Arte Jornada …Canina?

Era 3 de agosto de 2017, por volta das 20h. Voltávamos do jantar. Sempre fazemos o caminho de volta do restaurante para a escola pelo lado esquerdo da estrada. Nessa noite havia muito trânsito e ainda não havíamos conseguindo atravessar, caminhávamos pelo lado direito. Estávamos conversando e rindo, sempre um lembrando ao outro: – Nós estamos na Índia! Tudo aqui é tão especial que parece um sonho, então de vez em quando nos pegamos falando sobre isso, que nossa estada aqui é real e está acontecendo. Dentro desse contexto de felicidade e risadas, a Janine escutou um barulho vindo da vegetação ao lado da estrada, estava escuro e ao ligar a lanterna, a surpresa: 6 filhotes de cachorro.

20170803_200520Seis cachorrinhos, abandonados à própria sorte.

A primeira reação foi de raiva. Como alguém abandona filhotes tão próximo a uma estrada super movimentada, com tantos riscos? Fomos até a escola, chamamos nosso amigo Satheesh e voltamos ao local onde os cachorros estavam. Pensamos um pouco e decidimos levá-los a um local um pouco mais seguro. Uma área de mata, situada entre a estrada e o trilho de trem. Compramos leite e alguns biscoitos para que eles se alimentassem.

Voltamos para a escola e conversamos com todos, na tentativa de achar uma solução para que os bichinhos pudessem viver. A conversa foi muito desanimadora. Na escola era impossível alojá-los e nos contaram que os indianos não tem a mesma relação que nós, brasileiros temos com os caninos. O animal sagrado aqui é a vaca, ela recebe todo o cuidado e a atenção do povo, raras são as casas com outros animais de estimação, então os cachorros (e os gatos) vivem nas ruas, lidando com violência de alguns filhos-da-puta e tentando sobreviver ao insano trânsito local.

No outro dia retornamos ao local e lá estavam nossos filhotes. Mais leite, comida e um pequeno exame para diagnosticar: 5 meninas e um menino.

Demos então nomes:
Ka, Tha e Li (em homenagem à arte que viemos estudar);
Chen e Da (chenda é o principal instrumento musical usado no Kathakali);
Alex Mineiro (8 gols na fase final do Brasileirão de 2001, levou o nosso Atlético Paranaese ao título nacional).

20170805_140335Janine alimentando a moçada após a chuva.

No dia seguinte, o primeiro baque. Li havia sumido. Procuramos por toda parte, mas nem sinal dela. Esperamos o retorno, mas ela nunca voltou e não sabemos o que aconteceu com ela. Fizemos uma casinha improvisada para os dias de chuva (que os danados insistiam em não usar) e começamos uma campanha nos grupos locais das redes sociais tentando achar interessados em adotar os filhotes, mas ninguém se prontificou. Tentamos também ajuda com Faculdades de Veterinária da região, mas o contato era impossível, nossos telefonemas não eram atendidos e nossos e-mails nunca tiveram resposta.

20170806_130318Os dias passaram e os filhotes foram crescendo…

Os dias foram passando até que veio nossa pior semana aqui. Eu (Mateus) me machuquei jogando futebol (2 grandes ferimentos no braço) e tive uma lesão mediana em uma costela, além disso fiquei doente, com febres terríveis e uma fraqueza constante. Inicialmente, a médica suspeitou de dengue, mas acabou não se confirmando. Nesta terrível semana, Tha e Ka sofreram gravíssimos acidentes com os trens e não sobreviveram. Estávamos desesperados. Alimentávamos os filhotes 2 vezes por dia, e cada vez que chegávamos no local onde estavam éramos tomados pela ansiedade, com a possibilidade de mais algum cachorro ter sumido ou morrido.

20170821_183722Da, Chen e Alex Mineiro: os sobreviventes.

Passado algum tempo, eu (Mateus) já estava bem melhor e num determinado dia alguns homens colocaram vacas para pastar no mesmo local onde nossos cães estavam. Ficamos assustados mas para nossa surpresa, os cachorros e a vaca viraram amigos e sempre estavam brincando juntos. Ela nos ajudava a cuidar deles, temos certeza.

Veio então, a grande notícia. A Paws Thrissur, uma ONG de proteção animal situada em uma cidade próxima respondeu nosso contato. Nos informaram que o abrigo da instituição estava lotado e não tinham condições de receber mais animais, mas nos passaram o telefone de um homem aqui da região que também realizava um trabalho de recolhimento e tratamento de animais abandonados: Umesh Radhakrishnan. Ligamos para ele e combinamos de nos encontrar. No dia seguinte ele veio até a escola e fomos juntos até o local onde estavam Chen, Da e Alex Mineiro. Levamos os cachorros para a escola e Umesh seguiu com eles e mais um outro cão para sua casa. Estávamos entristecidos pela despedida mas extremamente felizes pela vida digna que nossos filhotes teriam dali para frente.

Passado mais de um mês, e com a proximidade do nosso retorno para o Brasil, fomos visitar nossos cachorrinhos. Umesh mora com a esposa em uma casa cheia de espaço e de amor na vila de Desamangalam, distante 10km da nossa escola. Atualmente, lá estão 10 cachorros: filhotes, velhinhos, saudáveis e recém-chegados com problemas de saúde. Ele alimenta, trata e encaminha os animais para adoção.

UmeshUmesh com alguns dos cães que resgatou.

Fomos então a um cômodo da casa, Umesh abriu a porta e lá estavam nossas meninas: Chen e Da. A alegria era visível nos olhos delas e nos nossos. Que felicidade vê-las saudáveis. Elas correram desesperadas em nossa direção e aí foi só festa. Rabos balançando, lambidas e mais lambidas, abraços e brincadeiras. Umesh nos contou que elas tinham novos nomes: Chaplin e Rabbit. Adoramos os novos nomes, mas para nós serão sempre Chen e Da.

DSC_4326Da, Mateus e Chen.
DSC_4355Da, Janine e Chen.
DSC_4357Satheesh com Da e Chen. Quando viajamos ele nos ajudou a alimentar a turma, mesmo com medo de cachorros.
DSC_4389Muito obrigado amigos!

Antes de voltarmos para a escola, mais uma parada. Alex Mineiro foi adotado por um senhor que morava na mesma vila que Umesh. Chegamos e a cena se repetiu. Quanta emoção! Nosso garoto estava super gordinho, está sendo alimentado com peixe e sambar, comidas típicas da região. Já dá para perceber que será um cachorro de grande porte. Desde que encontramos os cachorrinhos ele sempre foi o maior e cuidou das irmãs. Um craque, como o jogador que homenageamos. Nos despedimos do senhor (que rebatizou nosso filhote de Rorri) e de Umesh, com a promessa de continuarmos em contato para acompanhar o crescimento dos nossos bebês.

DSC_4396Janine e Alex Mineiro, abraçados.
DSC_4390Mateus e Alex Mineiro, matando a saudade.

Na noite em que encontramos os cães, conversamos que se um deles chegasse à vida adulta já seria um milagre, três vão conseguir. Temos certeza de que nosso encontro com Ka, Tha, Li, Chen, Da e Alex Mineiro não foi por acaso. Eles precisavam de nós e nós deles. Tantos foram os momentos (felizes e tristes) que passamos juntos. Esses 6 pequenos bolinhos de fofura nos ensinaram muita coisa e jamais sairão da nossa memória. São parte da nossa vida, para sempre.

DSC_4399Alex Mineiro, o maior da ninhada. Sempre cuidou das irmãs.

A intenção deste post é valorizar a atitude e o trabalho deste grande homem: Umesh Radhakrishnan. Num local onde as pessoas não tem grande apego aos cães ele faz a diferença. Pessoas como ele nos inspiram e nos fazem acreditar que mesmo em tempos tão obscuros como os que vivemos hoje, ainda há espaço para a humanidade, o amor, o bem pelo bem.

O mundo precisa de mais Umeshs.

Obrigado amigo.

Onam, a festa das famílias de Kerala

O Onam é o mais importante festival do estado de Kerala. Acontece entre os meses de agosto e setembro e dura 10 dias, sendo 2 deles feriados. De acordo com uma lenda popular o festival é celebrado para receber o Rei Mahabali, cujo espírito visita Kerala durante as festividades. O evento ainda celebra a colheita do arroz.

95e694f39e37ea690caf7683040faee80c3d6ec3_originalA figura do Rei Mahabali está por todos os lados durante o Onam, algo semelhante ao papai noel no natal.

Segundo a lenda, durante o reino de Mahabali, Kerala viveu seu apogeu. Todos eram felizes e prósperos e o rei era muito apreciado pelo povo. Porém, Mahabali tinha um grave defeito: ele era egoísta. Esta falha foi utilizada pelos deuses para trazer um fim ao seu reino, pois se sentiam desafiados pelo crescimento de sua popularidade. No entanto, por causa de todo o bem feito para as pessoas de Kerala, os deuses permitiram que ele pudesse visitar anualmente todos os súditos, aos quais ele era tão apegado. É esta visita que é celebrada como Onam a cada ano. As pessoas não poupam esforços para celebrar o festival de uma maneira grandiosa e impressionar o rei Mahabali durante sua visita.

Apesar de ser uma comemoração hindu, as outras religiões abraçam as festividades como forma de comunhão e união entre os povos de diferentes credos.

Nossa vivência do Onam começou (maravilhosamente) por acaso. Nosso mestre de Kathakali, Kalamandalam Udya Kumar, havia nos convidado para assistir sua performance em um templo na cidade de Ernakulam. Prontamente aceitamos, pois jamais perderíamos a oportunidade de assistir nosso guru atuando a arte que nos ensina. Após cerca de 5 horas de viagem chegamos ao local. Aí veio a surpresa! O Thrikkakkara Vamana Moorthy Temple é o mais importante do estado e há séculos recebe as festividades que dão início ao Onam. Sem saber, estávamos no coração da maior festa de Kerala. Entre as tradições estavam as primeiras orações, o hasteamento do estandarte do festival, elefantes enfeitados, fogos de artifício, diversas apresentações artísticas e muita, mas muita gente feliz!

DSC_2214Elefante enfeitado para o início do Onam.

A apresentação do nosso Guru foi mágica. Como é bom ver um mestre fazer no palco o que ensina durante suas aulas. Tudo estava lá: a precisão, a humildade, o rigor, a troca com os outros atores muito mais jovens que ele… Após o espetáculo ele nos confessou que ainda sente muita alegria em atuar (são mais de 2000 performances na Índia e em vários outros países), mas atualmente o que ele realmente ama é ensinar. Nos disse que a felicidade em ver um aluno atuando é o que o move. Um grande e talentoso mestre por quem seremos eternamente gratos! Na hora de voltarmos para casa, os ônibus já haviam parado de circular e voamos para a estação de trem mais próxima. Conseguimos chegar a tempo e após 3h no trem (em pé) estávamos em casa. Cansados, felizes e agradecidos.

DSC_2416Kalamandalam Udya Kumar vivendo a personagem Ranumam. Um grande mestre.

Alguns dias depois o diretor da escola nos convidou para assistir uma apresentação de Chenda (instrumento que eu, Mateus estou estudando) em Kannambra, uma vila distante cerca de 3h de Cheruthuruthy. Novamente o destino nos sorriu. Quem acompanha o blog sabe que tivemos a oportunidade de conhecer Gopi, a maior estrela e referência do Kathakali. Em Kannambra conhecemos Mattanur Sankarankutty, o maior percussionista de Kerala. Antes da apresentação nos recebeu em seu camarim e ficou muito surpreso em saber que um brasileiro estava aprendendo Chenda, desejou toda a sorte nos estudos e felicidade na carreira musical. A apresentação foi uma catarse coletiva! Dezenas de músicos tocavam os mais variados instrumentos de percussão, cada vez mais rápido, mais intenso, até alcançar o que classificamos como um estado meditativo, transcendental. Foi inspirador e inesquecível! Voltamos para Cheruthuruthy sabendo que no outro dia estaríamos de volta em Kannambra, para mais apresentações.

DSC_2509Mateus Ferrari e Mattanur Sankarankutty.

E assim aconteceu, fomos com o ônibus da escola, cheio de artistas que se apresentariam no festival. A primeira apresentação foi de artistas locais, em um número com um homem, uma mulher e um palhaço. Era uma comédia. Não entendemos as palavras e cantos, mas a performance era engraçadíssima, o povo gargalhava nas cadeiras… Aí veio uma decepção. A peça foi interrompida para que políticos fizessem seus discursos. Entendemos as diferenças entre as culturas, mas achamos o acontecido extremamente desrespeitoso com os artistas. Após os (longos) discursos políticos a performance continuou.

DSC_2548A comédia interrompida levou o povo às gargalhadas.

Na sequência, mais um momento daqueles que só quem se joga no mundo vive. Subiu ao palco uma banda com bateria, baixo, guitarra, teclado e um violinista. A curiosidade sobre o que viria era grande. Nas primeiras notas já estava claro o estilo musical: heavy metal. Sim, heavy metal! A banda tocava pesado e o violinista esbanjava talento e carisma. Teve até Mozart, em uma versão pesada e surpreendente. O show animou o povo e as famílias levantavam das cadeiras e balançavam os corpos ao som da banda. Aliás, o povo de Kerala gosta é de arte, sem preconceito contra estilos. Se um artista está no palco, o povo está lá, lotando os espaços, aplaudindo e vivendo a arte. É lindo e emociona mesmo.

DSC_2613Heavy metal! \,,/

Após a banda, alguns outros números musicais com os instrumentos tradicionais do estado. Veio então Galaxy of Musicians, um espetáculo de dança, produzido pela nossa escola, que traz à vida uma obra do pintor Raja Ravi Varma. Cada uma das mulheres retratadas na pintura apresentava uma forma de dança, enquanto o dançarino que vivia Raja pintava cada uma delas. Visualmente era um colírio, lindíssimos figurinos, coreografias e luzes, com o apogeu no final, onde as mulheres eram emolduradas, reproduzindo a pintura maravilhosamente.

Raja Ravi Varma-936699A pintura original de Raja Ravi Varma.
DSC_2734Cena final do espetáculo Galaxy of Musicians.

Vimos ainda diversas danças das alunas da nossa escola e novamente felizes e cansados, voltamos para casa.

Passados alguns dias, nosso destino era Thiruvanantaphuram, a capital de Kerala. Viajamos com Kalamandalam Gopalakrishnan, o diretor da escola, no trem da madrugada (em um vagão sleeper, com camas individuais e muito barato). Chegamos às 5h da manhã e após uma soneca no alojamento onde ficamos, saímos visitar alguns templos na cidade. Seguimos então para a casa de Rama Chanran, um amigo de Gopalakrishnan, onde experimentamos o Onasadya, refeição tradicional das festividades de Kerala, com arroz, diversos molhos e doces, servidos em uma folha de bananeira. Nos sentimos muito acolhidos, bem-vindos e agradecidos pela oportunidade.

DSC_2889Família de Rama Chanran após o Onasadya, refeição tradicional de Kerala.

Após o almoço, fomos para Kovalam, uma praia que fica cerca de 40 minutos do centro da cidade. Mais uma vez estávamos lá, frente a frente com o Mar Arábico, com o Oceano Índico. Imediatamente achamos um Beer Parlour (local onde é permitida a venda de bebidas alcoólicas) e degustamos uma cervejinha de frente para a praia. Centenas de famílias coloriam a areia e a felicidade era notável. Os indianos gostam de praia, é de encher os olhos! Ficamos por lá até o pôr-do-sol e voltamos para o alojamento.

DSC_3029Pôr-do-sol inesquecível em Kovalam Beach.

No dia seguinte, fomos cedo para o Rally for Rivers, um programa cultural em defesa da limpeza e conservação dos rios da Índia. Uma iniciativa louvável que certamente conta com o nosso apoio. Os artistas da nossa escola estavam lá, representando sua cultura e colorindo a rua com a arte de Kerala.

DSC_3150Artistas da nossa escola após o programa para o Rally for Rivers.
3Militando pelos rios e tirando muitas fotos.

Após o programa, fomos para Anchal, visitar a família do nosso guru Udayan. Seu pai estava fazendo 90 anos (segundo as contas da família, pois o senhor garantia que estava fazendo 93).

DSC_3181O aniversariante e sua linda esposa. Pais do nosso guru.

A família toda estava reunida, avós, filhos, tios, tinha até um primo que mora no Canadá e veio visitar a família durante o Onam. O dia foi delicioso, lembrando muito os almoços de Natal das nossas famílias. Todos comendo juntos, e após a refeição alguns ajudam na louça, uns vão tirar uma soneca, as crianças vão brincar. No final da tarde, um café na sacada da casa com um longo bate-papo, muitas histórias e muitas risadas. Estávamos em família, literalmente, pois ali naquele dia nós éramos parte do clã. Somos muito agradecidos pela oportunidade de viver estes momentos, estamos sempre abertos para receber os costumes e as pessoas e quando sentimos reciprocidade nisso, é difícil explicar o que acontece, talvez seja esse tipo de coisa que faz a vida verdadeiramente valer a pena: a família, os amigos, o respeito e a amizade. Estava tudo lá.

DSC_3176FAMÍLIA!

Gokul, filho do nosso Guru nos levou de carro até a rodoviária mais próxima e após algumas horas no ônibus, chegamos em Thrissur. O desafio era achar um novo ônibus para nosso trecho final até Cheruthuruthy (cerca de 30km). Eram 2h30 da madrugada quando chegamos e esperamos até as 4h30 até o ônibus finalmente aparecer. Era a vida nos dizendo: “passaram uma tarde de sonhos né, então toma um perrengue pra lembrar da realidade!”. Justo. Cansamos, mas levamos a espera na esportiva e quando o Sol quase amanhecia estávamos novamente em casa.

DSC_3361Encerramento do Onam em Thiruvanantaphuram.

Quando o Onam já parecia terminado, mais uma aventura: Nossa escola iria participar do desfile de encerramento das festividades na capital do estado. Inicialmente, não iríamos, pois estávamos muito cansados das viagens e precisávamos de um tempo para nos recompor. Mas, somos aventureiros! Nossos amigos nos convenceram e pensamos: “teremos muito tempo para o descanso ainda, vamos viver!”. Entramos no ônibus da escola e viajamos a madrugada toda para Thiruvanantaphuram. Enquanto as dançarinas se maquiavam no alojamento improvisado em um templo, achamos umas esteiras, jogamos no chão e ali mesmo dormimos, ao som das meninas conversando e dos cantos hindus que ecoavam pelo templo. Saímos para almoçar e nos dirigimos ao começo do percurso, que percorreria 6km pela ruas da capital.

DSC_3356As lindas dançarinas de Mohiniyattam da nossa escola.

O desfile é um mega evento, com milhares e milhares de pessoas na rua para assistir. Antes do começo, seguimos pelo trajeto e achamos um local para apreciar e fotografar as ruas se enchendo de cores e alegria. A apresentação conta com crianças do esporte, artistas de todos os tipos, percussionistas, carros alegóricos, lembrando um pouco nossas escolas de samba. Após todos passarem por onde estávamos, saímos em disparada pelo meio do desfile para encontrar os amigos da nossa escola e tirar mais algumas fotos. Terminado o evento fomos novamente até o templo para jantar e em seguida voltamos para Cheruthuruthy.

DSC_3550Pulikali, a dança dos tigres que sempre anima os lugares por onde passa.
DSC_3665Povo lota as ruas de Thiruvanantaphuram para ver o desfile de encerramento do Onam.

O Onam mexe com o povo de Kerala, é um período de muita festa e arte feito pelas e para as famílias. Foram dias de sonho onde conhecemos pessoas, fizemos amizades e nos sentimos acolhidos, parte do que estava acontecendo e da vida que estavam vivendo. Com o corpo cansado, a alma serena e o coração jorrando alegria agradecemos aos deuses e ao povo de Kerala pela oportunidade. É algo que vamos levar para sempre. Nós amamos este lugar e estas pessoas!

Nandi, Thanks, Namastê!

Ps.: Para mais fotos do Onam, visite nossa Galeria de fotos: https://artejornadahumana.com/galeria-de-fotos/

Curiosidades sobre a Índia: como é viver…

…sem papel higiênico

Numa breve pesquisa sobre a Índia em alguns blogs de viagem já havíamos lido que os indianos não tem o costume de usar papel higiênico. Toda a limpeza pós número 1 e 2 é feita com a mão (esquerda, porque a direita se usa para comer) e com um balde de água ou chuveirinho que sempre tem embaixo das torneiras, aliás os indianos acham super esquisito nosso hábito de limpar-nos com papel higiênico, para eles nunca se limpa 100% com o papel, sempre acabamos com a bunda meio-suja (tem bastante verdade nisso hein…). Ao chegarmos aqui constatamos que o fato é verídico, embora nos hotéis e restaurantes mais turísticos sempre há uma privada e papel higiênico à disposição. Nos locais sem preparação para o turismo há apenas um buraco no chão (acho que nossos pais e mães devem ter experimentado isso na infância). Aqui na escola em que moramos temos nosso vaso sanitário, balde e chuveirinho. No primeiro dia até tinha papel, mas depois tivemos que ir atrás e no mercado o preço é bem salgado. Devido aos gastos resolvemos racionar e começamos a aderir ao costume de usar o chuveirinho e fazer o trabalho com a mão esquerda mesmo…

DSC_2817Novo país, novos costumes…

…sem talheres

Aqui todas as refeições são feitas com a mão direita. Em todos os restaurantes há uma pia (geralmente sinalizada com WASH) e assim que entram no estabelecimento todos vão direto lavar a mão antes de se sentar. Acabando a refeição a mesma coisa acontece já que as mãos estão todas lambuzadas de molhos e condimentos. Confesso que eu, Janine, me adaptei bem e apesar de muitas vezes derrubar comida na blusa ou na calça com o tempo fui me acostumando, agora o Mateus… não teve jeito, cada vez que tinha que juntar o arroz caía tudo, o que fez com que o dono do restaurante nos servisse nossas comidas sempre com uma colher para facilitar a nossa vida. Falando em comida, a saudade da comida brasileira (e japonesa) é imensa. Os temperos usados no dia-a-dia são sempre muito apimentados, mas não reclamamos já que temos como nos alimentar, embora muitas vezes nos pegamos conversando sobre a saudade de um pão francês com manteiga e queijo, um prato de arroz e feijão, etc…

DSC_0113A apimentada e saborosa comida de Kerala.

…com segurança

Uma das melhores coisas de se viver em Kerala é poder sair na rua ou ir nos lugares sem ter a preocupação de ser assaltado ou correr algum risco. Claro que não podemos garantir que tudo é 100% seguro, mas durante a nossa jornada não vimos e não soubemos de nenhum caso de roubo ou algo do tipo. Aquela angústia que nos acompanha nas ruas do Brasil ou no cuidado com a bolsa dentro dos estabelecimentos aqui é substituída pela tranquilidade (o medo maior é de ser atropelado devido ao trânsito). Conversamos uma vez com o nosso amigo Sateesh e ele disse que aqui as pessoas não tem arma e os casos de morte são relacionados à crimes passionais ou disputas políticas. Aqui também se vive uma preocupante polarização entre esquerda (situação) e direita (oposição). Na rua andamos com celulares, câmeras a mostra e nunca corremos algum tipo de risco e nem passamos medo o que nos faz refletir o nível de insegurança que vivemos no Brasil e quanto viver assim parece absurdo. É uma das diversas coisas que vamos sentir falta daqui.

DSC_0030Assaltos e roubos não existem, mas o trânsito é maluco e temos de estar sempre atentos.

…mais barato

Apesar do caro papel higiênico (cerca de R$ 2,50 o rolo), realmente não podemos reclamar dos preços daqui, as coisas são baratas. Na conversão R$1,00 vale cerca de 20 rúpias. Alguns exemplos: Hamburguer de Frango + batata frita + Milk Shake = R$5,00, pacote de pão = R$1,15. O Mateus ficou doente há algum tempo e tivemos que usar o hospital privado aqui da cidade. A consulta custou R$5,00, o exame de sangue R$5,05, esparadrapo R$ 0,17. Esses dias atrás a cidade fez um protesto devido o aumento do valor dos impostos, só que o imposto aqui em geral não ultrapassa os 18%, e no Brasil parece que não temos a mesma consciência na luta pela diminuição das nossas absurdas taxas. Vale ressaltar que apesar de os valores serem baixos a qualidade dos produtos é boa, a maioria das vezes o problema está no cuidado do armazenamento.

DSC_0034No mercado, sempre tudo jogado.

…com um nível de higiene abaixo do que estamos acostumados

Se tem uma coisa que no começo nos incomodou foi o nível de limpeza dos lugares públicos e alguns lugares privados. Nas ruas então… nem se fala, o lixo faz parte da paisagem das cidades e os cheiros colaboram com a situação nada acolhedora. Aqui em Cheruturuthy a quantidade de lixo nas ruas é bem menor e o que predomina nas paisagens são as palmeiras e coqueiros, mas na rua não tem uma lata de lixo ou lugar específico para o depósito do lixo. Até na escola não sabemos ao certo o que fazer. O que podemos constatar é que a quantidade de lixo produzido é bem menor que no nosso país uma vez que comem mais comidas naturais, menos industrializadas, não usam papel higiênico, etc… mas a falta de cuidado realmente é preocupante. Junto com tudo isso, o clima é super úmido e as paredes ficam manchadas e mofadas, além do imenso número de teias de aranha por todos os lados. Cada noite que passa aumenta inacreditavelmente o número delas. Esse é um fato que nos difere bastante, percebermos que a limpeza não é uma grande preocupação da maioria dos indianos.

DSC_1381Aracnofóbicos com certeza terão problemas na adaptação…

…com pessoas que são curiosas por você

O melhor do Brasil são os brasileiros e o melhor da Índia são os indianos. A simplicidade e a humildade com que eles vivem são o melhor aprendizado daqui. Além disso eles são muito curiosos com tudo, perguntam coisas que para a gente são íntimas, apesar de às vezes também demostrarem um sorriso de vergonha. Para eles nós somos como famosos e as selfies nunca param. Sempre vai ter gente querendo tirar foto com você o que para a gente era muito estranho no começo mas agora já estamos acostumados. Quem acompanha nossas redes sociais soube que o Mateus saiu em um jornal local por jogar futebol com os nativos. Aliás, isso é uma coisa que escutamos aqui, que não são todos os estrangeiros que se envolvem com a comunidade (como jogar bola, ir nos casamentos) e que por isso muitas pessoas gostam da gente e a curiosidade é ainda maior já que damos mais abertura. Nossa jeitinho brasileiro contribuiu com o carisma…

IMG_20170806_002557_058Sorria!

…viver em uma vila de artistas

Somos artistas,  no Brasil a grande maioria dos nossos amigos também são. Aqui em Cheruthuruthy a cidade gira em torno da Kerala Kalamandalam (Universidade de Artes) então quase todos são artistas (músicos, atores, escultores, dançarinos, pintores, cineastas, fotógrafos, etc…). Em cada conversa nos restaurantes e bar (no singular, só tem um bar aqui) o assunto quase sempre é a arte, a universidade e a intensa programação cultural do estado. Muitas (e lindas) são as manifestações artísticas de Kerala e diferente do Brasil aqui a arte é muito valorizada. As apresentações estão sempre lotadas e o público está acostumado com performances de mais de 6 horas, ninguém arreda o pé.

DSC_2157Antes das apresentações o papo é sempre muito divertido, com causos do passado e muitas histórias.

Existem muitas outras coisas que são diferentes por aqui: andar de tuk tuk, escutar inglês com sotaque indiano, tomar banho de água gelada, andar nas ruas sem calçadas, etc… o mais legal disso tudo são as descobertas, as surpresas, é entender que o diferente é um grande aprendizado, que nossa vidinha é muito pequena e há um mundão de coisas para descobrirmos. A Índia tem nos trazido a consciência de que apesar das diferenças o que nos encontra é a essência de ser humano.

Cherai Beach, um dia na praia mais colorida que já vimos

Fernando Pessoa escreveu: “O mar é a religião da natureza” e como estamos cada vez mais em contato com a espiritualidade e cheios de vontade de conhecer o novo, esperamos ansiosos pela oportunidade de conhecer o litoral da Índia e nos banharmos em seu mar.  

A viagem estava programada para uma semana antes do acontecido. Havíamos comprado a passagem de trem pela internet com destino à Cherai Beach, praia indicada pelos nossos amigos e que fica a cerca de 90km de Cheruturuthy. Porém, os Deuses do Kathakali nos mandaram uma forte chuva na ocasião, o que cancelou nossos planos litorâneos e nos deu a oportunidade de assistir a performance do mestre Kalamandalam Gopi (conforme relatado no post anterior). Assim, deixamos para o próximo fim de semana, mas não compramos passagem, não reservamos hotel e nem arrumamos a mala um dia antes, com receio de termos mais dias de chuva.

Acordamos cedo no sábado, meio de ressaca da festança de sexta a noite e ao sair de casa um lindo dia de sol nos esperava lá fora! Apressados, arrumamos nossas mochilas e saímos sem expectativa nenhuma a não ser a de viver o presente e abraçar o que nos esperava pela frente.

20170812_083620Estação de Shoranur Junction, nosso ponto de partida.

Fomos até a estação de trem para ver se havia bilhetes no mesmo trem que havíamos comprado as passagens na outra semana. Após uma espera na famosa e legítima “fila indiana”, conseguimos 2 bilhetes em outro trem, na classe mais baixa de todas, junto com o povão. Esperamos para ver no painel qual era nossa plataforma e no horário indicado nada havia aparecido. Fomos informados que nosso trem estava atrasado e só nos restava esperar.

20170812_083935Congestionamento humano no caminho para as plataformas de embarque.

Tomamos um café da manhã enquanto o trem não vinha até vermos no painel o número da plataforma: 7, a última da estação. Subimos junto com um monte de gente passando por um corredor até chegarmos no local. Haviam nos informado que o vagão de nossa classe seriam os primeiros ou os últimos. Entramos em um sem saber ao certo e nos mandaram embora porque era para pessoas com necessidades especiais. Entramos no próximo e um guardinha nos assegurou que poderíamos ficar ali. Olhamos e não encontramos nenhum lugar para sentar. Continuamos ali na esperança de que alguém descesse nas próximas estações, mas o vagão só lotava cada vez mais. Nos sentíamos no Inter 2 lotado no horário de pico, só que com a diferença da paisagem verde e bucólica lá de fora. Um moço fez a gentileza de me dar o lugar (Janine), porém minhas pernas não podiam se mexer porque havia uma senhora com 3 crianças bem na minha frente. Ninguém se movia. Cada vez que o trem parava o vagão era tomado por um imenso calor e a cada movimento o pensamento era de como uma brisa pode ser valiosa e como são esses pequenos momentos de prazer que fazem a vida acontecer. O Mateus de pé, lutava com o calor, com os cotovelos, com os cheiros apimentados que pairavam no ar. Chegamos na estação de Alluva após 2h30 de viagem.

Partimos para a próxima etapa, um ônibus até a cidade de North Paravur, a mais próxima da praia. Depois da experiência que havíamos tido no trem cogitamos a possibilidade de chamar um Uber para nos levar, sentados, com ar condicionado, mas o dinheiro falou mais alto e fomos até a rodoviária pegar o ônibus. Conseguimos lugar para sentar, apertadinhos, mas nada que pudéssemos reclamar perto da situação anterior. Mais 1 hora de viagem e chegamos no local esperado.

Nessa altura a fome já estava nos sufocando e paramos para comer algo ali mesmo onde descemos. Almoçamos e fomos para a última etapa da viagem: um tuk tuk até a beira da praia. Cerca de 15 minutos e enfim chegamos em Cherai. Eram 14h, estávamos com 2 mochilas na costas e a primeira coisa que fizemos foi sentir a brisa do mar e ver como eram as ondas. Saímos atrás de um hotel que havíamos visto na semana anterior mas é claro que não havia lugar. Fomos para o outro lado, e nada… até que encontramos um quarto, muito bom por sinal, espaçoso, de frente para a praia com uma cama enorme e muito confortável. Deixamos nossos pertences e saímos em busca de um espaço de areia para deixarmos nossas coisas e tomarmos o tão esperado banho no mar.

DSC_1434Cherai Beach.

Encontramos um lugar um pouco mais afastado e sem muita gente. O mar estava agitado o que nos fez tomar belos caldos. Eu (Janine) entrei de roupa pois não havia uma mulher que não estivesse vestida dos pés a cabeça. Ficamos um bom tempo observando o lugar, respirando a maresia, tirando muitas fotos e agradecendo pelo presente de estar ali.

DSC_1443Nosso reencontro com o Oceano Índico.

Cerca de 300 metros da praia, havia um lago que trazia uma paz e uma lembrança dos rios que passamos no norte do Brasil. Tiramos mais fotos maravilhosas e voltamos para a praia que de repente estava lotada de turistas por todos os lados. Mas não eram gringos como a gente, eram indianos que chegavam nos ônibus coloridos, lotados e cheios de alegria e animação. Entravam no mar de roupa, de shorts, calça jeans, do jeito que fosse. Era uma felicidade tão grande e tão genuína que nos prendeu a atenção por horas até chegar o pôr-do-Sol. 

DSC_1683Cores por todos os lados!
DSC_1678Alegria e brincadeiras o tempo todo.

Do nosso lado freiras, muçulmanos, hindus, casais de namorados, famílias, crianças, etc… todos juntos nesse lugar tão democrático e tão especial. Ali, aparentemente ninguém tinha problemas para resolver, nem preocupações. O que víamos era a alegria de estar vivo e poder receber de presente a vibração da natureza, do mar, do Sol. Fomos imundados de sorrisos constantes de alegria de viver. O pôr-do-sol encerrou nossa contemplação com um lindo espetáculo, mergulhando sobre o oceano Índico.

DSC_1624Pescaria tranquila no lago próximo à praia.
DSC_1745Sol mergulhando no Oceano Índico.

Terminamos o dia comendo uma pizza maravilhosa (de queijo…. como estávamos com saudades de queijo!!!!) num restaurante maravilhoso na beira do mar. Como havia acabado a luz ainda foi tudo à luz de vela. Ainda à noite, tomamos uma cerveja bem gelada em um bar à beira-mar.

No outro dia a viagem de volta também foi repleta de perrengues, mas depois do que havíamos presenciados no dia anterior não dava para reclamar de nada. Só agradecer… sempre…

Obrigado! Nandi! Namastê!

Ps.: Na galeria de fotos tem estas e outras muitas fotos do nosso dia na praia, confere artejornadahumana.com/galeria-de-fotos/

Kalamandalam Gopi, a encarnação da arte de Kerala

Vadakke Manalath Govindan Nair, ou Kalamandalam Gopi é a história do Kathakali em forma humana. Nascido em 1937 ainda está ativo e atuando pelos palcos da Índia e do mundo. É difícil explicar o peso da sua história e a relação que os artistas e admiradores da tradicional arte de Kerala tem com este senhor. Seria, guardadas as diferenças culturais, algo como a Fernanda Montenegro do teatro indiano. Por onde passa é reverenciado e sua trajetória é tida como exemplo de talento, dedicação e amor à arte. Além do Kathakali, também atuou em diversos filmes Malaialas (idioma do estado de Kerala), demonstrando versatilidade ao executar o ofício do ator em outra plataforma. Em resumo, uma lenda viva.

gopispeechKalamandalam Gopi discursando. Por muitos anos foi reitor da Kerala Kalamandalam (Universidade de Artes de Kerala).

Era sábado e na nossa programação iríamos ao litoral, para um fim de semana de descanso, mas uma forte chuva (certamente enviada pelos deuses do Kathakali) mudou nossos planos. Kunhikrishnan, nosso amigo, assim que soube que tínhamos cancelado nossa ida à praia abriu um largo sorriso e nos disse: – Hoje vocês vão ver a maior estrela do Kathakali. O brilho em seus olhos logo denunciou que o dia era de presenciar a história sendo feita. Ao final da tarde, ainda debaixo de muita água, partimos para a vila de Wadakkanchery, distante 10km da escola onde estamos morando.

DSC_0995Chutti, maquiagem do Kathakali.

A apresentação seria em um auditório de uma escola local. Na chegada, os tradicionais olhares “vocês tem cara de gringos” nos atingiam, sempre acompanhados de sorrisos e as inimitáveis balançadinhas-de-cabeça-com-sobrancelhas-levantadas, o jeito indiano de sinalizar alegria e boas vindas. Desta vez, porém, os cumprimentos vieram acompanhados com a afirmação: “Você é o brasileiro do futebol que saiu no jornal”! Eu (Mateus) havia sido entrevistado no dia anterior pois estou jogando futebol diariamente na escola local e a matéria impressa no Manorama (jornal local) estava na boca do povo. Depois de algumas selfies e bate-papos com o povo que ali estava, seguimos (convidados por Kunhikrishnan) ao camarim para acompanhar o Chutti (maquiagem do Kathakali).

DSC_1039Kunhikrishnan e Kalamandalam Gopi.

É sempre interessante ver a preparação dos atores do Kathakali; a delicadeza e precisão dos artistas de Chutti em seu ofício é uma experiência muito rica. O processo é longo e acompanhado de boas conversas e muitas risadas. No local onde estávamos se preparavam 4 atores. Ficamos por cerca de uma hora ali até sermos convidados a visitar o camarim de Gopi, uma oportunidade rara, visto que o mestre tem suas restrições e gosta de privacidade durante sua preparação antes do início dos espetáculos.
Ao entrarmos, a energia era quase religiosa. O artista de Chutti o ajudava, em silêncio, a se preparar para a apresentação. Kunhikrishnan nos apresentou a ele e ao saber que éramos brasileiros e estudantes do Kathakali, abriu um largo sorriso e nos cumprimentou. Eu (Mateus) perguntei se podia fotografar sua preparação e ele consentiu. Ficamos alguns poucos minutos ali e, não querendo atrapalhar, nos dirigimos para a porta para deixá-lo à vontade pois também somos artistas e temos nossos rituais. Veio então o momento inesquecível, Gopi me chama (Mateus) e me diz: – “Take one more photo”! Desajeitado, preparo a câmera e aponto para ele. Gopi olha fixamente para a lente, como quem diz “aproveita jovem estudante, aproveita”. Eu cliquei. Uma vez só. Era o bastante.

DSC_1042Kalamandalam Gopi, mestre maior do Kathakali.

Após os momentos vividos ali com o mestre, saímos para fazer um lanche e comprar algumas coisas no mercado. Na volta, muitas pessoas já estavam no auditório esperando o início da apresentação. Os artistas terminavam de vestir seus figurinos e faziam os retoques finais em suas maquiagens. A história a ser encenada era Karnasaphatham, uma narrativa épica sobre Karna (personagem de Gopi).

DSC_1247Kalamandalam Gopi como Karna.

A performance foi maravilhosa, com 4 horas de duração. Gopi esteve em cena durante quase todo o espetáculo. A idade pesa visivelmente em algumas cenas mais físicas (completamente compreensível, são 80 anos de idade), mas seu carisma, presença de cena e a densidade com que atua compensam qualquer limitação corporal. Durante o espetáculo, comentamos entre nós o quão sortudos éramos por estarmos ali, sentados no chão, na primeira fila, observando uma lenda performando sua arte.

DSC_1146Cena do Karnasaphatham.

Após o fim do espetáculo, jantamos no auditório mesmo e voltamos para casa satisfeitos, felizes e com a certeza de que o abraço amoroso que demos na Índia está sendo devolvido dia após dia em dobro.

DSC_1255Cena do Karnasaphatham.

É mais um post que não temos como terminar senão com um MUITO OBRIGADO! NANDI!

Ps.: Na galeria de fotos estão essas e outras fotos da nossa jornada.

https://artejornadahumana.com/galeria-de-fotos/

Kathakali School Society – Nossa escola, casa e família na Índia

Como já havíamos escrito em posts anteriores, a Kathakali School Society foi a primeira instituição a responder nosso e-mail com a carta-convite quando inscrevemos nosso projeto na Funarte. Antes de virmos, pesquisamos muito no website da escola (www.kathakalischool.com). Porém, na verdade, não tínhamos muita noção de como seria nossa rotina, os cursos, professores, acomodações, etc. Viemos no escuro esperando que a surpresa fosse boa, e….. FOI!!!

A única foto da sede da escola que havia no Google Maps (nosso melhor amigo nos planejamentos das viagens) era a placa da entrada e na nossa chegada, ao vermos a tal placa igualzinha a da foto, sentimos um alívio pelo fato da escola realmente existir e não termos nos metido em uma roubada. A emoção era de estar vendo na vida real algo que estava em nossos pensamentos nos últimos meses, que tomou conta de nossas vidas e que ali, vendo aquela placa, se tornava realidade.

DSC_0094A placa da entrada da Kathakali School Society.

A ESCOLA

Sábados e domingos a escola funciona com aulas gratuitas para crianças, ensinando as diversas linguagens das artes clássicas de Kerala. Tem aula de dança (Mohiniyattam e Bharathanatyam), percussão (chenda) e canto (música carnática). A idade das crianças vai de 5 a 17 anos, todas devidamente uniformizadas e que chegam animadíssimas para as aulas. A janela do nosso quarto dá para o pátio aonde as aulas acontecem, ou seja, sábado e domingo de manhã já acordamos com os barulhos das baquetas batendo na madeira compondo o ritmo das danças.

Durante a semana são ministradas as aulas de Kathakali em horários diversos conforme a grade de cada aluno. Tem ainda as aulas de Kalaripayattu, considerada uma arte marcial mas que também é apresentado como performances nos “programas” (palavras que eles usam para denominar uma sequência de apresentações artísticas). Essa aula é muito pesada fisicamente, portanto não conseguimos acompanhar o ritmo (já que o Kathakali já consome toda a nossa energia) mas confessamos que se tivéssemos “pique” faríamos também.

De manhã bem cedinho, às 6h20, eu (Janine) faço aula de yoga com um guru muito especial, que não fala muito inglês, mas no final nos entendemos através de palavras estratégicas e das demonstrações de cada exercício. A prática é diária e trabalha ainda mais a espiritualidade tão intensificada aqui na Índia, levando à descoberta de novos caminhos de consciência e iluminação (mas falaremos sobre isso mais para frente).

Além de escola, a Kathakali School é uma grande trupe artística e promove apresentações e performances em diversos locais da Índia e do mundo. Antes das turnês o espaço é utilizado para ensaios, gravações, etc… então, estamos sempre em contato e trocando sobre a cultura e arte de nossos países. É muito emocionante a a curiosidade e interesse genuíno que eles tem pela nossa cultura, e o assunto rende longas conversas. Diversos são os momentos onde nós e eles estamos mostrando fotos e vídeos sobre nossas artes ou demonstrando algum ritmo musical, técnica teatral ou movimento de dança característico dos nossos países.  A instituição também promove alguns espetáculos misturando as diversas manifestações artística do estado de Kerala.

A CASA

Confessamos que a primeira impressão não foi das melhores. Nosso quarto é pequeno, com um banheiro também pequeno e uma janela para o pátio coberto onde acontecem as aulas. Não bate sol, tem um pequeno ventilador de teto e devido ao desuso estava coberto de teias de aranha, mas nada que uma boa faxina não resolvesse. Hoje já nos sentimos muito à vontade, como se fosse nossa própria casa e aprendemos que o melhor é apreciar sem expectativas!

DSC_0509Nosso amado (e bagunçado!) quartinho.

Logo na entrada da residência há uma pequena sala com sofá e uma parede de fotos, troféus e cartazes do Kathakali e do diretor da escola. Ele também mora na escola e seu quarto fica bem em frente ao nosso. Na outra sala, uma cama de solteiro serve de guarda-roupa do diretor com os dhotis (tecidos que os homens usam enrolados na cintura, como uma saia) sempre bem passados e dobrados. Na frente dessa cama um outro quarto para hóspedes. À direita uma cozinha, que está numa situação de limpeza não muito legal (os indianos tem outra relação com a limpeza, bem menos exigente que a nossa) e poucas vezes é usada, já que todos fazemos nossas refeições no restaurante à 400 metros daqui. No fundo, um corredor com 2 banheiros.

DSC_0508Um pequeno banheiro (gentilmente nos deram a única suíte da casa).

Lá fora, um espaço com toldo com varal por todos os lados (tem que ter muito varal porque sempre estão lavando os figurinos das apresentações) e na parte de cima mais um espaço coberto para armazenamento dos adereços e figurinos que possui varal e que às vezes serve de local para as aulas e/ou quarto de mais um morador que dorme por aqui.

DSC_0522No segundo andar da casa, muitos varais e cases com figurinos.

É muito curioso que, tirando as professoras de dança que aparecem nos finais de semana, só trabalham homens nessa escola. Quem cuida das roupas, lava, passa, varre o chão, são todos os homens (alguns de mais idade).

Nossa casa é bem humilde e após 1 mês morando nela já nos sentimos muito à vontade e confessamos que até estranhamos a facilidade que tivemos com a adaptação. Percebemos na verdade que não precisamos de muito para viver, apesar de vez em quando sentir falta do nosso colchão ou do nosso travesseiro, mas nada que não passe rápido. Ah, claro! Não temos água quente! Tudo bem que o calor aqui é absurdo, mas de vez em quando, principalmente a noite, falta-nos uma água quentinha para relaxar os músculos tão doloridos devidos as aulas práticas, mas é mais uma vontade que passa rápido e nos permite continuar aproveitando da melhor maneira possível essa nossa nova maneira de viver e essa nossa nova casa, que tem nos proporcionado tantas boas experiências por aqui.

DSC_0515À esquerda, nossa casa. No fundo, Janine treinando Kathakali.

A FAMÍLIA

Com uma convivência diária e intensa, os moradores da escola já podem ser considerados como nossa família provisória (a família aí do Brasil não precisa ficar com ciúmes, tá?).

Kalamandalan Gopalakrishnan é o diretor da instituição, o dono da casa, o chefe, o que manda. É ele quem toma todas as decisões sobre tudo por aqui e sempre é requisitado por todos. Apesar de ter uma responsabilidade enorme de organizar tudo, sua personalidade é extremamente doce e carismática. Mesmo cheio de coisas para resolver sempre está com um sorriso no rosto, às vezes nos parece ser uma criança com brilhos nos olhos e inocência no coração. Ele não fala muito inglês portanto nossa comunicação nunca foi intensa, mas está sempre disposto a nos escutar, nos ajudar e nos cuidar. Uma figura bem paterna.

DSC_0318Da esq. para dir. Janine, Kalamandalam Udya Kumar e Kalamandalan Gopalakrishnan.

Kunhikrishnan é professor de Chutti (maquiagem para Kathakali). Foi apelidado carinhosamente pelo nosso guru de “little bottle” ou em bom português “garrafinha”, porque seu tamanho é inexplicavelmente pequeno (menor que eu, Janine). Ele é o que melhor fala inglês aqui e que nos dá todas as informações necessárias sobre a escola, sobre a cidade, sobre o Kathakali, sobre a política. Ele é o conselheiro e braço direito do diretor, sua mulher e filho moram em outra cidade e por isso ele dorme aqui também. Ele está sempre está preocupado com a nossa comida. Se os lugares estão fechados (há muitas greves gerais por aqui) ele nos avisa e busca comida em algum outro lugar, se a gente não acorda para tomar o café ele traz e bate na nossa porta para avisar. Sempre pergunta o que comemos, onde vamos, que horas voltamos. Um ser humano muito querido que convive com a gente diariamente e que nunca vimos de mau-humor ou estressado, um grande exemplo. Suas atitudes e conselhos nos lembram muito do cuidado que temos das nossa mães.

Janine e KunhaqraO amável Kunhikrishnan e Janine.

Satheesh Tisty, é o faz-tudo da escola, office boy, produtor, motorista, etc. Apesar de ter a mesma idade que nós, parece um adolescente louco para “viver a vida adoidado”. Aqui os casamentos ainda são arranjados, mas ele já avisou a família que só casa depois de conhecer a mulher da vida dele, até lá, leva a vida do típico mulherengo festeiro. É nosso companheiro de aventuras e de bar. Está sempre querendo aprender coisas sobre o Brasil e nos ensinando sobre a vida na Índia. Acredita muito nos deuses hindus e crê que será um corvo na próxima vida o que fará ele viver muito mais livre e intensamente que nessa. Seu quarto é uma cama sempre bagunçada na parte de cima da escola. Também está sempre sorrindo e se expressando com mil caras e bocas. É nosso irmão mais novo.

DSC_0302Satheesh e sua inseparável companheira/motocicleta.

Kalamandalam Udya Kumar é o nosso guru e também foi o guru do diretor da escola. Ele possui uma enorme experiência como ator e já viajou para diversos países, para ensinar ou apresentar sua arte. Ele é muito, mais muito sabido de Kathakali. Sua mulher é uma grande artista dançarina e também é professora no Kalamandalam (universidade de artes). O casal é muito respeitado pelos artistas daqui e apesar de passarem por perrengues (justamente pela profissão escolhida) tem uma paixão pela arte que está expressa no olhar e na alegria em ensinar.

DSC_0511Kalamandalam Udya Kumar, durante a aula. Uma grande referência no Kathakali.

Todos eles já fazem parte da história de nossas vidas e são exemplos de pessoas que vivem suas vidas com sorriso no rosto e amor ao próximo no coração.

Segue aqui um vídeo com alguns trechos das aulas e ensaios que acontecem aqui na escola.

Cheruthuruthy- A vila que respira arte

Che-ru-thu-ru-thy, esse é nome do lugar onde estamos morando nesse momento. É um distrito tão pequeno que pode ser considerado um vilarejo. Uma importante estrada e uma ferrovia que ligam o norte e o sul do estado cortam a vila ao meio. O aeroporto mais próximo fica em Kochin (cerca de 110km) e também é possível chegar à cidade de automóvel ou trem, descendo na estação Vallattol Nagar ou na Shoranur Junction (na vizinha Shoranur).

DSC_0031aEstação de trem Vallattol Nagar.

Nossa nova casa está situada em Kerala, estado que possui o mais alto Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) da Índia e com propostas de governo bem avançadas se comparadas aos outros estados. Aqui há programas de “água limpa”, saneamento básico, turismo artístico, rural, radical e terapêutico, incentivo à medicina ayurvédica, além de muitas outras propostas interessantes para a população. Aqui misturam-se diversas crenças: hindus, muçulmanos e cristãos (herança dos portugueses que por aqui estiveram entre os séculos XVI e XVII). A convivência é harmônica e não há tentativas de conversão religiosa, o respeito prevalece.

DSC_0004Estrada em frente à Kathakali School Society, nossa casa aqui em Cheruthuruthy.

Alguns se referem à cidade também por Vallattol Nagar, que aqui descobrimos ser o fundador do estabelecimento mais importante e pilar central da cidade: a Kerala Kalamandalam Deemed University of Art and Culture, ou seja, a Universidade de Artes de Kerala.

DSC_0095Portão principal da Kerala Kalamandalam.

O campus tem um tamanho realmente impressionante. Boa parte da cidade gira em torno dessa universidade. Muita gente que mora aqui trabalha lá, ou tem alguém da família que estuda lá, ou já estudou. O restaurante onde comemos todos os dias fica na frente do campus e lá podemos conviver com todos os mestres e estudantes da universidade. Nós, estrangeiros, temos que pagar ingresso para entrar no Kalamandalam (estudantes da universidade, mesmo de outros países não pagam), portanto eu e o Mateus não frequentamos diariamente o campus, mas sabemos de todas as atividades com os amigos que fizemos no restaurante que frequentamos.

Kerala Kalamandalam é sinônimo da tradição da arte e cultura de Kerala. Kala significa artes e Mandalam tem vários significados: círculo grande, espelho, o horizonte e assembléia. Foi criado com a intenção de “resgatar” as artes clássicas de Kerala, principalmente o Kathakali. Para entrar lá há uma rígida seleção e os alunos devem estudar durante 8 anos. 8 anos de estudo diário e árduo. Além da Universidade de Artes, a cidade abriga a Universidade de Ayurveda e de Engenharia o que cada vez mais coloca Cheruthuruthy como uma vila universitária.

Há também uma grande escola de primeiro e segundo graus. Nela há uma quadra de esporte. É ali que acontecem os jogos de futebol da galera todos os dias e nos turnos da manhã e tarde é também uma escola de futebol. Grama? Não tem. Linha lateral? Menos ainda, mas a paixão pelo esporte tem em todos os jogos. Eu (Janine) e muitos meninos somos os torcedores-observadores, que vibram por cada gol e admiram a paisagem do pessoal jogando, com o sol se pondo e o céu se apagando com o anoitecer. O Mateus joga com os adultos, e as crianças que assistem o chamam de “brazilian”, aqui todos são fãs do futebol e dos jogadores tupiniquins.

DSC_0034O maior super-mercado da cidade, tudo empilhado e bagunçado.

Próximo ao rio está o centro de Cheruthuruthy. É aqui que tem todas as lojas (de roupas, coisas para a casa, mercados, etc.), bancas de frutas e peixes, restaurantes (indiano, arábico, ocidental), farmácias e todo tipo de comércio. Todos os fins de semana, o casal aqui, na vontade de sair da rotina alimentícia de sempre, vai até o centro para comer um “chicken burguer”, ou uma batata-frita com milk-shake. É nosso refúgio quando bate uma saudade da comida ocidental (mesmo que seja junkie). Por falar em milk-shake, esse que tomamos foi escolhido o melhor de nossas vidas!

DSC_0030O movimentado centro de Cheruthuruthy.

A cidade termina às margens do Rio Nila. O rio é a divisão com a próxima cidade, Shoranur. A paisagem é impressionante. Na época de monções (junho a setembro), o rio aumenta e suas águas alcançam as margens, na época de seca a vazão diminui consideravelmente e pequenas ilhas se formam. Nesse rio as pessoas se banham, brincam, pescam e a vida se refresca. Uma das únicas filmagens que vimos em nossa pesquisa sobre Cheruthuruthy antes de chegarmos aqui era sobre a antiga ponte, construída em 1948 e que desmoronou em 2011.

DSC_0032Jovens e as pontes rodoviárias, a nova e a desmoronada.

Atravessando a nova ponte, já em Shoranur, fica o Nila Beer & Wine Parlour, o único bar da região. Para a venda de bebidas alcoólicas é necessário um alvará especial, por isso são raros os bares aqui em Kerala. É lá que vamos quando bate uma vontade de tomar uma cervejinha. O lugar não é dos mais aconchegantes, lembrando os bordéis brasileiros: luzes baixas e pontos coloridos, dificultando o reconhecimento de quem está lá dentro. A primeira vez que fomos foi um pouco assustador, nenhuma mulher. Agora já acostumamos e não vemos nenhum problema.

DSC_0024Ponte ferroviária sobre o Rio Nila.

A estrada principal que percorre a vila, é cortada por pequenas ruas que nos levam para dentro da montanha e da floresta. Casas gigantescas, consideradas mansões fazem parte da paisagem verde, com muitas árvores. Coqueiros, muitos coqueiros. A noite, um céu que se transforma em um tapete de estrelas. A região onde está Cheruthuruthy está encravada na floresta do sul da Índia, então há abundância de verde e um clima típico de floresta tropical com muitos pássaros, insetos, rios e paisagens.

DSC_0019Os principais meios de transporte na cidade são as motos e os auto-rigshaws (tuk-tuks).

A cidade é pequena e tem sua beleza natural, porém o que mais nos encanta aqui é o povo que distribui sorrisos por onde passamos, mas sobre eles falaremos melhor em um outro post. Fechamos aqui com o pôr-do-sol que nos presenteia todos os dias com sua beleza e plenitude.

IMG-20170723-WA0009Pôr-do-sol em frente à nossa casa/escola.

നന്ദി (obrigado)

Ps.: Na página galeria de fotos tem fotos inéditas e as que ilustram este post.

 

Afinal, o que viemos estudar na Índia?

Como já havíamos comentado em nosso primeiro post estamos na Índia porque fomos aprovados em um edital de residência artística da Funarte, Ministério da Cultura, Governo Federal, e recebemos uma bolsa para estudar durante 3 meses em algum lugar do país ou exterior. Na hora de escrever o projeto pensamos em duas possibilidades: estudar Máscaras Balinesas em Bali ou Kathakali na Índia. Como tínhamos que ter uma carta de uma instituição dizendo que nos aceitavam, escrevemos para vários lugares e o que nos respondeu a tempo da inscrição no edital foi a Kathakali School Society, em Cheruthuruthy, Kerala, Índia. Claro que ao inscrevermos o projeto sabíamos que haveria grande concorrência e seria difícil sermos aprovados mas… cá estamos nós!

Alguns de nossos amigos artistas sabem o que é o Kathakali, porém, os amigos que não trabalham com arte e nossos familiares não tinham ideia do que iríamos estudar e por isso escreveremos um pouco aqui nesse post.

Quem conhece o método de trabalho da Ave Lola (companhia teatral em que trabalhamos) e quem viu o último espetáculo “Nuon” tem uma ideia porque escolhemos a Índia como fonte de inspiração. Eu (Janine) acredito que as artes asiáticas, assim como o teatro em sua origem, servem de inspiração e base de trabalho e conhecer seus ritos nos fazem realinhar com o verdadeiro sentido do teatro.

Em poucas palavras, o Kathakali é uma performance de teatro, dança, música e mímica originária na antiga região do Malabar (atual estado de Kerala), no sudoeste da Índia e que traz personagens mitológicos do universo religioso hindu. Faz parte da vasta arte folclórica de Kerala junto com as danças e outras manifestações.

A história é longa e complexa e por isso estamos juntando material para criar uma página exclusiva sobre o Kathakali aqui no site, falando sobre as informações técnicas, história e curiosidades dessa arte. Em linhas gerais, o que nos fez chegar até aqui é que o Kathakali, sua estética, linguagem cênica e secular tradição atoral, seu treinamento e práxis, ainda hoje inspiram reflexões importantes sobre a arte teatral.

Dentro do curso que estamos fazendo sabíamos que teríamos a chance de assistir algum espetáculo nesses três meses. Já na primeira semana tivemos essa oportunidade única e inesquecível. Vale ressaltar que a performance que vimos não foi uma representação completa do Kathakali (pois uma apresentação dura de 6 a 8 horas, com muitos atores), o que assistimos foi apenas o personagem Krishna no Purappadu, dança da invocação divina que abre alguns espetáculos de Kathakali. Com certeza conseguimos ter um real panorama do que essa arte representa e da riqueza dos detalhes envolvidos e que tanto nos impressionaram.

Na sexta-feira da primeira semana de estadia fomos avisados que a escola iria participar de um festival artístico em Thrissur, cidade bem próxima de Cheruthuruthy, onde moramos hoje. Pegamos o ônibus perto do horário do almoço junto com as 30 crianças e jovens que fazem aula de dança na escola nos finais de semana, artistas das diversas artes de Kerala, nossos professores, a equipe de produção e o diretor da escola.

Na ida, já foi uma festa! O ônibus tinha muitos (e potentes) equipamentos de som e assim que a música começou as crianças se levantaram, cantando e dançando no corredor do ônibus, no meio da estrada, se equilibrando a cada curva. Uma animação só! Chegamos em Thrissur debaixo de uma forte chuva (é verão aqui, época das monções). Almoçamos em um centro de medicina Ayurvédica (comida vegetariana) e fomos para o local da apresentação! Um teatro, como os nossos, um pouco mal cuidado, porém digno! Atrás do palco, de um lado o camarim das crianças e do outro o dos atores mais velhos.

Ficamos um tempo no camarim das crianças observando a alegria de todos, até que fomos convidados a ir para o camarim dos atores. Lá, um deles já estava no chão, enquanto o maquiador fazia delicadamente o seu chutti (nome dado à maquiagem do Kathakali). Quando eu (Janine) vi a cena, confesso que meu coração disparou. Já havia visto esse ritual em fotografias e vídeos, mas nunca imaginei que veria ali, ao vivo e à cores  na minha frente. O sentimento era parecido com a infância, quando ganhávamos o presente que sempre sonhamos! Um sorriso se abriu e com o maior cuidado sentei bem ao lado e comecei a observar tudo. A sensação era de sonho se tornando realidade. Kunhaqra Shnan, professor de maquiagem da escola foi nos ensinando passo a passo da maquiagem, da vestimenta, de tudo. Os outros atores foram chegando, começando a se arrumar, e a gente ali. Eles brincavam com a gente, cantavam, passavam os movimentos, tiravam uma onda com a nossa cara como se fossemos uma grande família! Uma verdadeira trupe, um ajudando o outro!

Na apresentação, já no começo da noite, uma excitação toma conta de nossos corpos. Conforme a trupe ia se apresentando, um depois do outro, os olhos iam brilhando e os queixos caindo. Sabíamos que o Kalamandalam Aravind, ator de Kathakali seria o terceiro a se apresentar. Quando começou parecia inacreditável. Ali na nossa frente. Vivemos cada segundo daquele momento. Mesmo sabendo que aquilo ali seria uma pequena amostra do Kathakali a experiência já foi surreal e arrepiante. Dentro da performance da escola também conhecemos outras danças e manifestações. Teve luta, fogo, rituais e beleza!!! Uma riqueza artística!

Abaixo segue um vídeo com a preparação e trechos da apresentação de Kathakali e fotos das outras performances. No próximo mês iremos assistir uma performance completa, mas a primeira apresentação já nos marcou profundamente e jamais será esquecida.

Nandi (obrigado em Malaialam, idioma de Kerala)!

DSC_0029Mohiniattam, dança feminina clássica de Kerala. Performance por Kalamandalam Aswathi.
DSC_0050Kalari Payettu, arte marcial de Kerala, com escudo e espada.
DSC_0085Thiri Ritual, o artista Mana usa fogo para invocar as divindades.
DSC_0115Theyyam, dança ritualística hindu. Sivadas Paneqqer interpreta Pothi.
DSC_0133Thira e Poothan, dança ritualística de Kerala.
DSC_0141Patayani, dança ritualística folclórica. Performance por Narayanan.
DSC_0148Estudantes da Kathakali School Society em um número que mistura diversas danças de Kerala.
DSC_0077Kathakali, nosso objeto de estudo. Kalamandalam Aravind interpretando Krishna. 

 

 

Kathmandu (Nepal) – O teto do mundo

Após quase duas semanas no norte da Índia, nosso próximo destino era Kathmandu, a capital do Nepal. Escolhemos passar por aqui por uma série de razões:

• O Nepal é o país mais alto da Terra, onde fica o Everest, o teto do mundo.

• A bandeira do Nepal é única, rompendo o padrão retangular e tendo uma forma de triângulos sobrepostos, numa clara referência ao horizonte dos himalaias. Viva a transgressão e a originalidade!

• Na minha opinião (Mateus) o nome Kathmandu tem a fonética mais linda entre todas as cidades do mundo.

• Em janeiro deste ano (2017) estivemos no Chile, e não poderíamos deixar passar a oportunidade de visitar as 2 mais importantes cadeias de montanhas do mundo (Andes e Himalaias) no mesmo ano.

• Somos budistas e Buda (Siddhartha Gautama) nasceu no Nepal.

nepal-flag-922x691A bandeira do Nepal, original e conectada com a geografia do país.

Fomos de avião e a chegada foi surreal. Haviam muitas aeronaves se aproximando do aeroporto e nosso piloto ficou sobrevoando a região da capital por aproximadamente 10 minutos. Uma oportunidade abençoada de admirar a cordilheira do Himalaia do alto. Após o congestionamento aéreo prosseguimos para o pouso, por entre as montanhas, até a pista no vale de Kathmandu. A tarefa certamente exige habilidade e experiência dos pilotos.

DSC_0139Kathmandu fica em um vale, cercada por montanhas.

Kathmandu tem uma característica muito especial. A cidade pode ser dividida em duas: a cidade do chão, das ruas e a cidade do céu, dos terraços. Como o vale onde a capital nepalesa se formou ficou pequeno para tanta gente, o crescimento tornou-se vertical, com grande parte das edificações nos terrenos tendo andares (dificilmente mais do que 7). Na Kathmandu do chão, o caos. As ruas raramente são asfaltadas e o trânsito é enlouquecedor. Guardas de trânsito fazem a função dos semáforos nas ruas maiores, já nas menores, é cada um por si. Na Kathmandu do céu, a paz.  Como os prédios são baixos, sempre avista-se as montanhas, uma leve brisa sopra constantemente e as diversas espécies de pássaros fazem a trilha sonora.

DSC_0048Hora do rush.
DSC_0061Os prédios em Kathmandu são coloridos e cheios de vida.
DSC_0101Bandeiras com orações e o vale de Kathmandu, vistos do alto do tempo Swayambhunath.

Por toda parte, encontram-se monumentos hindus (religião da maioria dos nepaleses) e budistas. A fé, assim como na Índia é parte da rotina diária do povo, com pausas regulares para orações. Na cidade, visitamos o Swayambhunath, templo budista localizado no alto de um morro. O local também é conhecido como templo dos macacos, pois nossos amigos primatas estão presentes em todos os lugares do complexo. A subida é longa e difícil mas a vista do vale, a atmosfera do templo e a energia que se sente lá em cima recompensam todo o esforço.

DSC_0115No alto de Swayambhunath, os olhos de Buda observam Kathmandu e abençoam o povo do Nepal.

Interessados também pela fé Hindu, visitamos o Templo de Pashupatinath, localizado às margens do Rio Bagmati (que centenas de kilômetros depois deságua no Ganges). Infelizmente, na área central do complexo só podem entrar os praticantes do hinduísmo. Durante nossa visita, circulamos nas margens do rio e vimos algumas cerimônias de cremação, feitas em locais próximos à água, onde os restos mortais são despejados após as homenagens. As cenas que vimos foram fortes e a maneira hindu de lidar com a morte é bem diferente da nossa. Para eles é uma honra ter seu funeral realizado em Pashupatinath, pois a Mother Ganga os conduzirá após sua passagem. Nossos sentimentos e respeito aos que ali foram cremados durante nossa passagem.

DSC_0035Complexo hindu de Pashupatinath.

Em 2015, um terremoto fortíssimo devastou a cidade, causando a morte de milhares de pessoas e a destruição de muitos edifícios históricos e templos milenares. O impacto ainda pode ser visto nas ruas de Kathmandu, com obras de restauração e reconstrução por todo lado, sendo difícil ver uma área onde não hajam prédios escorados, entulhos e gente trabalhando em construções. A praça Durbar, talvez o principal ponto turístico da cidade, foi intensamente atingida, suas torres e templos forma destruídos ou muito danificados. Só ali, quase 200 pessoas morreram no dia do terremoto.

DSC_0082Praça Durbar e a mensagem de que juntos reconstruirão o que foi destruído, ficamos na torcida!

A região de Thamel é onde ficam a maioria dos hotéis e restaurantes da cidade, e é visivelmente preparada para os turistas. Ruas asfaltadas, centenas de lojas de souvenir e artesanato e preços bem salgados. Aliás, o ponto negativo da cidade são seus preços altíssimos e a cobrança de ingressos para tudo, templos, parques e inclusive praças públicas. O jeito foi encarar como uma contribuição para a reconstrução da cidade. Buscando escapar dos preços altos e do agito incessante de Thamel, nos hospedamos no bairro de Dhalko, um pouco mais afastado e muito mais silencioso e tranquilo.

DSC_0161O agitado bairro de Thamel.

O povo do Nepal é espirituoso, sorridente e receptivo, e apesar da pobreza e das dificuldades climáticas e sísmicas, parecem muito felizes. Em nossa passagem pelo Nepal foram centenas de cenas de gente vivendo, trabalhando e passeando alegremente. As ruas de Kathmandu abrigam vida por todos os lados e temos certeza que um dia voltaremos (para uma escalada nos himalaias, quem sabe?).

DSC_0154Fomos abençoados pela mãe natureza com um inesquecível pôr-do-sol atrás dos himalaias.
DSC_0006Senhor Hindu e os macacos, na entrada do Templo de Pashupatinath.
DSC_0023Garden of Dreams, um belo parque em Kathmandu.
DSC_0079Os bichos estão por todas as partes.
DSC_0063Alimentar as vacas das ruas traz boas energias para os hindus.
DSC_0074Pausa no trabalho para ver o movimento na rua.
DSC_0047Felicidade na lojinha de rua da mamãe!
DSC_0078Hora da soneca.

Rishikesh – Um mergulho sagrado na “Mãe Ganga”

Rishikesh, cidade conhecida por ser a capital mundial da Yoga. É lá que podemos encontrar todas as fontes de conhecimento das diferentes linhas da yoga e meditação. Apesar de eu (Janine) ser uma estudiosa da yoga (já pratico a mais de 4 anos), de
experimentar diferentes meditações e ler vários livros sobre espiritualidade, não foi exatamente isso que nos chamou a conhecer a cidade (mesmo porque nossa estadia foi de apenas 3 dias e para nos aprofundarmos precisaríamos de mais tempo). O que nos levou a colocar a cidade em nosso roteiro foi que ali, o Rio Ganges (fruto das montanhas geladas dos Himalaias) flui através da cidade com sua água cristalina e limpa e assim poderíamos tomar o sagrado banho na “Mother Ganga”.

Confessamos que antes de sabermos que iríamos para a Índia nosso conhecimento sobre o rio e sua importância espiritual era bastante básico. Na verdade foi através do programa “Nas Margens do Rio Ganges”, exibido pelo canal Off, que aprendemos um pouco mais sobre os rituais e a vida que existem nas margens desse rio que atravessa a Índia. Foi o Dharma, guia indiano do programa de TV, quem explicou que muitas pessoas de todo o país fazem peregrinação para tomar o banho sagrado no Ganges e em Rishikesh é onde ele se encontra um pouco mais limpo, antes de ser poluído pelas grandes cidades em suas margens. Assim, a nossa única expectativa na cidade era conhecer a “Mother Ganga”, cultuada com uma Deusa pelos hindus. Segundo a lenda, um rei tentou por muitos anos trazer a Deusa Ganga para a terra para salvar um povo da maldição de um profeta. Ganga então, através de uma trança de cabelo do Deus Shiva, desce a terra e se personifica no rio Ganges. É por isso que acredita-se que aquele que se banha em suas águas terá a remissão dos seus pecados e karmas e a liberação dos ciclos de reencarnação, vida, morte e renascimento. O povo indiano acredita que uma vida não é completa sem pelo menos um mergulho no Ganges e muitos festivais e rituais acontecem em suas margens. Portanto, nós sabíamos da sua importância e da graça e oportunidade abençoada que teríamos ao nos banharmos em suas águas.
Assim que chegamos, deixamos as malas no hotel e fomos logo perguntando como chegaríamos no rio. O caminho era certeiro: a primeira a direita e depois a primeira esquerda.  A descida era íngreme e conforme íamos nos aproximando já sentíamos o cheiro do rio e o barulho das águas correntes. Víamos ao longe a ponte Laxman Jhula. A descida parecia interminável, até que enfim nos encontramos com ela, a Deusa, linda e poderosa diante de nossos olhos. Uma paz tomou conta de nosso espírito. No local onde chegamos, haviam muitas placas informando que era proibido mergulhar ali por causa da correnteza. Saímos seguindo o leito do rio, subindo e descendo as pedras para encontrar um lugar onde fosse possível entrar na água. Mais a frente vimos dois meninos-homens pulando de uma pedra e se divertindo. Estavam vestidos com calças jeans e camisas, todos molhados. Porém, para nós, o lugar era muito difícil de descer e decidimos continuar a procurar mais para a frente… até que… TCHARAM!!! Uma mini prainha de areia saltou aos nossos olhos, como se tivesse sido feita a mão! Haviam dois outros meninos na água e vimos que era uma área rasa e sem correnteza. O Mateus se despiu e entrou de sunga mesmo, eu (Janine) estava temerária com uma questão que existe aqui na Índia: mostrar as pernas e os ombros não é muito recomendado. Além disso, não estávamos sozinhos, toda hora passavam por ali botes de rafting cheios de gente de todos os lugares do mundo, mas principalmente indianos. Com o apoio do Mateus, tirei a roupa e de maiô entrei nas águas geladas da “Mother Ganga”. Geladas mesmo, mas não o suficiente para nos impedir de aproveitá-la, senti-la e contemplá-la… Estávamos abençoados.! A sensação era de pura leveza. Ao sairmos parecia que haviam tirado toneladas de nossas costas. A paz… Sentamos nas pedras para apreciar e viver mais um pouco cada instante daquele momento. Depois desse tempo resolvemos voltar e sabíamos que tínhamos uma longa subida pela frente. Logo no começo da estrada conseguimos carona com um abençoado grupo de indianos que ali passavam. Terminamos o dia de alma limpa.

No outro dia acordamos um pouco tarde e sentamos para decidir o que faríamos. Eu queria fazer meditação, o Mateus queria ver o local de bungee jump, porém sentimos uma forte vontade de trocar todas as possibilidades por fazer um rafting pelo rio. No hotel mesmo conseguimos fechar o horário. Fomos nós dois, um indiano que mora na fronteira com o Nepal e uma família (pai, mãe, filho e filha) de Kuala Lampur, Malásia. 6 pessoas. Chegamos no local de onde saem os botes e vimos que os outros grupos tinham em média 15 pessoas. Pensamos que nossa equipe estava um pouco desfalcada. O Mateus e o filho da famíla malaia eram os mais fortes e iriam remar na frente do barco. O resto, bem, o resto ia tentar ajudar… A saída do barco já era movimentada, entrávamos direto em uma forte correnteza. De primeira já passamos por uma onda gigantesca que parecia uma montanha russa. O chefe do barco gritava : – Remem!!! Rápido!!! Rápido!!!! Eu, Janine, tive uma crise de riso e o Mateus, junto com o outro menino, fazia um enorme esforço para dar conta das remadas e nos guiar naquele furacão. Nunca vou esquecer o momento que se passou depois que ultrapassamos a correnteza. Um rio liso, correndo entre as pedras, árvores e montanhas. O Sol lançando sua luz na água, e nós ali, sozinhos, pequenos diante daquela magnitude. Uma enorme paz pairou no ar. Uma contemplação da pura natureza que nos cercava. Uma certeza de que o amor, a luz, a paz existem,  eles estavam ali, presentes naquele momento.
Mais a frente outra correnteza e : -Vamos!!! Remem!!! Rápido!!! A todo vapor!!! O espírito de aventura e adrenalina voltaram ao nosso corpo. Passada mais uma área agitada, novamente a paz. Dessa vez, pulamos na água e deixamos a correnteza nos levar. A água gelada naquele calor era o refresco que precisávamos. Deixar nosso corpo fluir e contemplar o céu azul bem em cima de nós, ouvindo os pássaros e o barulho da água, mais um momento inesquecível. “Obrigado, obrigado, obrigado Mother Ganga”, era só o que se passava em nossas mentes.

Voltamos para o barco para chegar em uma parada estratégica. A pedra na beira do rio para um salto de 5 metros. Os olhos do Mateus brilharam! Logo que nosso barco parou o Mateus e seu companheiro de remada subiram correndo as pedras para chegar ao local dos saltos. Numa piscada já vejo o Mateus pulando com um mortal de costas. O povo em volta ficou enlouquecido! Muitos estavam com medo da altura do salto. O indiano do nosso barco não teve coragem e pulou de uma pedra mais baixa. O pai e a filha bravamente pularam da mais alta. Sobramos eu (Janine) e a mãe no barco só olhando e apreciando a alegria de todos. Já estávamos há um bom tempo lá, quase prontos para irmos embora quando o Mateus me convence da oportunidade única de pular com tudo nesse rio. Se fosse outro rio talvez eu não desse muita bola, mas era Ganga, a Deusa. Não aguentei e pulei… Foi maravilhoso! No barco, só faltava a mãe. Quando estávamos quase indo embora ela saiu do barco e sozinha foi até a pedra. Olhou para baixo, exitou, desistiu por uns momentos e de repente… lá estava ela se jogando no Rio
Ganges!!! Saímos de lá com a sensação de dever cumprido. A vontade era de fazer tudo de novo, todos os dias da vida.

Obrigada Mother Ganga, obrigada por tudo. Obrigada por nos proporcionar momentos de alegria, felicidade, amor e paz.

PS: Em Rishikesh eu (Janine) fiz aulas de yoga e uma meditação guiada por um discípulo do Osho, mais alguns momentos de reflexão e conexão. Também saímos para tirar umas fotos do alto da montanha e no caminho conhecemos um senhor que nos convidou para adentrar em sua casa e ver do seu terraço a paisagem que procurávamos. Lá em cima, sua mulher sentada nos tijolos da construção não falava inglês, mas sorria para a gente. Que visão! Que brisa! Que carinho desse povo querido!
Outro momento marcante foi a visita ao Trayambakeshwar, o mais famoso templo hindu de Rishikesh. Subimos até o último andar para lá de cima contemplar a beleza da cidade. Ainda no templo, na beira do rio, participamos do ritual do fogo que acontece toda a noite. Uma poesia e beleza sem igual.

Gratidão por tudo que ouvimos e sentimos.

Namaste

DSC_0004Rio Ganges, com a cidade de Rishikesh ao fundo.
DSC_0010Nossa prainha!
DSC_0056A movimentada ponte Raxman Jhula.
DSC_0021A família que nos convidou para conhecer seu terraço, com uma linda vista.
DSC_0082Trayambakeshwar Temple.
DSC_0092Fim de tarde em Rishikesh.