Kathakali

O QUE É?

Kathakali, significa “story play” (história encenada). Estabelecido com base no livro de Natyasastra (a ciência do teatro), um dos mais antigos textos sobre o teatro, o trabalho do ator, a produção de espetáculo e a dramaturgia clássica da Índia, o Kathakali nasceu a mais de 500 anos. É uma elaborada forma de arte que integra teatro, dança, música, poesia e história.

Kathakali apresenta os 4 tipos de atuação pela perspectiva de Natyasastra: aangika (física), vaachika (retórica), aahaarya (vestuário-figurino) e saatwika (sutileza).

As bases do Natyasastra vem do deus Shiva, o dançarino cósmico da mitologia e estética indiana também chamado de Nataraj (o rei da dança):

“Ele, cujo o movimento do corpo é o universo inteiro (aangika), cujo discurso é a linguagem do Universo (vaachika), cujos ornamentos são a lua e as estrelas (aahaarya), nos prostrado antes dele, a sutileza da personagem (saatwika), Rei Shiva!”

A essência do Kathakali é abhinya (expressão), considerada o coração dessa arte. Como sua metodologia é atuar os significados dos versos com o suporte das mãos, expressões faciais e movimentos físicos, o ator do Kathakali pode ser considerado um narrador e/ou intérprete.

DSC_1210Kalamandalam Gopi, um dos maiores atores de Kathakali da atualidade.

O TREINAMENTO

O treinamento para um ator de Kathakali é muito rigoroso. Essa arte é conhecida por trabalhar com sarvvanga abhinaya (atuação com o corpo todo). No geral, um ator precisa de 6 à 8 anos de treino básico, 2 à 4 de treino avançado e 1 década de experiência no palco para ser qualificado e reconhecido como um artista pleno.

Nas instituições profissionais, o treinamento do Kathakali começa na infância, geralmente entre os 10 e 12 anos, os mais tardios aos 15. A rotina é extremamente extenuante com grande demanda física de exercícios. Começa às 3 horas da manhã e dura 15 horas sendo 8 a 10 horas de treinamento físico, com poucos descansos e feriados no calendário escolar.

Os estudantes acordam às 2 ou 3 horas da manhã, colocam óleo no corpo, fazem a oração inicial  e começam os primeiros movimentos: saltos com os joelhos o mais abertos possível,  com os pés juntos e as mãos simultaneamente fazendo um círculo. Eles repetem os saltos por um longo tempo. Depois inicia-se uma variedade de exercícios, alongamentos corporais e atividades rítmicas com passos acompanhados de uma batida instrumental.

A posição do pé e do corpo são características fundamentais do treinamento de Kathakali. Os joelhos devem ser projetados para fora pressionando a lombar e deixando os pés para frente. O corpo deve estar desenhado porém relaxado durante o processo.

Durante a temporada de monções, depois desses exercícios começa-se a massagem – um processo doloroso nas primeiras semanas em que os mestres massageiam todo o corpo de seus alunos com os pés. A massagem é feita para deixar o corpo flexível e ampliar a capacidade de alongamento. Não se pode relaxar depois da massagem para não endurecer o corpo, então eles continuam com os saltos o máximo de tempo possível.

KalariMassagem para o Kathakali.

Outro processo importante do treinamento é a prática de movimentação dos olhos. Para facilitar a flexibilidade, os estudantes aplicam ghee (manteiga clarificada) nos olhos e fazem movimentos circulares, semicirculares, horizontais e verticais. Também fazem o desenho da figura 8. Todos os movimentos são feitos e refeitos em diferentes tempos.

Às 7h30 da manhã os estudantes são dispensados para tomar banho, café-da-manhã e outras rotinas pessoais. Às 9h da manhã a aula recomeça, durando até a hora do almoço.

Após a refeição, 1 hora de descanso. No período da tarde as aulas são de mudras básicos e movimentos dos pés nos primeiros meses. Depois de assimilar os pés, começam as atuações. As primeiras lições tratam de breves e descomplicados versos, praticando o cholliyatam, que significa atuar e dançar conforme as instruções dos versos. Essa  prática já tem o acompanhamento de vocalistas e percussionistas, porém sem figurinos. Esse treinamento vai até às 17h30.

Os estudantes também devem estudar a literatura do Kathakali para que se familiarizem com os épicos e conheçam as personagens das histórias. Estes estudos são geralmente realizados à noite e nos horários livres de aulas.

Só depois desse treinamento básico que os estudantes começam a ensaiar os personagens das histórias do Kathakali com os acessórios, porém ainda sem figurino e maquiagem.

MAQUIAGEM E FIGURINO

A maquiagem no Kathakali é usada não apenas para permitir que o espectador visualize a aparência do personagem, mas também para indicar a natureza e a personalidade do personagem que está sendo representado.

Para ser maquiador profissional estuda-se de 3 a 4 anos na universidade, com um período auxiliando nas performances para adquirir experiência.

Existe uma convenção chamada Veshan que caracteriza a maquiagem e os figurinos das personagens das histórias do Kathakali.

Ao todo são 200 personagens no repertório, originários da mitologia hindu. Eles são maiores que a vida humana e vivem nos diferentes mundos – Swargan (paraíso), Bhoomi (terra) e Patalam (inferno). São classificados em diversas categorias e essas distinções se refletem na variedade visual, na maquiagem e figurino dividindo-se em  3 macro naturezas: saatwika (nobre), rajasika (agressivo) e tamasika (perverso).

Nessa estrutura os personagens são ainda classificados em grupos como:

1- pacha (verde: pious)- personagens nobres, a maquiagem tem a base verde.

2- kathi (faca: agressivo e vilões) – personagens agressivos que tem o formato de uma faca desenhado no rosto.

3- tati (barba: perverso) – personagens considerados perversos. São subdivididos em:

Chuvannatati – barba vermelha;

Vellathati – barba branca;

Karuthatati – barba preta.

4- minukku (radiante: mulheres e Brahmins) – todas as personagens femininas, mensageiros, motoristas, etc.

5- kari (preto: demônios) – personagens obscuros e cruéis.

6- pazhuppu (amarelo: puro mas com agressividade) geralmente nobres mas com certa agressividade.

Só a maquiagem do Kathakali já pode ser considerada uma obra de arte e grande parte da atmosfera apresentada no palco é criada por ela.  As formas entram na mente do espectador como inesquecíveis visões ou símbolos do poder divino. Os traços são derivados dos protótipos de super-humanos.

A maquiagem com a borda branca que é fixada na face é geralmente chamada de chutti. O chutti é feito de pedaço de papel cortado de acordo com o formato específico de cada personagem e fixado com uma pasta de arroz branca. Vale ressaltar que nem todos os personagens usam o chutti.

DSC_4998Chutti já aplicado no rosto da atriz.

O processo da maquiagem e figurino consiste em 3 partes:

1- os desenhos que o próprio ator faz em seu rosto de acordo com o personagem.

2- fixação do chutti de acordo com o personagem feito por um especialista em chutti (esse processo pode demorar de 90 a 150 minutos). Depois do chutti é necessário que o ator sente um tempo em silêncio para que a pasta seque bem e esteja bem fixa.

3- vestimento de todo o figurino e adereços com a ajuda dos pettikkaran (auxiliares de figurino). Pelo menos 2 pessoas são necessárias para vestir o volume da saia e todos os adereços.

O ato de transformar o ator no personagem com a ajuda dos figurinistas é também considerado uma arte por si só no Kathakali. O conjunto de ações ao todo leva em torno 4 a 5 horas.

Os koppus são os adereços (decorativos) usados pelo performer incluindo a coroa e bangles que são feitos de madeira com qualidade medicinal para durar e ser confortável.

Existem uma variedade de cores nos figurinos do Kathakali: verde e vermelho são os principais, seguidos de branco e preto, e depois amarelo e azul. Essas cores estão relacionadas às cores da natureza de Kerala (o estado de nascimento do Kathakali).

Os personagens masculinos adornam os dedos da esquerda com longos metais prateados chamados de nakham, usados para deixar mais claro os desenhos dos mudras. São em torno de 50 peças de roupas e jóias aproximadamente de acordo com cada personagem e todo o pode chegar a pesar 34 kilos.  

Abaixo seguem os nomes dos acessórios do figurino:

img048Os figurinos do Kathakali são formados por diversas peças e acessórios.

A ATUAÇÃO

Nos termos do Kathakali, atuação e personagem são conhecidos como vesham e os atores são comumente chamados de veshakkar.

Os papéis nos espetáculos são divididos da seguinte maneira: kuttitharam (papéis menores, feitos pelos estudantes e artistas juniors), itatharam (papéis medianos, interpretados por atores iniciantes) e aadyavasaanam (papéis principais, reservados aos mestres e gurus).

As mulheres geralmente não atuam e as personagens femininas são interpretadas pelos homens (esta realidade vem mudando, felizmente). Os atores não falam ou cantam, mas decretam seções dialógicas chamadas padams através de mudras (gestos de mão) e expressões faciais. 

O Kathakali é conhecido pela técnica de atuação sutil que reflete as emoções e os sentimentos dos personagens e é considerada uma arte muito complexa. Manter a emoção básica/permanente, chamada de sthayi bhava, no  papel e na peça é muito importante. Existe uma forte filosofia dos antigos mestres que a partir do momento que o ator realiza sua oração (antes de começar a maquiagem) ele deve começar a contemplar seu personagem sem distrações. Durante as 2 horas que permanecer deitado para o chutti (a maquiagem) ele deve meditar no seu personagem.

Vale ressaltar que o ator deve separar suas emoções das do seu personagem. A ênfase está na representação da história, invocando a pesquisa estética do movimento da  mímica e  a riqueza dramatúrgica da mitologia hindu.

O Natyashastra classifica os heróis de suas peças em 4 tipos: dheerodattan (valente – nobre), dheerasatan (valente – calmo), dheeralalitan (valente – simples) e dheerodhatan (valente – altivo).

Durante a apresentação, a sanchari (emoção de uma particular situação ou a transição da emoção) é também muito importante. O ator (e os músicos também) devem justificar isso e assegurar que tudo está emocionalmente e contextualmente relacionado.

Para interpretar a história, o ator deve implantar as técnicas da rasa (as nove expressões básicas). As rasas, saatwika bhavas e sthayi bhavas são marcadas por específicas expressões dos olhos que revelam a emoção a ser transmitida. O ator deve ter domínio total das suas expressões através do controle da respiração.

Expressoes-01As rasas do Kathakali (por Kalamandalam Gopalakrishnan)

Os textos do Kathakali são cantados por 2 músicos. O cantor principal (ponnani) canta o verso e o segundo o repete. Normalmente, o ator primeiro escuta o ponnani e interpreta o texto na repetição do verso usando gestos com as mãos, movimentos corporais e expressões faciais. São os detalhes que dão vida às histórias. Em passagens mais complexas o verso pode ser repetido mais de 2 vezes para facilitar a interpretação do ator e deixar claro alguns detalhes.

Os gestos das mãos e mudras não precisam coincidir precisamente com a palavra cantada. Geralmente os gestos correspondem às palavras mais importantes. O ator também é livre para improvisar, em conjunto com os músicos, em transições antes de grandes cenas. Nesses momentos geralmente apresenta-se uma breve história ou contexto ou ainda descreve-se locais e condições climáticas. Geralmente os atores usam como base para o improviso poemas e textos, que servem de inspiração junto com a técnica da sua arte.

A APRESENTAÇÃO

Existem 7 estágios de uma apresentação tradicional de Kathakali:

1- Kalivilakku – acender a lâmparina;

2- Arangu keli –  apresentação do músico de maddalam para criar um ambiente espiritual. Isso já é um aviso para as pessoas se sentarem . Depois os 2 assistentes de palcos aparecem para esticar a cortina;

3- Vandana sloka – os cantores entram no palco e cantam versos que saúdam os Deuses sem acompanhamento dos instrumentos;

4- Totayam – a reza para os Deuses – Ganesha, Shiva, Vishnu, Saraswati, etc. É um ritual com variados passos e movimentos. Os atores fazem acompanhados dos cantores e instrumentos. Esse momento é importante no treinamento para que o ator conheça todos os ritmos. Tudo é feito atrás das cortinas para evitar a exposição antecipada dos personagens. Essa tradição está quase extinta nas apresentações atualmente;

5- Purappatu – é uma composição coreográfica inicialmente ensinada aos estudantes como o prelúdio da peça. A palavra significa “entrada” ou “começo”, ou seja,  concretiza o começo da peça. É realizado por um estudante ou artista júnior.  Hoje em dia também é pouco apresentado devido ao tempo limitado dos espetáculos. É durante esse momento que o instrumento chenda entra no palco;

6- Mellappadam – combinação de instrumentos e canto como um prelúdio da performance. É o momento dos percussionistas exibirem seus talentos;

7- Performance da peça.

Depois do Mellapadam os cantores começam a cantar o raga e a duração depende do tempo que o personagem demora para chegar no palco atrás da cortina. Depois, eles cantam os versos em que o autor explica o contexto da peça e da cena. Enquanto isso, o ator faz suas orações aos Deuses, ao palco e aos instrumentos musicais e vocais. Depois, com a coreografia de cada personagem, a cortina sai para que a peça comece.

A performance acaba com uma oração, agradecendo aos Deuses, esse momento é chamado de dhanasi.

Como já vimos, no Kathakali a comunicação com o público ocorre através da linguagem do corpo decretada pelos gestos das mãos, expressões faciais e outros movimentos físicos. Os cantores cuidam dos elementos retóricos que são os diálogos contados através de poesia, apoiados pelos percussionistas.

O Kathakali é uma arte clássica que é sempre contemporânea e viva mesmo que as peças sejam repetidas. “…o segredo das “Grandes Histórias” é que elas não tem segredo. As “Grandes Histórias” são aquelas que você já ouviu e quer ouvir de novo. Aquelas que você pode entrar a qualquer momento e lá habitar confortavelmente. Ela não te engana com truques e surpresas no final. São familiares como a casa que você mora.” (GOPALAKRISHNAN, 2016).

Se aceitarmos esses princípios básicos do Kathakali fica fácil apreciá-lo e entender o porque é imprescindível pesquisá-lo para compreender o fazer teatral.

DSC_0921Final de uma apresentação de Kathakali no Koothambalam (Kerala Kalamandalam).

OS MUDRAS

Existem 24 mudras básicos e é através da variável combinação desses mudras que o ator do Kathakali fala/comunica durante sua apresentação, apoiado pelo texto cantado ou não. A execução é realizada usando uma única mão ou as duas, dependendo da cena. A maioria dos personagens possuem mudras próprios, outros são simbólicos e universais dentro da linguagem, porém a execução do mudra só terá sentido e contexto junto aos movimentos precisos do restante do corpo, incluindo olhos e expressões faciais, o que compõe os sistemas de atuação do Kathakali conhecido como amga (cabeça, palma, tronco, peito, quadril, pés), upamgas (olhos, sobrancelha, nariz, lábios, queixo, dentes, língua e boca) e pratyamgas (ombros, mãos, estômago, nádegas, pernas, garganta).

mudras-01Os mudras do Kathakali.

O CENÁRIO

O palco para uma apresentação de Kathakali é nu, exceto por uma lamparina à óleo. O palco tradicional do Kathakali é conhecido pela sua simplicidade e austeridade, é 1 ou 2 pés mais alto que o nível do público e a plateia deve sentar-se no chão, o mais perto do palco para melhor apreciação dos movimentos faciais. Como pode ser apresentado em qualquer lugar, não tem uma dimensão específica .

No Kathakali há alguns adereços de cenas em algumas histórias, como galhos de árvore, armas, pedaços de roupas que representam crianças, a cortina (tirasheela) e as lamparinas (kalivilakku).

A MÚSICA

Canto

Conforme citado anteriormente, os cantores são os responsáveis pelo texto do Kathakali. As melodias são cantadas usando as bases, escalas e estilos da música carnática, que é uma escola musical originária do sul da Índia. Para a formação de um cantor de Kathakali são necessários de 4 a 6 anos de estudo e longos anos de prática dentro e fora do palco.

Além do vocal os cantores ainda são os responsáveis pelas contagens rítmicas e o tempo das músicas. Para tal, utilizam dois instrumentos: Chengalam (prato metálico circular, tocado com uma baqueta) e Elathaalam (dois pratos tocados um contra o outro).

“O músico de Kathakali deve ser não apenas a expressão vocal dos atores, mas também o mais importante ator fora do palco, com vários papéis para representar. Ele tem que ser um adepto do conhecimento dos vários movimentos, mudras, expressões e status dos atores de maneira a interpretá-los através de sua música. Para inspirar os atores ele tem que inspirar a si mesmo. Ele tem que chorar, dançar e gritar através de sua música.” (Bharata, vol. 2, p. 191)

Todos os músicos se apresentam com o peito nu, vestindo um simples lungi, um tecido de algodão enrolado na cintura. Utilizam ainda cordões dourados no pescoço.

Percussão

A percussão no Kathakali é realizada com 3 instrumentos: chenda, maddalam e edakka (somente para as personagens femininas). Assim como tocá-los, confeccionar e afinar os instrumentos é um processo muito complicado.

Chenda: a parte central do chenda é um tubo feito da madeira de qualidade superior da árvore da jaca ou outras madeiras nobres indianas. Tem pele nos 2 lados, uma mais tensionada e aguda e a outra frouxa e grave. Toda a parte do corpo é feita artesanalmente com medidas precisas. Pesando 10 kilos, o chenda é apoiado no ombro esquerdo e tocado na vertical, com baquetas nas 2 mãos, sendo que a direita faz as batidas em dobro, com uma técnica lateral (movimento semelhante ao de passar manteiga).

Maddalam: é um instrumento também feito com madeiras nobres e com peles nos dois lados, porém tem formato de barril e é tocado na horizontal, preso na cintura. Pode chegar aos 20 kg, o que exige preparo dos percussionistas. No lado agudo, utiliza-se a mão direita com dedais nos três dedos centrais. No lado grave a mão não usa acessórios.

DSC_1111Músicos tocando Maddalam (esq.) e Chenda(dir.).

Edakka: instrumento utilizado nas cenas das personagens femininas. De madeira, tem formato de ampulheta e é pendurado no ombro esquerdo, sendo tocado com uma baqueta na mão direita. As peles são coladas em aros e amarradas com cordas, o que permite que o músico, ao fazer o movimento de empurrar o instrumento para baixo ou puxá-lo para cima, consiga alterar a tensão das peles. Músicos experientes conseguem reproduzir melodias complexas utilizando esta técnica.

22141152_1721638387881366_1358177904596656909_nMúsico tocando Edakka.

Além da percussão e dos tambores no início dos espetáculos, em alguns espetáculos é comum o toque do shankhu: um tipo de trompa feita com uma grande concha marinha na qual uma pequena abertura numa das extremidades funciona como bocal. O instrumento evoca um dos mais sagrados símbolos do hinduísmo, o mantra om, o som da criação.

O chenda, o maddalam e  o edakka são tocados para acompanhar o ator mesmo quando não há versos cantados. Assim, os percussionistas devem estar familiarizados com o repertório, improvisações, gestos e emoções de cada verso e cena. Os artistas vão se capacitando conforme vão fazendo o treinamento, assistindo os mestres e ganhando experiência no palco.

A alma de qualquer percussão e da dança pura é o ritmo que a revela. Numa observação mais próxima, podemos perceber que o ritmo não é o som das batidas das baquetas da percussão, nem os passos do ator, mas sim o som do silêncio criado entre as batidas e os passos. No Kathakali são utilizados 4 importantes ritmos básicos: chembata, chemba, atantha e panchari.

AS HISTÓRIAS

As dramaturgias descendem de épicos que, em si mesmos, constituem extraordinárias narrativas sobre nada menos do que a história da humanidade. O mais importante deles, o Mahabharata, compilado a partir do século X a.c. com base em tradições orais imemoráveis, conta com 100.000 estrofes, oito vezes mais longo que a Ilíada e a Odisséia juntas.

Os temas desta arte inspiradora são tirados da mitologia rica e colorida da Índia. O repertório de histórias do Kathakali é chamado de aattakkatha, que significa a história (katha) para atuar/dançar (attam). Os livretos do Kathakali trazem consigo diálogos e retóricas.

O texto do Kathakali é dividido em slokam, padam e dandakam. Os slokans englobam o texto do autor para elucidar a trama, o contexto e a situação. Às vezes, o slokam é necessário na peça para completar os tempos entre as cenas e nesse caso são chamados de itaslokam.

Os padas são os diálogos que os personagens decretam. O dandakam encontra-se entre o slokam e o padam e serve para explicar o contexto ou parte da narrativa.

Existem cerca de 200 aattakkathas, sendo que 34 são comuns e 15 são regularmente apresentadas no palco. Todas as peças são editadas e as apresentações são geralmente limitadas a 3 ou 4 horas.

A tradicional composição da aattakkatha necessita de uma noite inteira, começando ao pôr-do-sol e levando de 7 a 9 horas para completar a performance. Sendo uma única peça apresentada por noite, a maioria dos compositores escreveram as peças com os tempos lentos no começo e tempos rápidos conforme a meia noite vai chegando.

BIBLIOGRAFIA

BHARATA. The Nat yashastra [Dramaturgia], 2 vols., 2a ed., tradução Manomohan Ghosh. Calcutta: Manisha Granthalaya, 1967.

GOPALAKRISHNAN, K. K. Kathakali Dance-Theatre: A Visual Narrative of Sacred Indian Mime. 1 ed. New Delhi: Niyogi Books, 2016. 295p.

http://www.kathakalischool.com