chuva e comemos embaixo da marquise da casa dele (meninas não podem entrar na casa dos meninos e vice-versa). Entre um pedaço e outro, gritando para vencer o barulho da chuva e com as mãos cheias de gordura fui contando para o Mateus o aqui havia escrito no dia anterior. Falei: “- é só um começo… uma base para a gente começar…” e a resposta dele foi: “- é isso”.

Screenshot_20190519-193444_GalleryCanovaccio do espetáculo Jeritan Ibu Pertiwi.

Ok, então era isso. Iríamos começar a nossa jornada de criar um espetáculo teatral no outro lado do mundo. Se em Curitiba, com nosso antigo grupo que tinha uma casa, uma diretora, um cenógrafo, um iluminador, patrocinadores, ou seja, estrutura, já é muito difícil criar um espetáculo teatral imagine na nossa nova situação, totalmente fora da nossa zona de conforto, sozinhos, só eu e o Mateus, uma atriz e um músico, sem estrutura nenhuma, sem dinheiro para investir e com enormes dificuldades na comunicação para tentar pedir qualquer tipo de ajuda. O que tínhamos era a vontade de fazer e o amor pela arte que nunca nos faz desistir.

Um dos grandes aprendizados de nossas viagens é não criar expectativas, e aqui, como ninguém conhecia nossos trabalhos anteriores, nem nossas personalidades, pudemos abandonar algumas crenças vindas do passado e nos sentir realmente livres e abertos para receber a obra do jeito que ela viria, sem pensar muito no resultado final, mas aproveitando a vivência do processo. Assim, começamos a nossa jornada prática da criação, com uma história no papel, um monte de visões na mente, com tempo para dedicar, muita vontade de criar, amor para doar à essa criação e principalmente: sem grandes expectativas para o resultado.
(Continua no próximo post)

———————–

Jeritan Ibu Pertiwi – Part 1

What are the plans?

by Janine de Campos

When we were approved for the scholarship in Indonesia, I initially thought we should come, live, experience and let ourselves be guided by what happens so we know what the outcome of all learning will be. I came thinking that we would learn the new arts as if tasting a good book: let’s read and in the end we will understand how it touches us and what the consequences will be. However, we are agitated and sensitive artists to the surroundings, so the stimuli of a life in a society so complex and distant from our reality and free time between studies, brought us the immediate desire to create something concrete and inspired by our experience in Sumatra : a theater play about women in the Minangkabau culture.

I remember that even in Brazil, we talked about issues that we would like to address in a future theater play, but the talk was always to carry out the creation process when we return to our country. Before we even arrived in Padangpanjang we knew that we would live between 2 big volcanoes (1 still active) and that this situation, of living in a place with the possibility of a volcanic eruption, showed us that life could end in a second, without one to guilt for the tragedy. It was a risk we were willing to take, and the people here take it every day. So we already had the idea of ??a story about a girl who lived in the middle of 2 volcanoes and … well, that alone would be a good start for creation.

We got here. We meet from a distance the 2 volcanoes (in their rare appearances through the clouds of the rainy Padangpanjang) and gradually we got to know the people who live between them. We had contact with the arts that we were going to learn, we watched some presentations, we visited a village that preserves the roots of the Minangkabau culture, but everything still seemed somewhat superficial, not because we were not going deep enough but mainly because of the communication problem, after all, most do not speak English and our minang (local dialect) and Indonesian (national language) were in the most basic level. This is one of the first difficulties of working with interculturalism: communication. It was one of our biggest problems, no doubt, and it took us quite far from our comfort zone as humans and as artists.

With the difficulty of understanding the local culture and history in practice, I decided to search the books for the theory of what we were experiencing. I went to the University Library and found one of the only books in English that tells the story of the Minangkabau people (Journey to the Land of the Earth Goddess – Katherine Stenger Frey). This was one of those books that can not be taken home, just for local researchn, so I spent 3 months going almost every day to the library for that “meeting”. Because English is not my native language, it took hours to understand a page in the beginning, but over time my brain started working in trilingual mode, and daily practice made comprehension quicker.

Speaking of practice, I would like to make a parenthesis to write about a great learning that I already had before coming here, but I think it became more evident here: you can do a lot that you would not even know if you dedicate time and daily work. I say this because I learned to play 2 instruments that, at first glance, seemed impossible, but with daily training, made me become the new percussionist of ArteJornadaHumana (for Mateus’s joy and pride). Mateus himself, who considered himself only a musician, learned and evolved greatly in the class of Silat (or Silek, Minangkabau´s martial art). The artist’s work was complete since I had to work out my discomfort on musical instruments and Mateus had to work out his discomfort in body work. I am sure that an artist can and should be involved in all possible arts and that dissociating them is always a loss.

Well, I finished the book from the library and bought 2 more that could contribute to our research: one about the Minangkabau people, more specifically about the matriarchal social system that interested me a lot (Unexpected Matriarchs Book 2 – Simon Bird & Katerina Karaskova) and another that brought in the theory of the performing arts that we were studying more deeply (Theater & Martial Arts in West Sumatra – Randai & Silek of the Minangkabau – Kirstin Pauka), that came from the Amazon Online Store, so it arrived well after we had begun the process of creation, and wonder, much of what we were working was directly related to what the book brought with it (this is the theater magic, which always surprises us). Just as in Kathakali, gurus do not bring much of theory, all we learn is in practice. I am sure that this is purposeful for the best learning, but as our time with the masters was little to know the full greatness of the arts, the books helped to open the way for a deeper learning.

I do not remember exactly, but I think I was in the middle of the book about matriarchy when, on a Saturday afternoon, with no specific task to do, it gave me the will to write a basis for dramaturgy. I sat on my bed, picked up my notebook and began to write … it was a very crazy thing (again the magic of the theater appearing), I wrote scene by scene without thinking, without rationalizing, almost without breathing. The images were very clear in my mind and they simply came almost like a psychograph, most probably because it was already boiling inside me as I went deeper into these new lands, this new society and I felt more and more the need to create a theater play in here, in this place, and present it to them, the owners of the land, the people Minangkabau. A day later, I went with Mateus to buy the lunch he likes (fried chicken), we caught a rain and ate under the porch of his house (girls can not enter the boys house and vice versa). Between one piece and another, shouting to beat the noise of the rain and with the hands full of fat I was telling Mateus the lines I had written the day before. I said, “It’s just a start … a basis for us to start …” and his response was, “That’s it.”

Okay, so that was it. We would begin our journey of creating a theater play on the other side of the world. If in Curitiba, with our old group that had a house, a director, a scenario designer, a light designer, sponsors, well… structure, it is already very difficult to create theater, imagine our new situation, totally outside of our comfort zone, alone, me and Mateus, an actress and a musician, with no structure whatsoever, no money to invest and enormous communication difficulties to try to ask for any help. What we had was the will to do and the love for art that makes us never give up.

One of the great lessons of our travels is not to create expectations, and here, as no one knew about our previous works or our personalities, we were able to abandon some beliefs from the past and feel really free and open to receive the play the way it would come, without thinking much about the final result, but taking advantage of the experience of the process. Thus, we begin our practical journey of creation, with a story on paper, a lot of visions in the mind, with time to dedicate, a lot of desire to create, love to give to this creation and especially: without high expectations for the result.

(To be continued)

A Cultura Minangkabau

(English version below)

Você sabia que a Indonésia é formada por mais de 17.508 ilhas? Na cerimônia de abertura do programa Darmasiwa escutamos essa informação algumas vezes e ainda assim era difícil ter a real noção da complexidade e grandeza desse país. Através dessas milhares de ilhas, o povo é distribuído em distintos grupos étnicos, linguísticos, religiosos e consequentemente culturais. Ou seja, a cultura da Indonésia é muito rica e cada região possui sua culinária, dialetos e artes tradicionais, bem como seus costumes e tradições.

Nosso encontro na Indonésia é com o Minangkabau, a cultura do povo de Sumatra Ocidental. Aqui estamos estudando suas músicas e danças tradicionais, além da arte marcial (Silat ou Silek) e o teatro (Randai). Mas antes de falar especificamente da cultura gostaríamos de fazer um parênteses para falar um pouco da história e costumes desse povo tão peculiar.

DSC_0531A encantadora Rumah Gadang em Padang Panjang.

O povo Minangkabau é uma sociedade tradicionalmente matriarcal e muçulmana. Foi por volta do século XVI que o Islã começou a ser adotado, trazido pelos comerciantes do Oriente Médio. Dentro de toda a Indonésia, o povo Minangkabau já foi considerado os mais intelectuais e produtores das melhores literaturas. O centro da sua filosofia é baseado em viver em harmonia com a natureza. Muitos de seus símbolos místicos vêem da força da natureza e principalmente de seus ancestrais. Eles acreditam que a alma de seus ancestrais está sempre renascendo e se conectando e que os espíritos podem habitar plantas, seres humanos, terras, metais e pedras.

Grande parte das manifestações artísticas Minangkabau representam a natureza. Nas artes plásticas e na estamparia, os desenhos de broto de bambu, samambaia e folhas de sirih estão sempre presentes e possuem significados filosóficos que passam de geração em geração.

IMG_20181014_075010_506O Búfalo é o animal-símbolo deste povo e ainda é muito utilizado nas plantações.

Além da relação com a natureza, a maior relação prática desse povo é com a figura da mãe. A grande lenda é sobre a Bundo Kanduang, uma Rainha que detinha o poder do reino Minangkabau há milhares de anos atrás. “Bundo” significa “Mãe”. Ela foi a encarnação de uma Deusa e tinha a tarefa de educar o povo nas leis do ADAT, o sistema matriarcal na qual a propriedade e a descendência é traçada pelas mães. Toda a sociedade girava em torno desse ADAT, as leis e/ou costumes, que contém toda a filosofia do povo Minangkabau, bem como seus deveres aos seus ancestrais, a eles mesmos, ao meio ambiente e aos seus descendentes.

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Bundo Kanduang.

Minangkabau significa “búfalo vitorioso”. Diz a lenda que certa vez houve uma disputa territorial pelas terras do oeste de Sumatra entre o povo local e um reino de Java. Para evitar batalhas e sangue derramado o povo Minang sugeriu que a questão fosse resolvida através de uma luta entra 2 búfalos. Os inimigos aceitaram e começaram a
procurar pelo maior e mais agressivo búfalo que pudessem encontrar. Já o povo  Minangkabau, escolheu o menor e mais inocente búfalo. No dia da batalha, eles amarraram uma lança no nariz do pequeno búfalo. Como haviam imaginado, o grande búfalo javanês não teve medo do pequeno e começou a procurar por algum animal de seu tamanho. O “baby búfalo”, que estava morrendo de fome, foi direto na direção do grande búfalo, na tentativa de encontrar leite e isso permitiu que seu nariz (com a lança) ferisse mortalmente a barriga do grande búfalo, dando ao povo Minangkabau a vitória no conflito e o direito de continuar em suas terras. Essa história ainda pode ser vista como um exemplo da superioridade da inteligência matriarcal Minangkabau, triunfando ante a brutalidade patriarcal dos javaneses.

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A inteligência vence a força bruta.

Os chifres do búfalo serviram de inspiração para as curvas dos telhados das casas tradicionais (Rumah Gadang), e também a forma curvada dos adornos que as mulheres usam na cabeça tanto quando estão trabalhando como em alguns trajes das danças tradicionais.

Apesar de estarmos estudando em sala de aula a língua nacional da Indonésia (Bahasa Indonesia), no dia-a-dia, nas ruas, aprendemos o dialeto do povo Minang. E quando eles escutam “bulês” (gringos) falando a língua local, sempre recebemos sorrisos carregados de surpresa e às vezes até conseguimos descontos por isso.

Quanto à culinária desse povo, a pimenta toma conta do prato (bem mais que na Índia), mas em 4 meses o paladar acaba se acostumando. O arroz está presente em todas as refeições. Peixe, frango, tofu e tempeh (derivado da Indonésia) fazem a vez das proteínas e muitas folhas verdes e vegetais complementam o cardápio. O prato típico da região é o Rendang, feito especialmente com carne bovina ou jaca cozidos por horas no leite de cocô. Tivemos a oportunidade ver como era feito (e ajudar na cozinha) quando visitamos a vila de Jawi-Jawi, que mantém muito do estilo de vida tradicional do povo Minangkabau. O prato é uma delícia!!

DSC_8956Saboreando as delícias da cozinha Minangkabau com os amigos da Darmasiswa.

Nessa vila, tivemos a oportunidade de dormir dentro de uma Rumah Gadang (a casa típica Minang que é uma verdadeira obra de arte) e vivenciamos alguns costumes deles, como banho a céu aberto, plantar arroz e observar o búfalo em seu trabalho diário. Assistimos também algumas performances de música e dança tradicionais e vestimos suas roupas.

LRM_EXPORT_4965610879217_20181007_230516387Janine com roupas tradicionais, dentro de uma Rumah Gadang.

A cultura Minangkabau com sua simbologia, o contato com a natureza, a relação com os espíritos e seus ancestrais além da Deusa Mãe, nos fazem refletir a sociedade brasileira, e como estamos tão longe disso… como a magia é para poucos e como o ser humano perdeu suas conexões interiores. Todos estes fatores estão nos provocando e inspirando em um novo processo de pesquisa para o primeiro espetáculo do ArteJornadaHumana, mas isso é assunto para um novo post…

DSC_0112-01Ensaiando, dançando, atuando, trabalhando sob os olhos de Bundo Kanduang.

Tarimo Kasih!

The Minangkabau Culture

Did you know that Indonesia is formed by 17,508 islands? At the opening ceremony of the Darmasiwa program we listened this information a few times and yet it was difficult to have the real perception of the complexity and greatness of this country. Through these thousands of islands, the people are distributed in different ethnic, linguistic, religious and cultural groups. That is, the culture of the Indonesia is very rich and each region has its cuisine, dialects and traditional arts, as well as its costumes and traditions.

Our journey in Indonesia is with the Minangkabau, the culture of the people of West Sumatra. Here we are studying its traditional songs and dances, besides the martial art (Silat or Silek) and the theater (Randai). But before speaking specifically of the culture I would like to make a parentheses to talk a little about the history and customs of this peculiar people.

Minangkabau is a traditionally matriarchal and Muslim society. It was around of the sixteenth century that Islam began to be adopted, brought by the traders of the Middle East. Throughout Indonesia, the Minangkabau people were once considered the most intellectual and with the best literatures. The center of Minangkbau philosophy is based on living in harmony with nature. Many of their mystical symbols come from the force of nature and especially from their ancestors. They believe that the soul of the ancestors is always reborning and connecting and that spirits can dwell plants, humans, earths, metals and stones.

Much of the Minangkabau artsrepresent nature. In the plastic arts and stamping, bamboo shoots, ferns and crab leaves are always present and have philosophical meanings that pass from generation to generation.

Besides the relationship with nature, the greatest practical relation of this people is with the figure of the mother. The big legend is about the Bundo Kanduang , a Queen who held the power of the Minangkabau kingdom thousands of years ago. “Bundo” means “Mother”. She was the incarnation of a Goddess and had the task of educating the people in the laws of ADAT, the matriarchal system in which property and descent is drawn by the mothers. The whole society revolved around this ADAT, the laws and / or customs, which contains the whole philosophy of the Minangkabau people, as well as their duties to their ancestors, themselves, the environment and the their descendants.

Minangkabau means “victorious buffalo”. The legend says that there was once a territorial dispute over the lands of the West Sumatra between the local people and a kingdom of Java. To avoid battles and blood shed the Minang people suggested that the issue could be resolved through a fight between 2 buffaloes. The enemies accepted and began to look for the biggest and most aggressive buffalo they could find. On the other hand the Minangkabau people choosed the smaller and more innocent buffalo. On the day of the battle, they tied a spear to the little buffalo’s nose. As they had imagined, the great javanese buffalo was not afraid of the little one and began to search for some animal of its size. The “baby buffalo”, which was starving, headed straight for the great buffalo, in the attempt to find milk and this allowed his nose (with the spear) to mortally wound the belly of the great buffalo, giving the people of Minangkabau victory in the conflict and the right to continue on their lands.

This story can still be seen as an example of the superiority of the matriarchal intelligence of Minangkabau, triumphing over the patriarchal brutality of the Javanese.

The horns of the buffalo served as inspiration for the curves of the roofs of traditional houses (rumah gadang), and also the curved shape of the adornments that women wear on their heads both when they are working and in some traditional dance costumes.

Although we are studying in the classroom the national language of Indonesia (Bahasa Indonesia), on the streets, we learn the dialect of the Minang people. And when they hear “bules” (foreigners) speaking the local language, we always get smiles loaded with surprise and sometimes we even get discounts for it.

As for the cuisine of this people, the pepper takes care of the dish (well more than in India), but in 4 months the palate becomes used to the spiceness. Rice is present at all meals. Fish, chicken, tofu and tempeh make the turn of proteins and many green leaves and vegetables complement the dish. The typical dish of the region is Rendang, made especially with beef or jackfruit cooked for hours in coconut milk. We had the opportunity to see how it is done (and help in the kitchen) when we visited the village of Jawi-Jawi, which retains much of the traditional lifestyle of the Minangkabau people. The dish is delicious!!

In this village, we had the opportunity to sleep inside a Rumah Gadang (the typical minang house that is a real masterpiece) and we experienced some of their customs, such as open air bathing, planting rice and watch the famous “water buffalo” in its daily work. We also watched some music and dance and dress their clothes.

The Minangkabau culture with its symbology, the contact with nature, the relationship with the spirits and their ancestors besides the Mother Goddess, make us reflect the Brazilian society, and how far we are from this … how magic is for
few and how human beings lost their inner connections. All these factors are provoking and inspiring us in a new research process for the first spectacle of ArteJornadaHumana, but this is subject for a new post …

Padang Panjang – Morando nas nuvens

(English version below)

Padang Panjang (campo longo) é uma pequena cidade nas montanhas da província de Sumatra Ocidental, na Ilha de Sumatra. Possui cerca de 50.000 habitantes e está situada a 850m do nível do mar. O clima é bastante frio, se comparado às outras cidades da Indonésia, com mínimas de até 10ºC. Por ser localizada em uma área montanhosa, a chuva é diária e rende a Padang Panjang o apelido de cidade da chuva. A cidade é circundada por 3 vulcões: Marapi, Tandikek e Singgalang, sendo os dois primeiros ainda ativos.

DSC_8838Padang Panjang.

A economia da cidade gira em torno do comércio e dos serviços, além da presença de milhares de pequenas áreas de plantação (especialmente arroz) e alguns criadouros de animais. Pela posição estratégica, bem ao centro da província, Padang Panjang ocupa um importante papel na economia de Sumatra Ocidental.

DSC_8432Muitas pequenas plantações.

O povo de Padang Panjang é majoritariamente muçulmano e pertencente a etnia Minangkabau, aqui fica o Centro de Documentação e Informação Cultural Minangkabau, importante na manutenção e preservação da cultura desta etnia. Falaremos mais a fundo sobre este assunto em um futuro post.

DSC_8308Os telhados em forma de chifre são tradicionais na arquitetura Minangkabau.

Embora existam festivais e manifestações culturais em vários vilarejos em torno da cidade, a arte da cidade se concentra no Institut Seni Indonesia, anteriormente chamado de Academia Indonésia de Artes Karawitan, o conservatório/universidade é o centro artístico de Padang Panjang. Além dos cursos de arte, semanalmente ocorrem diversas apresentações artísticas no campus, performances tradicionais Minagkabau, contemporâneas e também seminários e workshops artísticos de outras partes da Indonésia e da Ásia.

DSC_8566Linda performance de piano no auditório do ISI Padang Panjang.

A cidade possui um pasar (mercado tradicional) onde pode-se comprar frutas, verduras, carne, cafés e chás. À noite funciona o pasar kuliner, uma rua toda iluminada lotada de carrinhos e barraquinhas de comida, onde pode-se experimentar as delícias (super apimentas) da culinária minangkabau, por um preço bastante acessível. Para aqueles que gostam de uma cervejinha como nós, a cidade é bem complicada, não existem bares e há apenas um local onde é possível comprar bebidas alcoólicas com o preço bem alto (uma garrafa de cerveja de 600ml custa Rp 35.000 e um almoço bem farto, com chá incluso custa Rp 25.000).

DSC_8463O movimentado mercado culinário noturno.

A vida aqui é pacata e aprazível e a comunidade nos recebeu muito bem, sempre nos perguntam se já almoçamos ou jantamos, para onde estamos indo, etc. São muito carinhosos e curiosos sobre nosso país. Incontáveis são os pedidos para tirar fotos conosco, Martius e Jeni (nosso novos nomes aqui).

DSC_8859Jeni e a criançada. Eles adoram fotos com os bules (estrangeiros).

Estamos bem, felizes e estudando muito as artes deste povo, belas e profundas, tradicionais e ousadas, tecnicamente super difíceis e recheadas de emoção. A Ásia definitivamente é o nosso lugar na terra.

DSC_9543Martius e os colegas do grupo Minangapentagong no camarim após o concerto.

Ps. Para acompanhar diariamente nossa jornada nos siga no Instagram @mateusoferrari e @janinedecampos.

Padang Panjang – Living in the clouds

Padang Panjang (Long Camp) is a small mountain town in the province of West Sumatra, on Sumatra Island. It has about 50,000 inhabitants and is situated at 850m of sea level. The climate is quite cold compared to other cities in Indonesia, with minimum temperatures that can reach 10ºC. Because it is located in a mountainous area, the rain is daily and yields to Padang Panjang the rain city nickname. The city is surrounded by 3 volcanoes: Marapi, Tandikek and Singgalang, with the first two being still active.

The city’s economy revolves around trade and services, as well as the presence of thousands of small planting areas (especially rice) and some animal breeding sites. Due to the strategic location, right in the center of the province, Padang Panjang plays an important role in the economy of West Sumatra.

The people of Padang Panjang are mostly Muslim and belong to the Minangkabau ethnic group, here is the Minangkabau Documentation and Cultural Information Center, an important place in the maintenance and preservation of the culture of this ethnic group. We will talk more about this in a future post.

Although there are festivals and cultural events in many villages around the city, the art of the city focuses on the Institut Seni Indonesia, formerly called the Indonesian Academy of Arts Karawitan, the conservatory / university is the artistic center of Padang Panjang. In addition to the art courses, there are weekly artistic performances on campus, traditional Minagkabau, contemporary, art workshops and seminars from other parts of Indonesia and Asia.

The city has a pasar (traditional market) where you can buy fruits, vegetables, meat, coffees and teas. In the evening, the Pasar Kuliner is an illuminated street full of food stands and stalls, where you can try the delicacies of the minangkabau cuisine (super spicy) at a very affordable price. For those who like a beer like us, the city is very complicated, there are no bars and there is only one place where you can buy alcoholic beverages at a very high price (a beer bottle with 600ml costs Rp 35,000 and a well-stocked lunch with tea even costs Rp 25,000).

Life here is quiet and pleasant and the community received us very well, always asking us if we have lunch or dinner, where we are going, etc. They are very affectionate and curious about our country. Countless are the requests to take pictures with us, Martius and Jeni (our new names here).

We are well, happy and studying very much these people´s arts , beautiful and deep, traditional and daring, technically super difficult and filled with emotion. Asia is definitely our place on earth.

Ps. To accompany more of our journey follow us on the Instagram @mateusoferrari and @janinedecampos.

Indonésia – A nova jornada

(English version below)

Passado um ano de nossa vivência na Índia, estamos novamente na Ásia, desta vez na Indonésia. Quem acompanha nossa história sabe da paixão que temos por este continente e seu povo. Em 2016, estivemos em Bali e experimentamos por um dia estudar com I Made Djimat, mestre do topeng e das máscaras balinesas. Na oportunidade saímos da aula com a sensação de que aquela experiência era o começo de algo, de uma relação artística que merecia ser aprofundada, era tudo muito mágico, a música, os movimentos, as paisagens.

Bali djimatEm Bali, no espaço cultural do I Made Djimat.

Eis que, sedentos por mais uma experiência na Ásia após voltarmos da Índia, começamos a pesquisar por bolsas de estudos e encontramos a Darmasiswa. O programa é uma iniciativa do Ministério da Cultura da Indonésia que seleciona jovens do mundo todo para estudar a língua e a cultura do país. Entre os 690 selecionados, de 90 países, lá estávamos nós, no limite da idade para participar da bolsa (o máximo é 35 anos).

aprovadosAprovados!

Chegamos em Jacarta para a conferência de orientação sobre o programa. No auditório de um grande hotel da cidade, estavam reunidos os participantes da Darmasiswa 2018/2019, gente do mundo todo, com o mesmo objetivo: mergulhar na cultura da Indonésia. No encontro foram passadas as informações básicas sobre a cultura do país, o funcionamento da bolsa e também muitas apresentações artísticas. Era muito louco estar numa roda de conversa com gente da Espanha, EUA, Paquistão, Quênia, Japão, etc. No dia seguinte, cada um seguiu para sua cidade, sua universidade. Nosso grupo tem 13 estudantes dos seguintes países: Brasil (nós 2), Eslováquia (2), Hungria (2), Vietnã (2), República Tcheca, Rússia, Eslovênia, Madagascar e Estados Unidos.

DSC_8321Nós, os estrangeiros. Os novos habitantes de Padang Panjang

Nosso novo destino, nossa nova casa chama-se Padang Panjang. É uma pequena cidade (cerca de 50.000 habitantes) nas montanhas vulcânicas do oeste da ilha de Sumatra. Aqui fica o Institut Seni Indonesia Padang Panjang. Antigamente era um conservatório, hoje transformado em Universidade de Artes. Existem cursos de música tradicional indonésia (karawitan), música orquestral, dança tradicional indonésia (tari), teatro, antropologia, dança contemporânea, belas artes, cinema e tv, fotografia e design gráfico.

isiISI Padang Panjang, nossa nova universidade.

Já estamos há quase um mês por aqui, encantados e ocupados com as aulas de arte, de bahasa indonesia (idioma local) e com as inúmeras performances artísticas que acontecem quase que diariamente. Já temos muitas histórias e vamos detalhá-las nos próximos posts.

Terima Kasih!

Indonesia – The new journey

After a year of our experience in India, we are in Asia again, this time in Indonesia. People who accompanies our history knows about the passion that we have for this continent and its people. In 2016, we were in Bali and for one day we studied with I Made Djimat, master of topeng and Balinese masks. In that opportunity we left the class with the sensation that the day we experienced was the beginning of something, of an artistic relation that deserved to be deepened, everything was so magical, the music, the movements, the landscapes.

Thirsting for yet another experience in Asia after returning from India, we began researching for scholarships and found Darmasiswa. The program is an initiative of the Indonesian Ministry of Culture that selects young people from around the world to study the language and culture of the country. Among the 690 selected from 90 countries, we were there, at the age limit to participate in the scholarship (the maximum is 35 years old).

We arrived in Jakarta for the orientation program. In the auditorium of a large hotel in the city the participants of the Darmasiswa 2018/2019, people from all over the world, were gathered with the same objective: to immerse themselves in the culture of Indonesia. At the meeting were given the basic information on the country’s culture, the operation of the scholarship and also many artistic presentations. It was crazy to be in a conversation with people from Spain, USA, Pakistan, Kenya, Japan, etc. The next day each one went to their city, their university. Our group has 13 students from the following countries: Brazil (we), Slovakia (2), Hungary (2), Vietnam (2), Czech Republic, Russia, Slovenia, Madagascar and United States.

Our new destination, our new home is called Padang Panjang. It is a small town (about 50,000 people) in the volcanic mountains on the west of the island of Sumatra. Here is the Institut Seni Indonesia Padang Panjang. Formerly it was an art conservatory, today transformed into University of Arts. There are courses of traditional Indonesian music (karawitan), orchestral music, traditional indian dance (tari), theater, anthropology, contemporary dance, fine arts, film and tv, photography and graphic design.

We have been here for almost a month now, delighted and occupied with art classes, Bahasa Indonesia (local language) and the numerous artistic performances that take place almost daily. We already have many stories and we will detail them in the next posts.

Terima Kasih!

“Viva como se fosse morrer amanhã, aprenda como se fosse viver para sempre” Gandhi.

Você alguma vez já sentiu a sensação de sonho realizado e o sentimento de gratidão explodiu em seu coração? É assim que podemos resumir nossos sentimentos em relação à essa viagem para a Índia. Chegamos lá de coração aberto, pé no chão, humildade e prontos para aprender tudo que poderíamos. Concordamos os dois que diríamos SIM para todas as oportunidades e assim o foi… Fizemos tudo o que poderíamos fazer, vivemos cada segundo e nos doamos para essa jornada. Confessamos que o Universo foi muito generoso com a gente o que nos dá a certeza de que a felicidade pode ser alcançada, só basta você descobri-la em seu interior. Nessa busca peloo autoconhecimento podemos concluir que deixando de lado seu ego, seus julgamentos (e seus pré-julgamentos), sua preguiça, seu controle, ou seja, o seu… seu… seu… a vida pode te aprontar muitas surpresas! Cada dia uma nova descoberta, um novo momento, um novo sentimento, uma nova sensação! Não sabíamos do amanhã, só tínhamos o presente, pois nosso passado também não importava ali. O tempo se tornou um grande mestre da vida.

DSC_0219aA Índia é muito, muito, muito mais do que o deslumbrante Taj Mahal.

E por falar em tempo, 3 meses para uns pode ser rápido, para outros devagar, para nós, foram 3 meses muito bem vividos que nos deixaram com gostinho de quero mais! Muito mais!!!! O tempo de lá é um tempo bem diferente do de cá! Lá tudo tem seu tempo! Ninguém precisa correr contra ou a favor dele! Cada coisa é vivida da forma que deve ser vivida! Se olharmos o tempo pela visão da “previsão do tempo”, alguns diriam que não fomos afortunados, pois realmente estávamos na época das monções, mas em compensação essas monções nos presenteavam com pores do sol maravilhosos que jamais iremos esquecer! Se o tempo do relógio já não era o principal o que ficava era o tempo natural das coisas: o horário de comer é o horário da fome, o de dormir, o do sono e assim caminha a humanidade… Humanos, somos humanos, não máquinas que são comandadas por outras máquinas.

DSC_0278aAs chuvas das monções lavam a terra e a alma.

Falando em humanos, façamos aqui um link com o seu melhor complemento: a Natureza. Descobrimos lá como é bom viver cercado por natureza, mesmo que de vez em quando ela nos surpreenda com uma aranha gigante que pula ou com bichos cabeludos que podem se defender soltando seu veneno. Pode soar meio hippie, mas descobrimos que viver com o pé no chão é uma das melhores coisa do mundo! A beleza das palmeiras, do céu estrelado de noite (que em Curitiba, devido as luzes da cidade, quase não vemos), os pássaros que não param de cantar, as borboletas que trazem a mensagem de que a mudança nos faz melhores, a chuva que por vezes lava literalmente a alma, o rio que corre levando junto todas as energias negativas, e tantos outros fenômenos que só a natureza pode nos proporcionar fizeram parte das descobertas dessa jornada. É lógico que não precisamos ir tão longe para realizar esse encontro, mas às vezes não estamos conscientes dessas contemplações e o quanto essa relação pode mudar o seu dia para muito melhor.

DSC_2802aLá se vai o sol na Índia.

E continuando no quesito consciência, não podemos esquecer da espiritualidade que esse povo emana. Viver no país que nasceu a yoga, viver diariamente com gurus, não há como voltar de lá sem um degrauzinho a mais em nossa elevação. Visitamos templos sikh, mesquitas mulçumanas, templos hindus, o Templo de Lótus que engloba todas as religiões e saímos de lá com a conclusão de que tem algo em comum a todas elas: o amor. Na parede do bar que frequentávamos havia um quadro onde Jesus e Krishna flutuavam de mãos dadas na frente de uma mesquita. Essa imagem diz muito e hoje já virou parte de nossa crença (acrescentamos em nossa imaginação uma fogueira xamânica, os batuques do candomblé e um buda olhando tudo com um sorriso maravilhoso). Brincadeiras à parte, fica aqui uma grande reflexão: será que a união realmente não pode fazer a força? Se o amor fosse nosso guia maior não seria mais fácil? Continuamos com nossas crenças pessoais, respeitamos todas as outras. Se te faz bem, então é o que realmente importa! Tivemos a oportunidade de presenciar muitas datas comemorativas (aniversário de Khrishna, Onam, Ganesha, Durga, etc). Presenciamos como o povo se conecta com seus Deuses e como eles são felizes nessa devoção. Mais um grande aprendizado!

20170827_180859A fé deve nos unir no amor pelo ser humano, jamais nos separar.

Por falar em pessoas felizes, devo confessar que nunca recebemos tantos sorrisos em nossas vidas! Não sei se é porque éramos estrangeiros, se é porque olhávamos nos olhos de quem passa, ou se é porque somos simpáticos mesmo, mas sempre que saíamos de casa, andando na rua, recebíamos no mínimo uns 5 sorrisos por dia! E se 1 sorriso já pode fazer diferença no dia, imagina 5!! Isso quando os sorrisos não vinham com uma conversa, um convite para um chá, perguntas (qual é seu nome, o nome da sua mãe, do seu pai, Brasil? Neymar! Ou o famoso caso da torcida “Mathius, Mathius”). Como não amar viver assim? Rodeado de amor e atenção ao próximo. Uma das questões que mais tem nos incomodado no Brasil é que hoje em dia as pessoas não gostam mais de escutar, só querem falar, contar suas histórias, seus problemas, seus… seus… seus… desejar o melhor para o próximo? Tá longe! Os amigos e amigas que fizemos na Índia nos chamam de irmão e irmã. Podemos confessar que foi um pouco estranho ouvir “I love you” do nosso melhor amigo, mas é isso mesmo, eles se entregam sem joguinhos, sem mimimi… é sim amor!!!

DSC_4133aA Índia é feita de sorrisos!

Muitos devem estar se questionando: “Nossa!!! Mas não teve nada de errado nessa viagem?” Teve, teve sim… teve diarreia, princípio de dengue, cachorros abandonados, pessoas abandonadas… Vimos muita sujeira, muita pobreza, lugares até desumanos… Tudo nos fez refletir, questionar, e consequentemente aprender, então, se olharmos por outro ponto de vista, só tivemos ganhos: ganhos artísticos, ganhos profissionais, ganhos pessoais, ganhos espirituais, ganhos mentais, ganhos de relacionamento…

DSC_0086aSuperar as adversidades com fé, alegria e gratidão pela vida.

Esta etapa da nossa jornada chegou ao fim, mas nossos aprendizados não… eles continuam reverberando em nossos corações!!! Nossas próximas viagens não serão mais as mesmas, nossas vidas já não são mais as mesmas, nossos corações então!!!!!

DSC_4675aAté breve Índia! Logo estaremos de volta!

Fechamos esse ciclo e já estamos pensando no próximo, mas não pensem que acabou! Ainda teremos mais posts sobre como nos conectamos à arte indiana e ainda pretendemos lançar um mini documentário!!! Aguardem!!!

Enquanto não chega o próximo, ficamos por aqui com a palavra que mais se repete em nossas mentes e em nossos corações:

Nandi,
Thanks,
Obrigado!

Mumbai, muita Índia por m²

Passados 3 meses no paradisíaco estado de Kerala, rumamos para o nosso último destino na Índia: Mumbai. Quando compramos as passagens para a nossa jornada, tivemos a oportunidade de chegar por uma cidade (Delhi) e sair por outra (Mumbai), o que nos proporcionou conhecer mais um pedacinho da Índia.

DSC_6118Muito trânsito!

Mumbai é a metrópole mais populosa da Índia, com 12 milhões de habitantes se espremendo nas ilhas que formam a cidade. É aqui onde ficam os estúdios de Bollywood, a principal indústria cinematográfica do país. A cidade nos lembrou muito o Rio de Janeiro, com muitos bairros pobres (favelas), áreas belíssimas junto ao mar e grandes centros de produção televisiva e cinematográfica. Os grandes artistas do país moram e trabalham em Mumbai, o que talvez influencie na pegada mais descolada da cidade. Aqui o inglês é mais falado, a licença para venda de bebidas alcoólicas é mais fácil e a moda se aproxima mais do ocidente.

DSC_6050Comércio, comércio, comércio.

Como estávamos no final da nossa jornada, o dinheiro já era contado rúpia por rúpia. Escolhemos então um hotel de baixo custo para nossa hospedagem. Ficamos em Pydhonie, um bairro muçulmano onde o comércio de rua acontece 24 horas e cada espacinho dos prédios é ocupado por pequenas empresas de confecção. Nosso hotel ficava no 4º e 5º andares de um prédio tomado por estas confecções. Embora nosso quarto fosse razoável (justo pelo preço cobrado) o prédio e o entorno eram bem intimidadores. Milhares e milhares de pessoas circulando pelos corredores apertados e um movimento intenso de entrada de tecidos e saída de roupas, pashminas e outros produtos têxteis da Índia. A faxina passava longe e o ambiente era bastante escuro e sujo. Os restos de tecido conviviam com os costureiros e seus cigarros, o que dava um medo imenso de acordar com o prédio pegando fogo (o que ainda bem, não aconteceu). O primeiro dia de hospedagem foi sofrido, depois acostumamos.

ÀDSC_5903Rua de Pydhonie.  À noite o movimento diminui…
DSC_5930Em cada sala, muitos indianos trabalham na costura.

Nosso primeiro destino na cidade foi a Chowpatty Beach, uma praia localizada na Marine Drive, avenida beira-mar super visitada em Mumbai. A praia era bastante suja, mas muitos indianos se arriscavam nas águas. Sentamos na areia e observamos o Sol se pondo, agradecidos mais uma vez pela oportunidade de estar observando o Oceano Índico. Fomos então à um café na beira-mar para tomar um cervejinha. Ficamos felizes pois o local estava repleto de mulheres se divertindo com as amigas e amigos, muitos casais, todos curtindo e cantando com o altíssimo som que vinha da jukebox.

DSC_5762A poluída Chowpatty Beach.
DSC_5772Mais uma vez o Sol se pondo e o Oceano Índico.

No dia seguinte, fomos para a região de Colaba, na busca por lembrancinhas para os amigos que nos apoiaram na jornada e de artesanatos e bugigangas para a nossa casa. A experiência é muito intensa. Como o bairro é turístico os preços são todos salgados, pois para alguns visitantes (principalmente europeus) mesmo inflacionados os itens ainda são baratos. Nós já estávamos vacinados e a pechincha foi nosso método. Em 90% das vezes, conseguíamos pagar metade do preço inicial dizendo que éramos brasileiros (Neymar! Pelé! Ronaldo! Sorriso!). Em uma das compras o preço inicial de um item era de 1500 rúpias, acabamos levando três unidades por 1000, uma loucura! Ainda na região visitamos o India Gate, um dos principais pontos turísticos da cidade, que surpreendentemente não cobrava ingresso.

DSC_6043Produtos e mais produtos.
DSC_5817India Gate, pronto para receber as comemorações do aniversário de Gandhi.

Outro local que visitamos em Mumbai é o CST – Chhatrapati Shivaji Terminus, o principal terminal ferroviário da cidade. Dali chegam e partem trens para toda a Índia, o que proporciona cenas inesquecíveis pela quantidade de humanos que ali circulam. Dedicamos algumas horas na visita e tiramos muitas fotos. O entorno da estação é lindíssimo, com diversos prédios antigos, nos lembrando muito o centro de Santiago, no Chile.

DSC_6084A luz se esgueira para dentro do Chhatrapati Shivaji Terminus.

Mumbai é uma metrópole insana, como muitas outras no mundo. Como é um dos principais pontos de entrada e saída do país, tem um potencial enorme de desenvolvimento do turismo, embora ainda haja muitas dificuldades na locomoção pela cidade (a maioria dos táxis simplesmente não aceita corridas com estrangeiros). Já estávamos em clima de despedida e preocupados com o retorno, então a experiência em Mumbai pode não ter sido tão profunda como as anteriores, mas certamente nos marcou e jamais será esquecida.

DSC_5995Janine no entorno do Chhatrapati Shivaji Terminus.

Ps.: Embora Mumbai tenha sido nosso último destino na Índia, ainda teremos posts sobre as experiências que vivemos nessa jornada. Fiquem ligados!

Ps2.: Para mais fotos de Mumbai acesse nossa Galeria de Fotos!